Texto Periódico IX - "Ajudas da UE  - Quem parte e reparte... sempre fica com a melhor parte"

Talvez por que ainda há pouco tempo tivesse lido sobre o histórico Plano Marshall que afinal não foi  unico, mas sim diversos planozinhos, desenhados consoante os países ou grupo de países a que se destinavam. 

Assim houve um plano de rapida execução para "ajudar" os Gregos e os Turcos. Na Grécia para rapidamente liquidar a "guerra civil" que poderia permitir ao partido que liderara a resistência contra os nazis e ajudara  as forças Ingleses á sua entrada na Grécia durante a guerra, mas....poderia agora ganhar as eleições...e era filo-comunista, o que os USA de Truman não poderiam tolerar.

A Turquia pela sua posição estratégica no Extremo da Europa e grande parte do território no Próximo Oriente, iria também ser "ajudada" com certa urgência.

Para a zona central da Europa o plano Marshall incluiria cereais, maquinaria industrial, veículos, etc. tudo evidentemente de origem Americana, alem de prever a compra de quotas e posições em empresas europeias que considerassem de interesse, até porque os valores no mercado estavam apetecíveis.

Na Europa de então só a voz de De Gaulle se levantou e chamou a atenção para o perigo que traria o domínio de uma Europa empobrecida, apesar de o seu amigo Jean Monet, arquitecto deste plano pelo lado Europeu, estivesse envolvido desde o inicio com o grupo americano que já havia previsto 17 biliões de Dólares para ajuda á França, Itália e Austria ao longo de 4 anos.

Felizmente a verba destinada a Portugal não foi grande e foi integralmente paga 

Quando ouço ou leio que há apoios e ajudas baseadas em actos de entre-ajuda e filantropia, penso sempre como se venderam há menos de uma década  a electricidade, seguros, transporte aéreo, terrenos e edifícios que pertenciam ás Forças Armadas, zonas portuárias, estaleiros, etc etc. 

 Claro que para alguns a austeridade e sacrifícios  nunca chegará, mas para quantos outros milhões os sacrifícios e a fome já chegaram há semanas?

Recordo sempre uma frase que ouvi a um amigo há pouco tempo:

"Quando todo o mundo chora, sempre aparece alguém que vende lenços"

Marques Pinto
Vogal da Direcção

Texto periódico VIII - Uma data que alguns veneram e para outros traz más recordações

Uma data que alguns veneram e para outros traz más recordações
Marques Pinto
(vogal da Direcção)

Passámos há pouco tempo a data de “25 de Abril” e por tal motivo lembrei-me de ir ler um pouco mais sobre esta data, que desde o “nosso” de 1974, a grande maioria do Povo Português bem conhece o seu significado, mesmo aqueles que por actos e palavras continuam saudosos do regime que caiu em 24 de Abril. 
Foram ainda este ano “brindados” os saudosistas do 24, com uma evocação na Assembleia da Republica e uma concentração no 1º de Maio que mais os irritou e não deixaram de durante dias aproveitarem os espaços de alguns jornais e audiências de televisão para criticarem o Governo e o Presidente que tal acto permitiram...
Mas se o “nosso” 25 Abril” é por “cá” conhecido, também na Africa Lusófona é ainda lembrado  - mesmo nas novas gerações – como a data que levou a bom termo as suas lutas de libertação do colonialismo, embora nem para todos tenha sido o início da paz nos seus novos Países.
Mas se por exemplo na Itália a mesma data também significa libertação pois foi em 25 de Abril de 1945 que o exército nazi, na pratica foi expulso do território Italiano e a pseudo republica de Salo que os apoiantes do fascismo de Mussolini haviam implantado, caiu de podre pois só com o apoio e suporte armado dos Nazis se havia aguentado.

Mas hoje venho também referir a data de 25 de Abril de 1920, que muitos de nós desconhecem mas foi nessa data que a Nação Palestiniana sofreu um dos maiores golpes traiçoeiros por parte dos países vencedores da 1ªGrande Guerra.
Foi nessa data que em Italia, mais precisamente em San Remo, essa bela cidade da Riviera Italiana, o Conselho Supremo Aliado constituído pelos vitoriosos da Grande Guerra ditaram os mandatos sobre os territórios da Siria, Iraque ( na época conhecido por Mesopotamia) e Palestina.
Claro que o Governo Inglês pela célebre declaração Balfour, já em Novembro de 1917 , pela grande pressão do Movimento Sionista havia estabelecido que era preciso arranjar uma pátria para o povo Judeu, mas tornava-se necessário fazer um reconhecimento de caracter mais internacional e daí 3 anos depois, se praticar um confisco de caracter mais internacional das terras Palestinianas, embora para amenizar a situação fosse incluída nessa declaração “que nada pudesse ser feito nesses territórios Palestinianos que pusesse em causa quais quer direitos civis e religiosos das comunidades  Palestinianas”.

