O ALGARVE E O SNS
Manuel Begonha - Sócio da ACR
No verão deste ano, devido a uma baixa de tensão fui transportado pelo Serviço de Emergência Médica para o Hospital de Faro.
Entrei no respectivo serviço de urgência pelas 23h30, onde fui colocado numa maca.
Após a triagem que foi rápida, fizeram - me um electrocardiograma.
Uma vez que faltava fazer uma análise ao sangue, deslocaram -me para um corredor com uma sala adjacente, já cheia de outros doentes, também em macas.
Os meus pés tocavam no companheiro da frente, o mesmo acontecendo com o de trás.
Os utentes eram na sua maioria velhos, de aspecto empobrecido, sendo alguns estrangeiros.
Não me foi possível dormir porque se ouviam queixas de todos os lados.
Não de dor mas de lamento, relativamente aos seus pesares e a recriminações á família.
Um inglês à minha frente dizia que aquilo era um zoo, porque fazia 89 anos e não lhe deixavam beber cerveja.
Foi notável o comportamento das enfermeiras e auxiliares. Incansáveis no apoio e na forma como se solidarizavam e acalmavam os mais perturbados.
Inclusivé, na mudança de fraldas de uma senhora mais incontinente.
Por volta das 07h00 fizeram - me a recolha de sangue para a análise.
Pelas 08h00, fui mandado levantar e sentar - me numa sala, onde aguardavam diversos tipos de doentes.
Ás 08h30 enviaram-me para a sala de espera do Hospital, local onde se misturavam outros internados e utentes que aguardavam atendimento.
Cerca das 11h20 fui chamado para outra sala, onde um médico me deu as cópias dos exames, mas sem comentários.
Seguidamente deu-me alta. Fui de novo para a sala de espera geral à espera de ser chamado para retirar o cateter.
Após mais algumas peripécias burocráticas deixei o Hospital pelas 12h00, tendo então apanhado um táxi para casa.
Dizia João Varela Gomes que para se ver a miséria do povo português, basta andar de eléctrico em Lisboa.
Hoje, acrescentaria e também passar uma noite num hospital público.
E tudo isto porquê?
Porque se vão cortando as verbas aos hospitais públicos que vão ficando sobrelotados, conduzindo cada vez mais gente para os hospitais privados.
No entanto, estes não possuem por vezes os meios técnicos, materiais e humanos para atender a um caso complicado.
Nestes casos, os doentes são recambiados para os hospitais públicos.
E mesmo em hospitais como o de Faro, em situações de extrema gravidade são obrigados a transferir os doentes para um hospital de Lisboa.
Em linguagem coloquial os privados ficam com a carne e os públicos com os ossos.
Tomando como referência o Hospital de Faro, fica a questão de saber porque negar uma saúde pública digna para o bem estar de todos nós.
É obrigação do governo investir seriamente no SNS, dotando o Algarve de um hospital público de qualidade, salvaguardando a imagem de uma região que pretende ser uma zona turística de excelência.
Será indispensável para incentivar e fixar os profissionais de saúde, compensa - los com ordenados justos e concorrenciais com o privado.
É uma vergonha nacional abandonar o povo á sua sorte sem uma saúde pública adequada.