Recordando Ramiro Correia

 

RECORDANDO RAMIRO CORREIA

Manuel Begonha
Presidente da Assembleia Geral

 
 
Ramiro Pedroso Correia, nasceu em 15 de Outubro de 1937, no bairro de Alfama, em Lisboa.
Faria nesta data 85 anos.
Era um desportista de eleição, tendo-se distinguido especialmente no badminton, em que foi campeão nacional.
Começou cedo a despertar para os problemas políticos e sociais, tendo na sequência da crise académica de 61/62, ficado ligado à criação da secção editorial da Comissão Pro-Associação de estudantes de medicina em Coimbra , em cuja universidade concluiu o Curso Geral de Medicina.
Posteriormente , optou pela especialidade de cardiologia e investigador na área de vecto-cardiografia no Hospital de Santa Maria em Lisboa.
A sua carreira naval, embarcado, terminou em 1970 numa comissão em Moçambique na fragata "Álvares Cabral", onde desenvolveu uma intensa actividade cultural e desportiva com a respectiva guarnição, nomeadamente no jornal de bordo "O Chocalho". Foi numa altura em que estando na corveta "João Coutinho", aprofundei o meu contacto com ele que se intensificou, a partir de 1972 no Grupo n 1 de Escolas da Armada em Vila França de Xira.
Em 16 de Março de 1974, Ramiro Correia liderou comigo um grupo de oficiais que prendeu o respectivo Comandante, a fim de evitar que ele enviasse forças para impedir o avanço da coluna militar, proveniente das Caldas da Rainha em direcção a Lisboa.
Ramiro era também poeta e em Janeiro de 1973, edita o seu primeiro e único livro de poesia, intitulado "Na Clivagem do Tempo".
No entanto, escreveu muitos outros poemas dispersos por várias publicações.
Lembro do seu livro o seguinte :
"Um dia dei por mim a chorar
e meu avô que é marinheiro
e morreu agarrando o Sol com as duas mãos
atravessou o riacho
e com o seu sorriso de búzio e maio
atirou-me um cacho de uvas
foi assim "
Em 25 de Outubro de 1974 é apresentada publicamente numa conferência de imprensa no Palácio Foz, a Comissão Dinamizadora Central (CODICE), para a qual me convidou, integrada na 5ª Divisão do EMGFA que em conjunto com a Direcção Geral de Cultura Popular e Espectáculos, irá levar a cabo o Programa de Dinamização Cultural, coordenado por Ramiro Correia.
Em 17 de Março de 1975 passa a fazer parte do Conselho da Revolução, escolhido pelos seus camaradas da Armada.
Em 24 de Junho de 1975, primeiro tenente médico naval, graduado em Capitão-de-Mar-e-Guerra, assume o cargo de chefe da 5ª Divisão do EMGFA.
A partir desta data, substitui-o como coordenador da CODICE.
Na sequência do golpe de 25 de Novembro, desiludido, Ramiro oferece-se como médico cooperante em Moçambique.
A 1 de Maio de 1976, partirá com a família, onde com a sua mulher Isabel Lacximy, igualmente médica foi colocado no Hospital Central do Maputo.
Por indicação do Presidente Samora Machel, passa a ocupar funções no Conselho Coordenador deste Hospital.
Apesar de fervilhar em projectos, numa tarde trágica no Bilene, cessam estas ideias e planos , quando juntamente com a mulher e o filho mais novo morrem, ao virar-se a embarcação na qual velejavam, devido a uma onda mais forte.
Lacximy morre por congestão e Ramiro com o filho às costas, ao tentar trazer para terra o corpo dela, não resiste e afoga-se. O filho mais velho mandado nadar para terra salvou-se.
E assim desaparece jovem um homem de quem tanto se poderia esperar da sua inteligência, criatividade, amor à liberdade e indomável espírito revolucionário.
 
O seu funeral, ocorrido a 13 de Outubro de 1977,
constituiu uma impressionante manifestação de pesar. Por decisão popular e de alguns camaradas mais íntimos, dezenas de milhares de pessoas empunhando cravos vermelhos, fizeram a pé o percurso desde a Capela de S. Roque no Ministério da Marinha ao cemitério do Alto de S. João.
Terminei o elogio fúnebre que então lhe fiz afirmando :
"... Tolerante, era ao mesmo tempo, implacável para quem responsavelmente, tentasse perpetuar o estado de aviltamento do povo português. Era aliás, um homem simples e cativante, de uma estatura intelectual e humana invulgares.
Ramiro Correia, morreu, mas o seu espírito, e a sua obra, continuarão a iluminar as noites do nosso desencanto. "
 
Nutria uma grande admiração pelo General Vasco Gonçalves. 
Acerca dele escreveu :
" Vasco Gonçalves, defesa lúcida dos trabalhadores, o democrata que não pactua com manobras palacianas, que não aceita pressões externas humilhantes, que sabia bem como a divisão dos militares progressistas enfraquecia a Revolução."
 
O pensamento e obra de Ramiro que tinha uma excepcional formação cultural e política, ficaram bem marcados em todos os campos em que interveio.
No militar, a sua acção nas campanhas de dinamização cultural e ação cívica. 
Na escrita, deixou numerosos textos sobre as mais diversas matérias.
Lembro as suas reflexões, acerca da arte, tema que muito o interessava, num discurso no Centro Nacional de Cultura em 1975.
"Sempre foi claramente afirmado pelos militares, que desde os primeiros momentos contactaram escritores, artistas plásticos, cineastas, críticos, actores, músicos, cineclubistas, todos, que não nos encontramos perante um golpe militar, mas de algo muito mais profundo e belo, de uma Revolução em marcha a caminho do socialismo.
A Arte não deve estar ao serviço da Revolução.
A Arte é, em si própria Revolução. "
E numa intervenção na RTP em 6 de Junho de 1974 :
"... o fascismo é irreconciliável com a Arte. A Arte é apelo permanente à inteligência e sensibilidade de um povo. O fascismo fomenta a degradação, conduz à morte. Portanto, há logo aqui uma oposição absoluta entre o fascismo e a Arte."
Encontrei-me com o Ramiro em muitos locais ao longo dos seus últimos anos de vida. No entanto, parece-me tê-lo sempre conhecido. Não precisávamos de trocar muitas palavras para nos entendermos quer nos momentos de euforia, quer nas horas de tensão, como nos tempos de desencanto, nos sentimos velhos, muito velhos (quase crianças).
Olhava a vida com um profundo sentido poético, mas na prática conseguia os rasgos geniais para as soluções mais concretas.
Dou comigo a pensar que após este encontro com o trajecto de Ramiro quase nada ficou dito. Não é fácil em poucas linhas apreender o universo dos que se debruçaram sobre um país, à beira da vontade de seguir, e atiraram para dentro dele uma proposta, uma réstia de sol, lutando até ao fim, dizendo sim à vida.