Atentemos hoje como as Nações Unidas respeitam e impõem tais direitos e autorizam a expropriação por parte de Israel de uma grande maioria do território Palestiniano sob a força das armas e com o esbulho de terras historicamente Palestinas.

Claro que nem para todos, infelizmente, a nossa tão estimada data de 25 Abril traz boas recordações.

Texto Periódico VII - UMA HITÓRIA DE RESISTÊNCIA ENTRE TANTAS, TANTAS…



UMA HISTÓRIA DE RESISTÊNCIA ENTRE TANTAS, TANTAS…

Manuel Carvalho

Meu pai, republicano e anti clerical, como era comum naquele tempo, devido a uma igreja desajustada no tempo, obscurantista, sentada à mesa do ditador, nunca se opôs aos caminhos que eu poderia vir a trilhar. Dizia ele que descobrisse por mim próprio.
Minha mãe, muito crente, acarinhava que eu e minha “matilha” (como dizia o MEC) frequentássemos a igreja de Santa Maria, nos Jerónimos, quando os meus pais residiam na freguesia do mesmo nome – Santa Maria de Belém. O Pároco, desempoeirado, também nos acarinhava sempre, até com um bom lanche aos sábados e passagem de filmes para crianças, nos claustros, e não se importava nada que nós fizéssemos de cicerones no Mosteiro onde ganhávamos umas moeditas. Por essas e por outras, não aqueceu o lugar, no seio de uma igreja fechada.

Mais tarde, com a reforma antecipada do meu pai, por doença incompatível com a sua função na Carris, fomos residir para a aldeia e eu entretanto deixei de frequentar a igreja – já começava a pensar por mim próprio – de tal maneira que vim a sentir o mau relacionamento instalado entre mim e o Padre de Religião e Moral, na Escola Industrial, sem me aperceber porquê.

Já no último ano do ensino secundário, viemos a ter um novo Professor, Engenheiro, com o qual passávamos 10 tempos lectivos semanais nas aulas principais daquele ano: Desenho de Máquinas, Tecnologia e Orçamentos e Contas de Obras. Os tempos lectivos eram suficientemente sobrantes, para o excelente desempenho do Engenheiro e então havia tempo para lhe colocarmos muitas questões, com sejam sobre a Guerra Colonial – preocupação maior que nos atormentava – sobre as relações também preocupantes e em crescendo entre Israel e os Países Árabes ou sobre a luta do IRA, ou ainda sobre a postura da Igreja, face a todos esses acontecimentos, questões estas que normalmente acabavam em reflexões filosóficas sobre a humanidade, acrescentando mais uma disciplina a ministrar pelo Engenheiro.

Mas um dia à saída da sala de aula encontrámos dois tipos estranhos, junto à porta e o lúcido Engenheiro no ano seguinte teve que mudar de Escola.

No ano seguinte, eu a frequentar a Escola de Máquinas da Marinha, em Vila Franca de Xira, venho a encontrar o Engenheiro, onde ele era agora professor na Escola Industrial da mesma Vila.
Encontrei-o num café, de dois pequenos pisos, próximo da Câmara, café convidativo a conversas de “pé de orelha” sem ouvidos duvidosos, por perto. Ele ficou muito admirado ao ver-me ali uniformizado de marinheiro e questionou-me porque não me tinha candidatado ao Instituto Industrial, porque achava que tinha condições para tal. Respondi-lhe que por razões económicas dos meus pais, tinha optado pela Marinha a fim de poder prosseguir estudos, mas que o Instituto Industrial não estava fora das minhas aspirações.

Lá tivemos um bom bato papo, onde não faltaram os comentários sobre os tais tipos estranhos que iam ouvir o que se passava nas suas aulas na EI de TN. Depois, de mais um encontro ou outro, deixei-o de o ver a frequentar o dito café. Admirado, questionei o proprietário (pessoa de confiança para aqueles tempos de obscurantismo) se sabia do Professor, tendo-me respondido que tinha sido preso pela PIDE.

OBRIGADO, ENGENHEIRO! PORQUE COM A TUA LUTA DE RESISTÊNCIA, E DE ESCLARECIMENTO, COMO A DE MUITOS OUTROS, AJUDASTE A ENCONTRAR AS CHAVES QUE SERVIRAM NOS FERROLHOS DAS “PORTAS QUE ABRIL ABRIU”…

