Intervenção de Baptista Alves na AG do CPPC em 20221117


Intervenção na Assembleia Geral do CPPC
07
de Novembro de 2022

Baptista Alves
Presidente da Assembleia Geral do CPPC
Presidente da Direcção da ACR

 

A situação internacional de hoje é a pior situação já vivida no pós II Guerra Mundial.

Ao imenso rol de ingerências e intervenções militares directas em países não submissos aos interesses das potências dominantes, ao longo destes últimos 77anos, junta-se agora a grande ameaça de confrontação directa entre as maiores potências militares do planeta. Pior cenário não pode a imaginação humana conceber.

Com o fim da Guerra Fria e o desmantelamento do Pacto de Varsóvia, os EUA e seus aliados, ao invés de iniciarem o desmantelamento da NATO como seria plausível, lançaram-se numa desenfreada ocupação militar no Leste Europeu, reforçando e alargando a aliança com o evidente propósito de sitiar a Federação Russa.

E fizeram-no usando toda a panóplia de estratagemas e artimanhas adquirida no seu passado, recheado de ingerências externas noutros países e à revelia dos acordos a que estavam vinculados.

Aliás é oportuno dizer que, no passado recente, pós 11 de Setembro de 2001, a intervenção militar dos EUA em países soberanos, passou a ser decidida com base em legislação especial própria, à margem do direito internacional e mesmo dispensando a aprovação do próprio Congresso.

Tudo justificado no âmbito da “cruzada contra o terrorismo internacional”, com a anuência e mesmo parceria de outros países da NATO e com o silenciamento descarado por parte dos grandes meios de comunicação social, amestrados e rendidos aos interesses dominantes.

A história há-de fazer-se com verdade, escalpelizando acontecimento a acontecimento e tirando ilações outras que não as que nos querem a todos meter pelos olhos dentro.

Nada acontece por acaso, tudo se insere nas estratégias de domínio que têm norteado as lideranças no chamado Mundo ocidental, acorrentadas aos interesses dos grandes grupos económico-financeiros, apátridas e viciados na rapina das riquezas naturais do planeta, suportados num poderio militar nunca antes visto, espalhado por todo o Globo … e já não só (a militarização do espaço já não é só ficção).

E chegamos ao ponto em que estamos hoje, mais uma guerra na Europa. Desta feita, uma guerra pensada e trabalhada há catorze anos a esta parte, com inconfessáveis objectivos estratégicos e políticos:

1.  Enfraquecer a Federação Russa como primeiro passo para apontar a Pequim e esmagar o “milagre económico chinês”;

2.  Reforçar a dependência económica e militar da União Europeia em relação aos EUA, acabando de vez com qualquer pretensão a uma voz autónoma no concerto das grandes nações;

3.  Recuperar a supremacia militar mundial, abalada pela concorrência das potências emergentes dispostas a libertarem-se do abraço de ferro a que têm estado submetidas;

4.  Manter e reforçar o domínio do comércio internacional, do sistema financeiro baseado no dólar e de todas as “ferramentas” tecnológicas que utiliza para continuar a sugar as riquezas dos outros povos e evitar assim o previsível colapso da sua própria economia.

Destes quatro objectivos, numa análise simplista, diria que o segundo está já plenamente atingido: A União Europeia dobrou-se aos ditames do outro lado do Atlântico, deixando-se engajar nesta tenebrosa aventura belicista de consequências inimagináveis. Quanto aos outros três, só o futuro o dirá… se sobrar futuro!

A imensa capacidade de destruição dos armamentos actuais, a existência de arsenais nucleares, de armas químicas e biológicas, capazes de por em causa a sobrevivência da humanidade, associada ao facto de o conflito se centrar entre as duas maiores potências militares do planeta, não deixa qualquer outra saída para esta situação, que não seja: Parar isto, já!

Só mesmo mentes doentes podem acreditar numa qualquer solução militar para esta trapalhada e a escalada da guerra em curso, sub-reptícia, com o envolvimento indisfarçável de forças armadas de países inseridos na NATO, faz prever o pior, … e o pior nós sabemos bem o que é, por pura aritmética:

-     Basta lembrarmo-nos de que, no século XX, na II Guerra Mundial, o saldo foi de aproximadamente 50 Milhões de mortos para já não falar na destruição de cidades e países inteiros;

-     A capacidade de destruição do armamento existente hoje nos arsenais das grandes potências militares é incomensuravelmente superior ao existente na altura…

100 vezes? 200 vezes? Provadamente muito mais.

Mas então o que fazer?

-     Lutar! Lutar como sempre temos feito no CPPC, solidariamente com todos os movimentos defensores da paz no nosso país, em uníssono com os movimentos integrados no Conselho Mundial da Paz, em particular com os movimentos europeus que coordenamos, pelo fim imediato das hostilidades;

-     Apelar pela negociação duma Paz duradoura, construída no respeito dos direitos de todos os povos do Mundo, no âmbito de uma Conferência Internacional alargada e pugnar pelo “desarmamento geral, simultâneo e controlado” e “a dissolução dos blocos político-militares”, nos termos do Artigo 7º da CRP de 1976.

(Deixem-me aqui abrir um parêntesis para dizer, que a Constituição de Abril está agora sob a ameaça de mais uma revisão constitucional, o que provavelmente não será também por acaso).

Impõe-se-nos ainda:

-     Denunciar a tremenda injustiça deste Mundo tão desigual em que vivemos hoje, que permite a concentração da riqueza mundial nas mãos de poderosos grupos económico-financeiros transnacionais que ditam e decidem das nossas vidas - á margem dos poderes políticos instituídos ou com a sua vassala conivência - e agora se arvoram no direito de jogar na “roleta russa” a sobrevivência de toda a humanidade.

-     E, em defesa da vida na Terra - desta maravilhosa realidade que, até prova em contrário, é única em todo o Universo - apelarmos à mobilização geral, de todas as pessoas de bem, para a luta pela Paz e pela Vida.

Paz sim! Guerra não!