MFA E LUTA DE CLASSES - - Ramiro Correia, Pedro Soldado, João Marujo
RAMIRO CORREIA SOLDADO DE ABRIL - - Eduardo Miragaia, Joaquim Vieira, Manuel Vieira
5ªDIVISÃO MFA REVOLUÇÃO E CULTURA - - Manuel Begonha

 

O grande ventríloquo e o seu boneco na Europa

 

O grande ventríloquo e o seu boneco na Europa

 

 Marques Pinto

Vogal da Direcção

 

Para quem tenha prestado atenção ás declarações recentes da Liz  Truss, primeira ministra do Reino Unido e recentemente empossada  - curiosamente -no dia da morte da Rainha de Inglaterra, deverá ter notado que foi até agora a única figura politica de certo relevo a vir expressamente apelar a uma acção de ataque “preventivo” contra a Rússia com o “uso de armas nucleares, mesmo que tal acção levasse a uma guerra de efeitos arrasadores, desde que tal fizesse desaparecer definitivamente a ameaça Russa”.

 

Penso que qualquer habitante na nossa Europa - apelidada frequentemente pelos EUA de Velho Continente – que tenha o mínimo de compreensão e saúde mental terá ficado preocupado e apreensivo com esta declaração, a não ser,  tal como eu penso o “ Boris, despenteado mental” afinal deixou a herdeira certa no seu posto que teria sido obrigado a abandonar com um “hasta siempre” largado com o sorriso alvar que o caracterizava.

 

Recordemos aqui que o Boris tanto em Londres como na visita a Kiev teve sempre a preocupação de apelar e insistir que a Ucrânia não deve aceitar entrar em qualquer tipo de negociações de paz até que a Russia não seja destruída...mesmo que tal empobreça significativamente todo o Continente Europeu

 

Claro que tal recado dito e repetido e agora atentando nas afirmações da nova “despenteada mental” que herdou o cargo, uma única certeza nos fica: Os EUA tal como o ventríloquo, tem ou melhor continua a ter no seu velho aliado e subordinado, que habita a grande ilha europeia o boneco porta-voz dos seus desejos e vontades que por certo pudor perante o resto do mundo os EUA  por vezes não querem transmitir de viva voz.


Para onde caminha a Europa

 

PARA ONDE CAMINHA A UE

 Manuel Begonha
Presidente da Assembleia Geral
 
 
O colapso da URSS a partir de 1989, ficou a dever-se a diversos factores, desde o desvio da prática socialista, à corrupção de alguns dirigentes, mas sobretudo ao desgaste das funções do Estado, ocorrido durante a guerra fria, devido ao aumento dos custos com a Defesa.
Sentiu a necessidade de acompanhar o aumento e modernização do arsenal militar dos EUA, tendo-se deixado arrastar para a guerra no Afeganistão.
Pareceu ignorar que enquanto num país capitalista como os EUA, a produção de armamento enriquece os respectivos fabricantes e indústrias associadas, num país de modelo socialista, as despesas crescentes e sucessivas do orçamento militar irão defraudar outras funções essenciais do Estado, como o apoio social, a saúde, a educação, a habitação e os rendimentos familiares.
É assim, de crise em crise, chegaram ao consulado de Gorbachov.
Presentemente, assistimos a uma tentativa da NATO para repetir a receita.
A Rússia, com a invasão da Ucrânia vê -se confrontada com o aumento da despesa militar, aplicação de sanções, mobilização de cada vez mais pessoal e as consequências sociais da diminuição do PIB.
As dificuldades criadas pelas sanções, parecem estar a ser compensadas pelas exportações de gás natural e outros produtos para os países da Grande Eurasia, outros para a África e para a América Latina, mas principalmente para os BRICS, a que se juntou o Irão.
Tal não evita algum descontentamento do povo russo com a guerra, especialmente os familiares dos combatentes e correspondentes vítimas.
Os EUA definem como objectivo estratégico, o enfraquecimento da Rússia uma vez que são um importante parceiro económico da UE, são a porta para a Eurasia, são um poderoso aliado da China - o verdadeiro alvo a abater - e tem um papel decisivo na construção de um novo mundo multipolar.
Nenhuma destas circunstâncias, diz respeito à UE, o que torna algo surpreendente o respectivo envolvimento tão profundo e militante na guerra da Ucrânia.
Se ainda é, pelo tão apregoado receio de uma expansão da Rússia para os países vizinhos, a actual guerra quebrou claramente esse mito, face à evidente incapacidade demonstrada em derrotar a NATO numa guerra convencional.
Serão ainda sequelas do passado comunista da Rússia, que hoje como é sabido é governada por uma política neoliberal?
Estaremos a ser manipulados por um irracional anti - comunismo?
Seja como for, a subordinação da UE aos ditames dos EUA, apenas lhe está a trazer um incalculável prejuízo.
E assim, vão prolongando esta guerra, assinando o fantasmagórico tratado de Kiev, permitindo a alegada utilização de militares da NATO, fardados de ucranianos e contribuindo para uma situação que poderá levar a Rússia a sentir-se encurralada e acabe por recorrer a uma saída nuclear da qual a UE seria a primeira vítima.
Espera-se que com o aproximar do Inverno, o aumento do custo de vida e os problemas sociais decorrentes das sanções, conduza os povos da Europa a manifestarem-se, tornando os respectivos governos menos beligerantes, criando assim condições para que se consiga alcançar a tão desejada paz.