75º Aniversário da Vitória sobre o nazi-fascismo





Pela liberdade, a paz e a verdade.
Não ao fascismo e à guerra

   Várias organizações portuguesas, entre as quais o Conselho Português para a Paz e a Cooperação (CPPC), a União dos Resistentes Antifascistas Portugueses (URAP), a Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses (CGTP-IN), o Movimento Democrático de Mulheres (MDM), a Juventude Comunista Portuguesa (JCP), a Associação Conquistas da Revolução (ACR) e a Ecolojovem, subscreveram um texto evocativo do 75º Aniversário da vitória sobre o nazi-fascismo, intitulado “Pela liberdade, a paz, e a verdade. Não ao fascismo e à guerra”
    O número de subscritores aumenta, comemorando precisamente a rendição incondicional da Alemanha nazi a 9 de Maio de 1945, e não deixa de recordar “o “horror atómico” lançado pelos EUA sobre Hiroxima e Nagasáqui e a capitulação do Japão, pondo um fim definitivo “à maior tragédia humana que a História conheceu”.
   O papel da União Soviética e do Exército Vermelho merece justo destaque, e também os que no nosso país “tudo deram, incluindo a própria vida, para resistir contra a longa noite fascista e fazer florir a liberdade e a paz em Abril de 1974”.

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O Ponto alto das comemorações terá lugar no dia 9 de Maio
O seu programa pode ser visto em
https://associacaogagarin.pt/index.php/noticias/162-programa-de-iniciativas-no-dia-9-de-maio 

A DESIGUALDADE MATA


Uma breve reflexão acerca do pós pandemia

A DESIGUALDADE MATA

Em países como os EUA e o Brasil que optaram por dar prioridade à economia em detrimento da vida humana, nesta pandemia do COVID-19, tem-se verificado que a maioria das mortes tem incidido nos mais pobres, os mais desiguais.
Compreedem-se as razões.
São mal alimentados, possuindo menor capacidade de resistência ao vírus.
Para sobreviver, precisam de trabalhar todos os dias, utilizando para tal transportes públicos sobre lotados.
O seu confinamento é muitas vezes efectuado em habitações pequenas, por vezes degradadas e com elevada promiscuidade.
O acesso à água, para lavagem frequente das mãos é limitado.
Pouca capacidade financeira para adquirir equipamento de protecção.
Os velhos são amontoados em lares com condições deficientes e escasso apoio médico.
Esta sociedade, faz por esquecer que para os pobres, tudo o que não for dado, é caro.
Mas a estes seres humanos explorados que bateram tantas vezes no muro da injustiça, não lhes foi dada a oportunidade de se levantarem, mas sim de perderem mais do que a dignidade que é a última coisa que se pode tirar a um homem.
Perderam a vida.
Não tiveram para onde fugir.
São os efeitos colaterais.
Em dois países ricos, é este o resultado do neoliberalismo.
É neste mundo desigual que queremos viver no futuro?
Manuel Begonha 
Presidente da Mesa da AG

Texto Periódico VI - A rapariga do 1 de Janeiro


A rapariga do 1 de Janeiro
Valdemar Santos

   Façamos uma retoma (este texto tem anos, em abono da verdade, hoje com acertos), que do 15 a 19 de Abril a humanidade progressista comemorou o 59º aniversário da derrota dos mercenários cubanos que, a soldo dos Estados Unidos, desembarcaram na Playa Girón ou Baía dos Porcos na primeira tentativa de derrubar o Governo e assassinar Fidel de Castro. Bastou que na véspera Cuba tivesse declarado o carácter socialista da sua opção política para que 1.297 exilados em Miami, antes comprometidos com a ditadura de Fulgêncio Batista mas já há muitos meses treinados para o efeito, cumprissem as ordens de Kennedy. Em menos de 72 horas foram aniquilados pelas forças governamentais cubanas, e desde então intensificou-se a mais prolongada e diversificada tentativa imperialista (incluindo o vergonhoso bloqueio) de derrotar um povo que lutou pela sua soberania e, uma vez esta conquistada, a defende com orgulho inquebrável. E festejando o 46º Aniversário da Revolução do 25 de Abril, vinquemos a propósito que os portugueses não esquecem que ela se deveu antes de tudo à luta anti-fascista travada em Portugal, à luta dos povos das ex-colónias e de todo o Mundo pela sua libertação e independência e à existência de uma correlação de forças a nível mundial que permitiu que no mais ocidental dos países da Europa capitalista caísse um regime ditatorial que a NATO - a OTAN de Salazar - não se coibiu de acolher entre os seus fundadores, razão pela qual nos associamos ainda com mais força às Comemorações do 61º aniversário da Revolução Cubana, neste ano de 2020.
   A sabotagem, o terrorismo e a agressão contra a Ilha de José Marti financiados pelos Estados Unidos da América conheceram um outro profundo golpe quando, em 1998, cinco patriotas oriundos de Cuba se infiltraram na rede contra-revolucionária de Miami e recolheram irrecusáveis provas de planos que atentavam contra o regime de Fidel de Castro e vidas humanas. Ao entregá-las ao FBI, este instrumento ao serviço do grande capital e do imperialismo prendeu-os - ou seja: prendeu os inocentes - e deixou à solta os criminosos, plenamente identificados.
   Todos participámos em acções múltiplas de solidariedade pela sua libertação que foi totalmente, mas quase um a um, alcançada enfim em 2014.
   Por estarmos no mês que prossegue Abril, contamos que uma jovem jornalista (Ana?) de uma rádio local setubalense, num primeiro semestre da década de 90, e antes das nove da manhã, confrontou-nos via telefónica: “Estamos em ligação directa a Havana e até ouvimos muita agitação, os opositores estão na rua a saudar a queda do regime de Fidel de Castro. Que tem a dizer?”
   - “A confirmar-se, mantemos a nossa solidariedade com a Revolução, com o povo que luta e com Fidel, que foi o que deles recebemos durante o fascismo. Cuba vencerá!”.
   Foi logo perceptível um riso descomprometido de desculpa, e de que maneira não deixou de a pedir!: - “Hoje é o dia 1 de Abril!!”
   Para os radiouvintes também não havia directo, ao contrário do que nos insinuara, mas foi peremptória: - “Eu sou igualmente pelo 1 de Janeiro, descanse!”
   É que os 61 anos acima citados começaram no primeiro dia de 1959! Quem não acredita que a Ana vai dizer-nos (vamos desfiá-la para um directo a sério, desta vez): “Eu sou igualmente pelo 1º de Janeiro Gonçalvista, o do Centenário!?”


  

Comemoração do 99º aniversário do Gen. Vasco Gonçalves




Comemoramos hoje 99 anos do nascimento do  General Vasco Gonçalves, referência primeira da nossa ACR. No nosso programa de acções para o ano 2020, constava com destaque especial a colocação de uma placa toponímica na Rua Vasco Gonçalves, no Lumiar, iniciativa que contou com o apoio e empenho do Sr. Presidente da Junta de Freguesia do Lumiar, a quem manifestamos aqui os nossos agradecimentos e o nosso respeito.
A situação excepcional que o país está a viver não permitiu concretizar aquela acção, o que naturalmente nos penaliza a todos, mas não queremos deixar passar a oportunidade para assinalarmos esta data memorável, por todos os meios que a situação de confinamento nos permite utilizar.
Tão breve quanto possível procuraremos concretizar esta acção, em data que oportunamente divulgaremos, com todo o nosso empenho, tanto mais quanto se aproximam as comemorações do Centenário do Nascimento do General Vasco Gonçalves, comemorações  que a nossa ACR está a preparar para o ano 2021 e cujas linhas programáticas foram já divulgadas.
Lembrar Vasco Gonçalves, "O companheiro Vasco", na data do seu nascimento, é um imperativo revolucionário a que não nos eximimos e é sobretudo uma homenagem ao Homem, ao Primeiro Ministro de quatro dos seis Governos Provisórios durante o período  revolucionário iniciado em 25 de Abril de 1974, a que devemos o maior salto civilizacional da nossa história.

Saudação ao 1º de Maio

SAUDAÇÃO

Comemoramos o 46º Aniversário do 1º de Maio em Liberdade.

Comemoramos, numa adversidade mundial inusitada, numa altura em que os exploradores dos Povos e dos trabalhadores, os promotores da guerra e do combate à independência, soberania, autodeterminação e progresso social de países de todo o Mundo mostram, mais uma vez, a sua verdadeira face.
Comemoramos, também, com a nossa luta contra os governos submetidos aos ditâmes do imperialismo que não perdem mais uma oportunidade para explorarem os povos.
Mas do nosso lado, no reforço da unidade democrática, os Valores de Abril dão-nos ainda mais força.
É com ela, a um ano de comemorarmos o Centenário do nascimento do General Vasco Gonçalves, que partilhamos o 1º de Maio de 2020.
Saudamos calorosamente a CGTP-IN e os seus 50 anos na vanguarda da luta dos trabalhadores do nosso Portugal e por seu intermédio todos os trabalhadores.
A Luta Continua!
VIVA O 1º de MAIO!!!
Saudações
A Direcção

Texto Periódico V - Evocando Abril



EVOCANDO ABRIL

Pouco mais de um mês passado do 25 de ABRIL de 74, instala-se em sede própria o MDP/CDE, em Ponta Delgada. Todas as noites lá se juntavam muitos jovens militares e antifascistas da terra, com provas dadas de luta e que com eles queríamos aprender tudo. Dos frequentadores, havia de todos os géneros: desde um arquitecto, trotskista, neto de Keil do Amaral, que os seus óculos redondinhos não enganavam, jovens maoistas, revolucionários, convictos da revolução cultural e outros como eu.