 

"Me engana que eu gosto"

 

“Me engana que eu gosto”

 

Marques Pinto
Vogal da direcção

 

 

Há alguns dias em conversa num grupo de amigos ouvi uma conhecida frase normalmente atribuída e usada na nossa língua irmã, o “Português do Brasil”.

A frase “me engana que eu gosto” poderá ser usada em múltiplas e diversas ocasiões e circunstancias, contudo no caso presente e a que me refiro aplica-se á sistemática deturpação da verdade, encobrimento e até por vezes a negação de factos e acontecimentos que foram relatados na imprensa e até noticiários televisivos de outros países europeus pertencentes á mesma manada europeia liderada pela capataz designada e escolhida ---  não foi sequer eleita – pelo patrão residente no outro lado do Atlântico.

 

Refiro-me ao quase total alheamento dos nossos “media” em relação á crise e contestação frequente e com grande adesão de elevada percentagem da população rural da Holanda contra a politica que o seu governo a mando da dirigente nazi está a prejudicar toda a agricultura na Holanda, e que tem levado a acções e manifestações frequentes e de grande impacto local como cortes de estradas, e até o deposito de umas centenas de kilos de excrementos frente a residências de políticos seguidistas das acções contra os interesses da população rural.

 

Lembro também a quase total inexistência de imagens e noticias sobre as manifestações anti-crise económica e preços de produtos essenciais que levou muitas dezenas de milhares de Checos a manifestarem-se nas ruas.

Em toda a Europa uma população minimamente esclarecida já está a entender e a fazer entender aos seus representantes nos respectivos governos que é absolutamente necessário e urgente pôr fim a uma situação que encoberta e camuflada por uma guerra está a permitir com a total anuência e permissividade dos seus governantes que os EUA/Nato levem a cabo rapidamente a destruição económica da Europa e a tornem num pequeno grupo de países totalmente domados e subservientes a interesses financeiros e económicos sem capacidade industrial nem energética própria o que no seculo 21 equivale a tornar-se num grupo de países párias e obedientes e quase servos de patrões e interesses estranhos.

 

Penso que será altura de cada um fazer uma análise calma e fria sobre a situação que vivemos e o que realmente pretende deixar aos seus filhos e netos e mesmo que tenha um espirito servilista e acomodatício deve por imperativo de consciência pensar se os seus netos não o poderão julgar no futuro e que juízo farão.

Tópicos para debate na reunião da presidência do CPPC apresentados por Baptista Alves

 

 

 

Reunião da Presidência do CPPC

(13 de Setembro de 2022)

Tópicos para o debate

 

Baptista Alves

(Presidente da Mesa da Assembleia da Paz e Presidente da Direcção da ACR)

 

A situação internacional é hoje caracterizada por uma mudança acelerada na geoestratégia planetária consequente do ressurgimento de outros polos de poder disputando a hegemonia dos EUA nos campos económico e militar.

Com o desmantelamento da União Soviética e o fim da Guerra Fria, os EUA levando a reboque os países europeus engajados na OTAN, então já sem adversário, lançaram-se numa desenfreada corrida expansionista no Leste Europeu, no Médio Oriente e em África, derrubando governos insubmissos, através de ingerências de todo o tipo ou mesmo de intervenções militares sangrentas (Na Jugoslávia, na Sérvia, na Líbia, no Iraque, no Afeganistão e na Síria). Fizeram-no com a complacência da grande maioria dos Estados membros da ONU, com ou sem mandato desta, apenas ancorados na sua supremacia militar incontestada. E mantêm hoje, na lista dos Estados alvos selecionados, a Rússia, a China e o Irão, identificados como não democráticos, desrespeitadores dos direitos humanos, com líderes perigosos autocratas (Cuba e Venezuela, também lá estão) e todos são portanto alvos privilegiados de sanções económicas.

A guerra psicológica desencadeada através dos meios de comunicação social, dominados, na quase totalidade, pelos grandes grupos económicos do planeta que suportam esta estratégia do império global, não tem paralelo na história da humanidade.

O Mundo de hoje, do século XXI da nossa Era, com todos os poderosos meios de informação que um alucinante progresso nos faculta, ficou completamente, ou quase, às escuras: dormiu tranquilo debaixo do ribombar dos  ataques  que  os media amestrados silenciavam afanosamente: cavando  autênticas valas comuns dos direitos humanos.

Como tudo nesta vida não dura sempre, assim aconteceu … e na Síria tudo começou a mudar.

A Síria não estava só! A Federação Ruça e a Síria tinham um tratado de defesa mútua e accionaram-no. E, o que parecia ser, à partida, uma passeata para os bombardeiros, tornou-se num arriscado jogo de medição de forças.

O Irão pôde respirar um pouco, o Afeganistão destroçado, viu fugir os ocupantes e caiu outra vez nas mãos dos talibans… e por aí adiante.

E, chegamos à Europa novamente em guerra, agora na Ucrânia.

Uma guerra que não começou agora, já vinha acontecendo desde 2014. Nós, os ditos ocidentais, é que só agora a vimos. Acordámos tarde… e estremunhados deixámo-nos engajar na ratoeira que o império arquitectou para o ataque final e submissão da Federação Russa e,… por tabela, chegar e submeter a China.

E, o que parece ser mais interessante, é que todos sabem que isto não vai ser possível, … dum lado e do outro do tabuleiro. Todos, a meu ver, estão a jogar na 2ª hipótese: Uma 2ª Guerra Fria. A corrida aos armamentos satisfaz a gula dos complexos industriais-militares e não só (Ou será que os investimentos americanos, na compra de terras na Ucrânia -um terço da área arável) não têm importância? E todos os outros já consolidados nos territórios dos países do leste europeu garantindo o controlo sobre matérias-primas essenciais?