O MDP/CDE, antecipando-se à dinamização cultural do MFA, inicia logo algumas sessões de esclarecimento, junto ao povo profundamente religioso e pouco reivindicativo ou ainda medroso por tudo o que pudesse vir a acontecer, avisados pelo Senhor pároco da freguesia.
Numa dessas primeiras sessões por terras do concelho de Nordeste eu fazia parte da mesa, apenas e ainda a aprender e pouco interventivo.
Os homens falavam das suas preocupações, do pouco valor de venda do leite às queijarias, tal como o preço da beterraba vendida à fábrica de açúcar e da dificuldade do escoamento da batata pela abundância dela, naquele ano, quando, já no final, temos uma única intervenção de uma senhora com muita idade, de xaile preto sobre a cabeça a queixar-se do aumento do preço do açúcar para açucarar os seus dias e o seu café de cevada, principal alimento dela acompanhando uma côdea de pão: uns dias mais seca, outros dias mais mole.
Pela minha ascendência rural, a senhora comoveu-me muito tanto pela sua coragem de falar “em terra de homens”, como pela sua pobreza e intervenho de rompante, tendo sido mimoseado com a maior salva de palmas daquela noite e parece-me que da minha vida, numa ou outra intervenção que tenha feito.
Já não me recordo o teor da intervenção, mas se a recordasse, hoje diria que teria sido uma intervenção populista duma esquerda inconsequente. Talvez!
Mas quando estamos com o povo, fazendo parte desse povo traído na revolução, precário, explorado de baixos salários que não dão para o “açúcar” de todos os dias não há pároco algum de qualquer freguesia que nos ou vos amedronte. E, hoje, passados 46 anos faço uso das palavras do General Vasco Gonçalves:
 “O FUTURO COM QUE SONHEI NÃO É CADA VEZ MAIS SAUDADE, É, SIM, CADA VEZ MAIS NECESSIDADE IMPERIOSA. ASSIM O POVO O COMPREENDA”

Manuel Carvalho
(Vogal da Direcção da ACR)

Homenagem póstuma ao Eng Martins Nabais






Faleceu no passado dia 16 de Abril, o Capitão-de-Mar-e-Guerra, Armando Martins Nabais.
Nasceu em 1925, frequentou o Instituto dos Pupilos do Exército e teve uma carreira naval variada. Desempenhou Comissões de Serviço em diversos navios e Unidades Navais, destacando-se as Fragatas Diogo Gomes e Nuno Tristão e o Patrulha S. Nicolau. Em terra passou pela Base Naval de Lisboa, Comando da Flotilha de Navios Patrulhas, Escola Náutica, onde foi professor, Comando da Defesa Marítima de Stº António do Zaire, Direcção das Construções Navais e Superintendência dos Serviços do Material.
Revelou-se sempre um oficial competente e distinto a que corresponderam diversas condecorações.
O Engº Nabais foi um homem com quem mantive uma relação especial de amizade e para quem tenho uma dívida de gratidão.
Teve uma importância decisiva na minha formação política. Nos finais dos anos sessenta, em muitas conversas de almoço em diversos navios da flotilha de patrulhas, com inteligência e método, transformou a minha forma de ver o mundo, dissecando os fundamentos da ditadura, demonstrando o erro da guerra colonial e descrevendo a tragédia da servidão humana.
Conseguiu assim, para um jovem 2ºTenente que era eu, marcar o início de uma vontade de transformar o panorama social e político em que se vivia.
Tive o prazer de lho dizer numa sessão pública e hoje sinto-me orgulhoso de o ter feito.
Era um homem sóbrio, tímido em quem se podia confiar; um ser humano límpido e ao mesmo tempo luminoso.
Deixava-nos sempre com a sensação de tempo ganho quando falávamos com ele, apreciando os ensinamentos que sempre transmitia. Lutou em muitas frentes. Abraçou com entusiasmo a Revolução. Nesta época, voltamos a encontrar-nos, agora numa situação diferente, a partilhar os ideais, os projectos, a amizade e admiração pelo General Vasco Gonçalves.
Foi desinteressadamente valioso para todos nós.
Demonstrou muitas vezes a sua firmeza e coerência ideológica em situações como as que viveu, como delegado do MFA, nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo.
E também não era homem para falar da prática sem bases teóricas, que as tinha sólidas, seja na área cultural, humanística ou política.
Viveu o suficiente para que o tempo não fosse para ele um inimigo cruel, porque teve oportunidade de nos transmitir o muito que experimentou.
Ver um querido amigo terminar o conteúdo do seu tempo é como se o nosso crepúsculo tivesse perdido a luz.
Saberemos honrá-lo.

Manuel Begonha
(Presidente da Mesa da Assembleia Geral)

Textos periódicos IV - Amargo a 19 de Dezembro, Bom Ano Novo a 1 de Janeiro



VALDEMAR SANTOS
(vogal da direcção)

   O Museu do Trabalho Michel Giacometti, em Setúbal, foi ponte de encontro para o desdobramento de uma iniciativa de evocação de Vasco Gonçalves e Rosa Coutinho na quinta-feira, 14 de Dezembro, ao fim da tarde, porquanto ali recolheu o testemunho dos Comandantes Manuel Begonha, Presidente da Associação Conquistas da Revolução, Henrique Mendonça e Manuel Marques Pinto, e do Coronel Nuno Pinto Soares, numa sessão que teve de seguida o encaminhamento - como que uma marcha, - para, a poucos metros, no Quebedo, o Restaurante “Egas”, segundo local de encontro-convívio fortemente marcado por uma rica componente cultural.
   Efectivamente, o “Egas” há décadas era conhecido como “Academia Sapec”, pois o seu proprietário, Jerónimo Bárbara, assumiu tal sobrenome nos tempos em que era barbeiro tanto quanto patrono de encontros de tertúlia, nos quais trabalhadores e intelectuais entrelaçavam a defesa do 25 de Abril na herança de ajuntamentos conspirativos e de resistência antifascista, sendo aquele espaço uma taberna ela própria herdeira de uma antiga adega.
   As canções, entre muitas outras, de José Afonso e de Adriano Correia de Oliveira - a tão poucos dias do 19 de Dezembro, data do assassinato de José Dias Coelho, em Alcântara, Lisboa, no ano de 1961, fazendo irromper “A morte saiu à rua” - tiverem os acordes de David Carlos, o velho bate-chapa setubalense, e do advogado Manuel Guerra Henriques, este também excelente cantador do fado de Coimbra, a que se juntaram Octaviano Sales e, vindo do Barreiro, Armindo Fernandes, enquanto Fernando Casaca, actor e Director do Teatro do Elefante, puxou pelo “Força, força, Companheiro Vasco” e escolheu para leitura o trecho de Bertolt Brech fazendo justiça aos “imprescindíveis”.
   Vítor Zacarias, Presidente a um momento da Comissão Administrativa após a Revolução, foi portador da saudação de Francisco Lobo, igualmente membro da mesma e mais tarde Presidente do município sadino, anfitrião não poucas vezes do General. E para que nada faltasse (julgávamos nós), talvez um só dos cerca de 50 participantes soubesse que o “Sapec” assim era chamado porque fazia esperar os clientes a monte enquanto lhes dizia: “Se eu quiser trabalhar vou para a Sapec!”
   Já não estamos no tempo do sussurro, mas houve explicação entre mesas: era assim que ele promovia um certo tipo de concentração.
   Mas o balanço à posteriori anotou uma falta, sim.
   Marcaram presença os filhos de Vasco Gonçalves, Maria João e Vítor. Ora algo pudera ter ser dito sobre uma foto (quanto ao recheio nas paredes de símbolos da pesca, da Baía ou desportivos vitorianos, instrumentos de música e canção, outras fotos dos que fazem som, de figuras ilustres, quer políticas, quer religiosas, de reproduções fidedignas do papelinho-bíblia de antes do 25 de Abril - nada de misturas, do tal jornal para distribuir e engolir nos apertos, - de casalinhos… ide lá, com recomendação)… sobre uma foto de dois Comandantes a jogarem golf, o mais certo nas Caraíbas: Fidel de Castro e Che Guevara.
   É o Che que vai sticar. Fidel observa-o, e vá lá agora jurar que fora assim mesmo que prevenia o compañero: “Não desacertes!...”, como insinuam.
   Sim, é verdade que não podemos esquecer a carta de condolências a Aida Gonçalves daquele que a 1 de Janeiro de 1959, não tarda há 60 anos, comandou a derrocada do ditador Fulgêncio Baptista, logo que faleceu “el amigo inolvidable de nuestra Revolución” (“Vasco, nome de Abril”, edição da ACR de Julho de 2014).   
   Revolución, Vasco nome de Abri, Valores: duram.

Para o dia 25 de ABRIL



Apesar do confinamento a que estamos sujeitos não deixamos de comemorar este dia.

     Esta é a madrugada que eu esperava
     O dia inicial inteiro e limpo
     Onde emergimos da noite e do silêncio
     E livres habitamos a substância do tempo 
     (25 de Abril - Sophia de Mello Breyne Andresen)
Indo ao encontro do pedido da Comissão Promotora e para que a nenhum dos nossos sócios falte a documentação necessária enviamos as letras da Grândola e do Hino Nacional (esta última reproduz uma targeta de que a "Tabacaria Costa" ofereceu "aos seus compatriotas que vieram a Lisboa festejar o primeiro aniversário da implantação da República).
Enviamos também o link já montado para se ouvirem as duas músicas.

25 de ABRIL SEMPRE!