Então, e a China? A China não aparenta estar interessada em nada disto, muito pelo contrário, afigura-se-me que os interesses chineses não o aconselham, mas que estão a ser empurrados para isto, parece ser um facto.

Não creio que esta 2ª hipótese tenha “pernas para andar”. Mais cedo do que se pensa, os interesses divergentes dos diferentes protagonistas de todos estes eventos irão ser postos no tabuleiro, sem rodeios, e são eles que vão decidir o caminho. E, os aparentes consensos actuais vão inexoravelmente desfazer-se. E, a vítima será, muito provavelmente, a União Europeia. E, eu interrogo-me se premeditadamente, ou não?

Da terceira hipótese, ninguém no seu perfeito juízo quer admitir sequer que possa vir a acontecer, mas é disso que a nós, lutadores pela Paz se nos impõe, em primeiro lugar, falar e alertar todo o Mundo para que jamais se volte a falar disso: um conflito generalizado com utilização de armas de destruição massiva (nucleares, biológicas ou químicas e outras com efeitos de destruição semelhantes).

Deixando de parte a aberrante situação para que nos deixamos arrastar - nós os portugueses que até temos bem claramente inscrito na CRP a nossa determinação em preconizar o desarmamento geral e simultâneo e o desmantelamento dos blocos político-militares – podemos intuir que o resultado deste conflito, já com características de pré-III Grande Guerra, não passará disso mesmo e poderá terminar a curto prazo com uma Conferência de Paz - aberta a todos os Estados do Mundo - donde saia uma nova ordem Mundial, baseada no respeito pela soberania dos Estados, ou melhor, suportada nos princípios  estabelecidos no Artigo 7º da nossa CRP de Abril.

É evidente para todos nós, que sou um optimista. Mas acreditem que desde há muito, tento acompanhar a evolução desta magna questão da Paz, e também desde há muito que suspeito que haverá mais hipóteses de chegar a esse objectivo, num Mundo multipolar (Este mesmo Mundo que já temos e que a cegueira congénita de alguns não os deixa ver).

Seremos, ou não, capazes de construir um novo Mundo, com regras assumidas por todos, onde nenhum Estado possa pensar que pode subjugar outro sem consequências, onde os blocos militares sejam desnecessários, onde o desarmamento geral universal e controlado seja um facto, onde seja finalmente possível viver em Paz e construir um Mundo melhor, mais fraterno e mais feliz?

Um Mundo que respeite os direitos dos povos, os direitos do Homem, os diretos das crianças e toda a panóplia de conquistas civilizacionais já consagradas na Carta das Nações Unidas e onde toda a imensa capacidade científica e técnica criada ao longo de séculos e toda a que havemos ainda de criar, seja colocada exclusiva e definitivamente ao serviço da vida.

A GUERRA DAS NAÇÕES - Manuel Begonha

 

A GUERRA DAS SANÇÕES

Manuel Begonha
Presidente da Assembleia Geral

 

O Primeiro Ministro, António Costa, referiu na sua mais recente entrevista que a crise que se avizinha, é resultado da guerra na Ucrânia.
Ninguém duvida de que a Rússia, por razões que não estão no âmbito deste texto aprofundar, invadiu a Ucrânia.
As respectivas trágicas sequelas estão bem à vista.
Mas é conveniente não esquecer que na prática, a dita crise teve origem nas sanções aplicadas à Rússia, cujas repercussões foram mal avaliadas pela UE no seu afã de obedecer às ordens do amigo norte-americano.
Mais uma vez, afinal os EUA são até agora, o único vendedor desta guerra e sem ter sacrificado qualquer militar, excepto mercenários e agentes encobertos.
Passou a ser um importante fornecedor de gás e petróleo à UE, enriqueceu a máquina militar industrial, com a produção de armamento e outros serviços, para além de ter feito ajoelhar a indústria europeia e em especial a Alemanha, logro este que a sra Merkel pressentiu, manifestando-se contra a estratégia de expansão da NATO e as provocações á Rússia.
Mas como as lições do passado são rapidamente esquecidas, resta-nos aguardar que piores consequências não venham a caminho, actuando-se em conformidade com as disposições para a paz da ONU e se removam os obstáculos, para que se chegue a um acordo negociado que é do interesse de todos.


 

Apresentação do livro "OMundo velho está a morrer. O novo ainda não nasceu" de Avelãs Nunes sábado dia 10 de Setembro na Feira do Livro em Lisboa

 

 É já no próximo sábado, dia 10 de Setembro, pelas 14:30, no Palco da Praça Azul da Feira do Livro em Lisboa que será apresentado o livro 

"O mundo velho está a morrer. O novo ainda não nasceu". 

Este é o tempo dos monstros – Apontamentos para tentar compreender a guerra na Ucrânia em conversa com o autor António Avelãs Nunes.

Comentário de Maria Aires Catrapona, ao texto de Manuel Begonha, "Um homem e a sua verdade."

Pelo seu interesse publicamos o comentário de Maria Aires Catrapona, ao texto de Manuel Begonha, "Um homem e a sua verdade."

 

Terrivelmente bem escrito.
Terrivelmente verdadeiro e coerente.
Até me arrepiei por recordar afinal todas estas manobras, estas demandas, e sem dúvida brilharam os meus olhos quando o autor relembra as maravilhas que Portugal viveu nestes tempos.
Vasco Gonçalves, um Homem muito além do seu tempo.
O destino foi cruel, abutres famintos e invejosos puxaram o tapete. O punhal que o feriu ainda hoje, infelizmente, passa de não em mão, a direita mantém as armas, não evoluiu, não aprendeu, a direita realmente padece de ignorância crónica.
Resta-me agradecer aos meus progenitores por me terem permitido viver estes anos de Democracia abundante.
Respirávamos Democracia e isso foi tão bom. Agradeço também a 1 tio, anti-fascista dos 7 costados que sofreu na pele a ditadura atrás das grades do Aljube e Caxias. E que nos longos serões Alentejanos de inverno falava de política da sua e a dos outros, lia os jornais todos, ensinava aos amigos curiosos que por lá iam aquecer os pés, e no fim do serão ligava o velho, mas bonito radio e giradiscos, também podíamos chamar-lhe de telefonia, sintonizava ou tentava sintonizar a Rádio Marrocos Livre (salvo erro era assim o seu nome), e bebia toda a informação que concerteza seria mais credível do que aquela que o então Marcelo Caetano deixava passar.
Adormecia fazendo 1 resumo de tudo, cada serão ali passado ficava mais rica.
Por isso hoje, sou uma revoltada num país que se queria livre e democrata, mas que cujos adjectivos vão esmorocendo.
Falta vigor e espírito de luta a quem vive mal, e nada faz. Resigna-se com a sorte que os tais abutres lhes têm querido impingir.
Às vezes pergunto, teria valido a pena termos um Vasco Gonçalves a lutar por tudo o que lutou??
Quero acreditar que sim.
Deem-me provas reais.
Um grande Bem Haja ao autor do maravilhoso texto.