Textos periódicos III - LEMBRANDO UM CRIME CONTRA ABRIL



A propósito do livro de Daniela Costa
Uma bomba a iluminar a noite do Marão
(Edições Afrontamento, Porto)
 Jorge Sarabando



Há 44 anos, um atentado bombista matou dois jovens transmontanos na flor da vida: Maximino de Sousa e Maria de Lurdes Correia. Foram vítimas do ódio político. O Padre Max, assim conhecido na comunidade, era tido como um Padre com ideias comunistas, e a Maria de Lurdes era uma jovem estudante, alegre e espontânea, a quem dera boleia.
Tratou-se de um crime político, planeado e executado por um comando da rede terrorista da extrema-direita, com apoios locais, que aconteceu numa fase já declinante do processo revolucionário, justamente em 2 de Abril de 1976, dia em que o Presidente da República, General Francisco da Costa Gomes, promulgou a Constituição, no momento seguinte à sua votação final.
O golpe de 25 de Novembro acabou com a fase mais criadora da Revolução. O Governo e a Assembleia Constituinte continuaram em funções, mas havia forças que pensavam poder ainda reverter o curso da História. O período entre Novembro de 75 e Abril de 76 foi dos mais violentos e mortíferos, tendo sido cometidos 97 atentados bombistas. Lembro o assassínio a tiro, na própria noite de 25 de Novembro, do operário vidreiro e sindicalista António Almeida e Silva, numa rua do Porto, a morte de Rosinda Teixeira, em Santo Tirso, de duas pessoas da Embaixada de Cuba, de um cidadão junto do CT Vitória, do PCP, em Lisboa, vítimas de explosões, sem esquecer, noutro quadro, a morte, por disparos da GNR, de quatro pessoas, numa pequena multidão que se manifestava pacificamente, no final do ano, junto à cadeia de Custóias, onde estavam detidos militares de esquerda, acusados de envolvimento no 25 de Novembro. Foi nessa época que ocorreu o atentado bombista na Câmara Municipal de Vila Real, que por pouco não atingiu o Presidente da Comissão Administrativa, Rogério Fernandes, conhecido militante do PCP e amigo do Padre Max. Foi na mesma altura que uma bomba destruiu o carro do médico de Chaves Maximino Cunha. O crime infame que vitimou o Padre Max e a estudante Maria de Lurdes não foi um caso isolado.
Um dos méritos do livro de Daniela Costa é o de mostrar o outro lado da História, para além dos números, dos factos e da sua interpretação. São as pessoas, os seus sonhos, as vivências, as emoções, os desejos, os conflitos, o sofrimento, o enfrentamento de interesses, o entorno social, o caldeio de lutas, a miséria moral e a grandeza humana, os acasos e as causas, o encanto e o desencanto, a sordidez dos actos e a beleza da vida, a inquietação, a magia, o mistério, o egotismo e a generosidade e o amor em dádiva, tudo isto, e muito mais do que isto, flui na leitura de um texto que transcende o tempo e o lugar.
Outro mérito advém do modelo narrativo. A voz da autora desdobra-se em outras vozes, todas elas com densidade própria, coloração, respiração, e uma autenticidade que nos transporta às fragas do Marão e às lonjuras, ao cheiro da terra, e aos socalcos do Douro, lá onde a mão humana esculpiu a paisagem. Uma escrita com rara mestria que permitiria mesmo uma expressão cénica pois, uma a uma, em diferentes registos, como que se apresentam num proscénio.
Logo de início uma primeira figura, antecedendo as demais, assim fala: “Os meus dedos grossos de trabalho e velhice arranham-me as maçãs do rosto de cada vez que enxugo estas lágrimas que não me deixam”. E com isto se anuncia o dramatismo da acção.
Em outras falas se cruzam palavras como sonho, fuga, liberdade, que lembram aquele verso de Torga “ grandes serras paradas à espera de movimento”. E com isto se define a essência de uma contradição: a fixidez, a imobilidade do que está, e a mudança a que se aspira.
Outra figura diz detestar um quadro torto e uma sala desarrumada. E com isto revela a fonte do desajustamento que o incomoda: não é a desordem das coisas mas sim a desordem das pessoas que não aceitam a perpetuação das desigualdades.
As figuras sucedem-se cada uma com o seu testemunho. Sempre ausentes e sempre presentes lá estão o Padre Max e a Maria de Lurdes através das palavras de quem os conheceu, e amou ou odiou.
Lá vem aquela suposta avó, mulher do campo digna, honesta, carinhosa, a quem os filhos emigrantes permitiram uma vida melhor na cidade, e que tanto estimava o seu hóspede Padre Maximino.
Lá vêm os colegas da Lurdes e alunos do Padre Max, a quem este apoiava com aulas gratuitas para poderem prosseguir os estudos.
Lá vêm os sacerdotes amigos de Max, um mais compreensivo, outro mais distante.