 

 

Um homem de verdade

 UM HOMEM E A SUA VERDADE 

Manuel Begonha
Presidente da Assembleia Geral

 Acerca da conversa entre o Coronel Baptista Alves Presidente da Direcção da ACR e Nuno Melo, Presidente do CDS, ocorrida no passado dia 31de Julho, na SIC notícias a propósito da intervenção da ACR numa reunião da Câmara Municipal de Lisboa, onde foi reclamada a falta de resposta do respectivo Presidente, a várias solicitações daquela, para ser recebida, gostaria de acrescentar o seguinte.  

A maioria dos actuais representantes dos partidos da direita portuguesa, não viveram a revolução de 25 de Abril de 1974 e muito menos conheceram o General Vasco Gonçalves. 

Quem o conheceu bem como é o meu caso, sabe que o General jamais aceitaria liderar um governo do tipo ditadura. 
Sempre foi um democrata e um homem de carácter e de cultura. E era também patriota.

Contudo a direita não lhe perdoa ter amado o seu povo e ser por ele amado.

Recordo que Vasco Gonçalves se limitou a cumprir o programa do MFA que Spínola queria pôr na gaveta.

Realizou com os seus 4 governos provisórios os célebres 3 D.

Descolonizar, Democratizar e Desenvolver 

E assim transformou Portugal num país moderno, respeitado internacionalmente e com uma Constituição da República, que defende os interesses do país e do seu povo.

  • Não se realizaram as eleições para a Assembleia Constituinte?
  • Não se estavam a preparar as eleições para a Assembleia Legislativa?
  • Vasco Gonçalves mandou matar, torturar ou exilar alguém?

Quando a banca foi nacionalizada, não estava a ocorrer uma enorme fuga de capitais para o estrangeiro, a mando dos amigos do Nuno Melo?

Por outro lado uma missão do M.I.T. que esteve em Portugal de 15 a 20 de Dezembro de 1975, reportou que a economia portuguesa estava surpreendentemente boa, comparativamente com outros países europeus. 

Quanto a comunismo trazido pela ex URSS, já escrevi várias vezes que numa visita de estado que lá efectuei integrado numa delegação, chefiada pelo Ministro do Trabalho, major Costa Martins, em Março de 1975, o primeiro-ministro Alexei Kossyguin, disse claramente que não iriam interferir em Portugal porque não pretendiam hostilizar a NATO. E assim foi.

Nas campanhas de dinamização cultural e ação cívica que com Ramiro Correia chefiei, nunca se apelou a um regime totalitário para Portugal , nem se promoveu o PCP , nem se sugeriu que nas eleições que promovíamos, se votasse neste ou em qualquer outro partido.

Saberá Nuno Melo que antes de 24 de Julho de 1974, o General Vasco Gonçalves, incentivou o Professor Freitas do Amaral, a formar um partido político, tendo como inspiração o partido democrata-cristão italiano.? 
A esta conversa assistiram a eng. Maria de Lurdes Pintassilgo e o adjunto do Gabinete Henrique Mendonça. 

Para acabar, pois muito haveria para dizer. 

Quando fecharam violentamente a 5ª Divisão do EMGFA, nomearam Comandantes das 3 regiões militares oficiais afectos ao grupo dos 9 e exoneraram miseravelmente Vasco Gonçalves de  Primeiro-Ministro, onde estavam essas totalitárias e tenebrosas forças, já que tudo se passou ordeiramente?

Quanto ao tão falado discurso de Almada num tempo em que Vasco Gonçalves estava a ser acintosamente traído por muitos que quando atrelados ao carro da vitória o apoiavam, já cansado e rodeado por trabalhadores, alguma vez procedendo como um tirano inebriado pela perpetuação no poder, clamou por uma guerra civil ou um golpe militar.?  

Ou teve um comportamento de exemplar membro das Forças  Armadas aceitando disciplinadamente o seu destino? 

Criou alguma força terrorista para retomar o poder, como outros chefes militares tão incensados perpetraram? 

Conhece a actual direita quem foi o embaixador norte-americano Frank Carlucci e a sua descarada ingerência na política interna portuguesa? 

Conhece Nuno Melo as organizações terroristas com as quais o seu partido se conluiou e os mortos que provocaram? 

Saberá a direita o resultado das primeiras eleições legislativas e se algumas organizações de esquerda as contestaram, ou se alguma força militar revolucionária as tentou anular? 

Saberá a direita a correlação de forças militares que existiam, quando se deu o afastamento de Vasco Gonçalves? 

Se a direita portuguesa fosse menos ignorante e não entrasse em histerismos despropositados, talvez circulassem menos disparates.


Sessão Pública da CML - Agradecimento


No passado dia 27 de Julho de 2022, pela voz do nosso Presidente da Assembleia Geral, Cmte Manuel Begonha, fizemos uma pequena intervenção na CM Lisboa com vista ao agendamento de uma reunião com o Sr. Presidente, na qual nos propomos levar ao conhecimento de SExa. a ideia da Construção de um Monumento ao General Vasco Gonçalves, na cidade de Lisboa, onde nasceu em 3 de Maio de 1921, monumento para cuja concepção e acompanhamento da construção contamos já com a disponibilidade do Arquitecto Álvaro Siza Vieira.
Fizemo-lo, em cumprimento de decisão da Comissão Executiva, criada para o efeito pela Comissão de Honra das Comemorações do Centenário do nascimento do General Vasco Gonçalves, em 14 de Fevereiro de 2022.

A resposta do Sr.Presidente, com a limpidez democrática digna da função que exerce, anuiu a receber-nos em tempo breve, para análise conjunta do projecto.

A SExa. o Sr. Presidente e a toda a Exma. Câmara, agradecemos publicamente a forma como fomos recebidos e a atenção dispensada para a
nossa proposta, que consideramos de excepcional valia para o município de
Lisboa e para Portugal.

Aos derrotados em 25 de Abril de 1974 e seus sucedâneos, que, utilizando a
liberdade conquistada em 25 de Abril de 1974 - aquele que foi o momento mais luminoso da história de Portugal e para o qual Vasco Gonçalves teve contributo relevante - se atrevem e afadigam agora em mostrar aquilo que são, diremos apenas, com imenso orgulho, parafraseando Vasco Gonçalves:

ELES SÃO O QUE SÃO, NÓS SOMOS GENTE DE ABRIL

Sessão pública da CML de 27 de Julho de 2022 - Monumento ao Gen. Vasco Gonçalves

Neste dia o Presidente da Assembleia Geral da associação falou sobre a possibilidade da construção de um monumento a Vasco Gonçalves na cidade de Lisboa. A nossa proposta mereceu a anuência do sr. Presidente da Câmara, Carlos Moedas.


 

Homenagem a Adriano Correia de Oliveira - Arquivo Sophia de Mello Breyner, Vila Nova de Gaia, 21 de Julho de 2022

Intervenção proferida pelo Presidente da Assembleia Geral do "Centro Adriano Correia de Oliveira" e vogal da Direcção da nossa Associação, Jorge Sarabando.

A ACR fez-se representar por Alexandra Paz do núcleo do Porto

 

Adriano, um canto em forma de Abril

 

Jorge Sarabando
O que desde logo surpreende ao abrirmos esta obra dedicada a Adriano Correia de Oliveira, na comemoração dos 80 anos do seu nascimento, é o número de entidades aderentes à Comissão Promotora, mais de 70, e o número de aderentes individuais, mais de 340, a sua qualidade e diversidade, e a valia dos testemunhos reunidos neste livro, comprovando bem como a memória, do homem e da obra, está bem viva, quatro décadas depois de nos ter deixado, e sendo tão raras as ocasiões de ouvirmos o seu nome e a sua voz.

Uma palavra de louvor é devida à Comissão Executiva em boa hora criada pelo Centro Adriano Correia de Oliveira, de Avintes, pela meritória actividade já desenvolvida, em que se contam edições, como a do livro que hoje vos é presente, os concertos realizados, todos de casa cheia, o êxito da transmissão radiofónica, a Exposição itinerante, patente neste Arquivo Municipal, entre outos actos evocativos, num programa muito rico e variado que só terminará no próximo ano.

Aqui registo os autores do livro hoje apresentado: Álvaro Siza Vieira, Ana Biscaia, Adão Cruz, Alberto Martins, Amélia Azevedo, Ana Amaral, Anabela Fino, Armando Carvalheda, Arnaldo Trindade, Aurelino Costa, Avelino Tavares, César Príncipe, Eduardo Vítor Rodrigues, Eldad Manuel e Eldad Mário Neto, Eva Cruz, Francisco Mangas, Ilda Figueiredo, Isabel Correia de Oliveira, Isabel Niza, Janita Salomé, Jerónimo de Sousa, João Carlos Callixto, João Malheiro, João Mascarenhas, João Paulo Guerra, Jorge Cunha, Jorge Seabra, Jorge Sarabando, José António Gomes, José Barata-Moura, José Carlos Ary dos Santos, José Efe, José Goulão, José Manuel Mendes, José Niza, José Lopes de Almeida, José Soares Martins, Viale Moutinho, Judy Rodrigues, Júlio Roldão, Louzã Henriques, Luís Represas, Luís Veiga Leitão e Aurora Gaia, Manuel Alegre, Manuel Augusto Araújo, Duran Clemente, Manuel Faria, Manuel Moura, Manuel Rocha, Manuel Santos, Margarida Folque, Maria do Amparo, Marília Lopes, Conceição Lima, Mário Correia, Gonçalves Lima, Matilde Acosta, Maximina Miranda, Miguel Amaral, Modesto Navarro, Nuno Higino, Olinda Moura, Paulo da Costa, Paulo Sucena, Paulo Vaz de Carvalho, Pedro Tadeu, Rita Duarte, Roberto Machado, Rui Pato, Salvador Santos, Samuel, Sérgio Godinho, Teresa Alegre Portugal, Urbano Tavares Rodrigues, Vasco Paiva, Vicente Aráguas, Vieira da Silva, Viriato Teles, Vitorino Salomé, e o colectivo da redacção do jornal Avante!.

Todo este trabalho, criado com imaginação, ousadia, engenho, persistência, e a compreensão e simpatia de quem o acolheu e apoiou, suscita uma primeira pergunta: porquê? Porquê, tantos anos depois, os longos e emocionados aplausos dos públicos, os sorrisos abertos diante de um texto ou de uma imagem representando Adriano?

Talvez porque haja quem dele guarde, ainda que numa fugaz lembrança, aquele gesto, aquela palavra, aquele seu modo desprendido de ser, aquele seu dom de fazer amizade, aquele ser fraterno e generoso para quem o acompanhava e escutava. Em tempos adversos de combate, contra grades e guerras, mas em que se forjavam cumplicidades para a vida, ou de alegria e júbilo pela liberdade e libertação nos dias luminosos de Abril, ou ainda de enfrentamento das regressões e das imposições de antigos mandantes, com a cabeça erguida e abraços firmes e francos, ali esteve sempre Adriano.

Ei-lo, tão longe no tempo, mas tão perto, tão cerca, tão dentro de nós.

Quem o conheceu não esquece a sua dádiva às lutas mais difíceis, a sua entrega solidária à causa justa dos mais frágeis e desprotegidos, a limpidez de um olhar e o calor de um abraço, ou um certo momento, de que se guarda por vezes apenas ténue lembrança, lá bem no fundo do peito, nos encontros e desencontros da vida, mas que ainda perdura, em que se forjou uma identidade colectiva e se criou uma comunidade de ideais e valores democráticos.

Mas há ainda quem nunca o tenha conhecido pessoalmente, nem com ele tenha trocado uma palavra, ou tenha avistado num palco sequer, mas não esconda a emoção quando ouve a sua voz numa canção, por vezes a mais inesperada ou delida pela distância.

É a sua voz que melhor nos diz quem é Adriano. Era uma voz humaníssima, uma voz onde pulsava a luta e a vida, soava a alegria e a tristeza, onde se fundiam emoção e razão, uma voz que nos chamava para si, com um timbre único envolto de magia que ainda hoje nos prende e entre todos prende. Há canções assim de Zeca Afonso e do Chico Buarque, desvelam com a sua voz a condição humana, a todos tocam e convocam.

Num dos textos mais impressivos da nossa colectânea, escreve, numa belíssima síntese, Urbano Tavares Rodrigues: “…hei-de rever sempre a chama de Adriano, frente ao público que se lhe rendia, ouvir o cristal da sua voz, em cuja limpidez nascia a fraternidade”.

Estas palavras de Urbano oferecem-nos uma chave para responder a uma segunda e inevitável pergunta: porque é que o cantar de Adriano, ancorado em firmes convicções que nenhuma contingência abalou, num compromisso pela transformação do mundo, no modo solidário de ser e de estar, continua a despertar testemunhos tão valorizadores por parte de pessoas tão diversas?

Diversas nas gerações a que pertencem, nas mundividências que representam, nos percursos profissionais, nas opções, nas circunstâncias em que conheceram Adriano.

Não será apenas o encanto da sua voz inspiradora, alguma memória acalentada, o que a todos move, mas talvez a consciência comum da urgência de refazer laços entre todos numa época marcada pelo individualismo, povoada por solidões, medos, egoísmos, vivências fragmentadas. Diria, recentemente, Tolentino de Mendonça, poeta e cardeal: “Precisamos como sociedade de aprender a valorizar os fios que nos ligam e entrelaçam, os fios sem os quais nós não somos. E descobrir que só temos verdadeiramente mãos, mãos livres, quando as damos”.

Em todos os testemunhos se encontra uma afectuosa lembrança de Adriano. No seu conjunto ajudam-nos a conhecer melhor a sua dimensão humana, o seu valor como artista, a mudança que operou na tradição musical, a força das palavras a iluminar o canto, como recriou temas populares, como deu asas à voz dos poetas. Não foi só a Trova do vento que passa, o hino de uma geração que ousou dizer não à guerra, à injustiça, à tirania. Mas também a coragem que desponta de um grito desassombrado e entoado a mil vozes: “Venho dizer-vos que não tenho medo, a verdade é mais forte que as algemas”.

Ajudam-nos a conhecer melhor o jovem que cresceu num lugar idílico, em Avintes, onde viria a deixar o mundo nos braços de sua mãe, o itinerário de uma curta e intensa vida onde não faltaram momentos de amargura mas muitos, muitos mais, os de uma imensa alegria partilhada com amigos e por multidões que souberam aplaudi-lo e acarinhá-lo.

Também nos ajudam a conhecer melhor uma época de mudança e ruptura, de ardente luta pela paz, a liberdade, a justiça, a igualdade, uma época de violência e combate, para alcançar a democracia, construir a democracia, defender a democracia e todas, todas as suas conquistas.

Adriano esteve sempre presente em todos os momentos desta luta, que hoje continua. Nunca faltou a sua presença, o seu testemunho, com a sua coragem, com a beleza do seu canto, a ternura da sua voz, que permanece e encanta. Nela vicejam os cravos de Abril, sempre, sempre. Que, aqui e agora, neste livro nos chegam de novo, numa oferenda feliz, entre tantas mãos.



Arnaldo Trindade - editor de Adriano







Silvestre Lacerda - Director da Torre do Tombo


CRIMES SEM CASTIGO

 

CRIMES SEM CASTIGO

Manuel Begonha
Presidente da Assembleia Geral

 

No passado dia 24 de Junho, um grupo de imigrantes africanos que tentava ultrapassar a vala fronteiriça entre Marrocos e Melilla, cidade autónoma espanhola, foi brutalmente reprimida por forças militares conjuntas espanholas e marroquinas, de que resultou a morte de dezenas de pessoas.
Apesar da ONU ter anunciado um inquérito a este massacre, Pedro Sanchez, chefe do governo espanhol, afirmou que "o caso foi bem resolvido." 
Entretanto, cinco dias após este acontecimento, na cimeira da NATO em Madrid," foi considerado que a Imigração, constitui uma ameaça à soberania dos respectivos estados ". (1)

Em 15 de Junho do corrente ano, apareceram na região do Vale de Javari na Amazónia, os corpos do brasileiro Bruno Araújo Pereira, sertanejo e indigenista e do britânico Dom Philips, jornalista.
Foram assassinados a tiro e posteriormente queimados e esquartejados.
Em áreas protegidas como esta, tem sido estimulada a acção de bandidos armados.
A Amazónia com a complacência do Presidente Bolsonaro, tem sido objecto de um enorme e irreparável desastre ecológico de devastação ambiental, levada a cabo por agentes ilegais ligados à pecuária, ao garimpo, à extracção de madeira, pescadores e caçadores, alguns dos quais relacionados com o narcotráfico.
Bolsonaro, considerou a ida destes homens para a região "uma aventura ", quando eram amplamente conhecidos por defenderem a preservação da floresta amazónica e dos povos que nela vivem.
A 7 de Julho deste ano, o Parlamento Europeu, aprovou uma resolução que condena as acções de Bolsonaro na área ambiental e de perseguição aos indígenas e aponta para a investigação das mortes na Amazónia. (2)
No entanto, no funeral de Bruno Pereira, ninguém do Governo Federal se fez representar.
Felizmente em todo o mundo há pessoas assim que seguem resistindo, apesar da perseguição, do risco de vida, do ostracismo e da criminalização.
Aqui chegado, depois destes iníquos assassinatos, ocorre-me recordar o que escreveu Mia Couto "Infelizes os que matam a mando de outros e mais infelizes ainda os que matam sem ser a mando de ninguém. Desgraçados, enfim, os que depois de matar se olham no espelho e ainda acreditam serem pessoas".

(1) Opinião João Melo - Diário de Notícias, 5-7-2022
(2) Marcelo Freixo - Carta Capital n 1213 /22, Junho 2022

 

 

A NATO E A BREVE HISTÓRIA DA HEGEMONIA OCIDENTAL

 

A NATO E A BREVE HISTÓRIA DA HEGEMONIA OCIDENTAL

 Manuel Begonha
Presidente da Assembleia Geral


O culto da superioridade do homem branco tem vindo a ser inculcado ao longo do tempo, na maioria das manifestações artísticas , mas para desenvolver este tema vou recorrer por vezes ao cinema.
Desde jovens que fomos habituados a ver nos filmes de "cowboys", o bom homem branco, a matar indiscriminadamente os maus nativos, designados por índios, selvagens ou peles vermelhas, que afinal apenas defendiam as suas terras do invasor.
Contudo, mais recentemente surgiram alguns poucos realizadores que tentaram reabilitar a imagem do índio como Arthur Penn no filme "O pequeno grande homem".
Numa cena inesquecível de outro grande filme, aliás, que é "Apocalypse Now", sob o som da Cavalgada das Valquirias de Richard Wagner, os heróicos combatentes norte-americanos, como invasores, voam galvanizados nos seus helicópteros para exterminar os enfezados e amarelados vietnamitas.
Numa propaganda clássica ao colonialismo, o valente e luminoso Mourinho de Albuquerque que, obviamente equipado com armas de fogo, subjuga, como se pode ver no filme "Chaimite", a força e o primitivismo do régulo rebelde Gungunhana, o leão de Gaza, a quem para humilhar mandou sentar no chão.
Mas a Europa, Pátria da civilização branca, também tem países uns mais brancos do que outros.
Depende da natureza da potência militar que os invade.
É há ainda os refugiados e os imigrantes.
Os sérvios massacrados quando da destruição de Belgrado, bem como outras nações da ex-Jugoslávia, ainda que europeus, tornaram-se baços que é a cor que os brancos adquirem quando são atacados pelos EUA /NATO.
Os sírios e os libios, são de um branco tisnado e podem ser bombardeados e abandonados no Mediterrâneo como imigrantes, porque têm petróleo e outras matérias primas no seu território que não lhes compete explorar.
O Iraque de tez mais escura, foi arrasado, uma vez que possuía, para além de petróleo, fantasmagóricas armas de destruição maciça.
E uma vez desalojados os respectivos habitantes passam a inconvenientes imigrantes africanos.
Na América Central existem imigrantes mestiços, índios e pobres que na procura de uma vida melhor nos ricos EUA, acabam por vezes com os cadáveres amontoados em camiões, como recentemente sucedeu no Texas.
No meio deste panorama, para garantir a superioridade e hegemonia do paradigma liberal euro - norte-americano, a NATO torna - se cada vez mais forte, beligerante e expansiva, não apenas na Europa, mas também na América Latina, como indicia a sua presença na Colômbia.
Entretanto decretou uma nova guerra fria e alterou o correspondente conceito estratégico, elegendo como inimigo principal a Rússia, seguida pela China.
Declarou encontrar-se disponível para pôr na ordem qualquer "Filho de um Deus menor" que ou se contrariar a unipolaridade, decidida por este juiz e árbitro dos destinos do nosso mundo.
 

Levados.....levados, sim...!

 

“Levados...levados, sim...(1)

Marques Pinto
Vogal da Direcção


Numa roda de amigos confraternizando naquele período da “ultima anedota” que normalmente se segue após o cafezito e todos se inteirarem da saúde e disposição dos outros amigos que não estão presentes, um de nós perguntou em tom jocoso – embora o assunto de fundo nada tenha de divertido – se após esta ultima reunião sobre os novos ataques e alvos que o senil patrão vindo do outro lado do oceano trazia no bolso para serem incluídos na ordem a dar ao grupo reunido em Madrid - sem reservas nem discussão – se o nome e sigla da NATO ou OTAN em tradução Portuguesa se iria manter pois se o primitivo nome tinha origem no Oceano Atlântico e confinado á sua zona a norte do Equador, agora tudo aponta para que seja alterada e “actualizada” a sua designação.


Claro que na realidade há muito que a “Jolly flag” da organização se passeia por águas mais quentes e muito longe do Atlântico Norte, por vezes até nos antípodas e com bastante frequência nos últimos meses.


Assim a conversa acabou por criar uma certa polémica quanto aos reais fins e interesses em jogo e principalmente ao elevado custo e prejuízos que em Portugal já estamos a sentir e que sabemos não serem transitórios, mas infelizmente com tendência para se agravarem com uma politica de avestruz que este governo parece querer seguir na esteira e obediência dos interesses estrangeiros.


Contudo e porque não quero deixar de vos expor as diversas sugestões que surgiram na nossa reunião, aqui ficam e veremos se realmente no futuro teremos infelizmente acertado nos propósitos que esta pseudo-organização pretende levar a cabo arrastando os pobres países dependentes

TAIP = Tratado do Atlântico, Indico e Pacifico

TAGTM = Tratado Americano de gestão Terrestre e Marítima

TIGU =Tratado Internacional para a Gestão Universal


(1)A minha geração recorda-se com certeza deste estribilho do “Hino da Mocidade Portuguesa”. que a Ditadura impunha nas escolas e liceus