Lá vem o prelado com suas blandícias, espelhando as contradições da Igreja.
E o cacique de direita e suas más companhias.
E o grande proprietário do Douro a quem um dia as trabalhadoras reclamaram o justo pagamento.
E uma colega que juntava a altura da sua condição social à baixeza dos seus sentimentos.
E o filho família, de raiva exposta e verbo radical, um tanto aventureiro.
E o activista sindical da UDP que lutava na empresa por melhores salários.
E gente da rede terrorista e dos interesses de classe que serviam.
E o advogado, corajoso e persistente, que não deixou cair o caso na obscuridade.
E personagens luminosas, por ideais e afectos, e outras sombrias, pela trama de ódios e violências.
Uma a uma chegam ao proscénio e falam, os discursos não se cruzam mas vão construindo um quadro. Os percursos pessoais, as relações humanas, onde não falta um enredo amoroso e, em fundo, o eco de lutas sociais, pela devolução dos baldios aos povos, pela justa paga do trabalho nas vindimas e na apanha da azeitona, ou em torno da Gestão da Casa do Douro.
Foi a época das grandes manifestações, como a que foi organizada pela Igreja, com pretexto no caso da Rádio Renascença, mas que, talvez por diligências do PCP, designadamente junto do Bispo, e um Apelo dirigido aos cristãos de Vila Real, não causou violências, como, entre outras cidades, aconteceu em Braga, onde o Centro de Trabalho foi destruído.
Ou a manifestação em Lamego contra os militares do MFA da Comissão de Gestão da Casa do Douro. “Nem Cunhal nem Pardal” era o grito de guerra de uma multidão arrebanhada pelos caciques e que chegou à Assembleia Constituinte pela voz de um deputado da região.
Cenas da luta de classes em Trás-os-montes, dir-se-á. O livro de Daniela Costa é isto, mas é muito mais do que isto, porque tem o dom da boa literatura: desde início a leitura nos prende e logo nos transporta e nos situa num outro mundo, e nos coloca dentro de uma história, como se tivéssemos também conhecido e convivido com o Padre Max, um jovem bom, generoso, um cristão convicto, um homem de fé.
Falámos das vítimas, falemos agora da rede terrorista a que já nos referimos, responsável por 566 actos violentos, entre Maio de 75 e Abril de 77, entre os quais 310 atentados bombistas e 194 incêndios e assaltos, tendo como alvo forças de esquerda e o movimento sindical.
Quem a constituía? O ELP, o MDLP, a rede Maria da Fonte e outras organizações congéneres, que tinham como base logística a Espanha franquista, onde actuavam com nomes de fachada como a empresa Tecnomotor ou a Fundação Nossa Senhora de Fátima. Uma das melhores fontes para conhecer este mundo sórdido é o livro de Maria José Tíscar “A contra-revolução no 25 de Abril” (edições Colibri).
Quem a dirigia? Inicialmente antigos dirigentes da PIDE como Barbieri Cardoso e Cunha Passo, ou o inspector Meneses Aguiar ou o legionário Rebordão Esteves Pinto, a que se juntou depois a corte spinolista que fugiu para Espanha, após o golpe falhado de 11 de Março.
Quem eram os efectivos? Antigos agentes da PIDE e legionários, alguns colonos inconformados, mercenários, fascistas convictos, gente a mando dos caciques, um certo lumpen de fácil recrutamento.
Quem os financiava? Banqueiros e grandes empresários que nunca aceitaram o 25 de Abril e muito menos o rumo socialista que tomou e veio a ser consagrado na Constituição, além de conhecidas agências de países da NATO.
Os crimes foram punidos? As primeiras prisões são do verão de 76, efectuadas pela Directoria do Porto da Polícia Judiciária, mas poucos foram os autores morais e materiais presos e menos os condenados. Em geral beneficiaram de uma teia de cumplicidades que lhes permitiu encontrar boas soluções de vida, e alguns vieram até a ser distinguidos pelo poder político emergente.
Houve mesmo quem publicasse livros em que se gaba dos seus feitos. Foi o caso de um tal Manuel Gaspar, de quem o jornalista Ricardo Saavedra escreveu as memórias (O Puto, edições Quetzal). Depois de ter participado no golpe racista de 7 de Setembro de 74 em Moçambique, donde era natural, e na marcha até Luanda com as forças sul-africanas que tentavam impedir a independência de Angola em 11 de Novembro, sob a direcção do MPLA, desembarcou em Portugal, onde logo entrou ao serviço da rede terrorista. É um dos participantes confessos no assassínio do Padre Max e da Maria de Lurdes que, nas pgs, 337 a 340, descreve com detalhe. É um relato impregnado de cinismo onde defende, como é habitual nestes casos, que a intenção não era matar mas apenas assustar. Começa, com certo gáudio, a descrever a cena em que “à hora certa”…”lá vinha Maria de Lurdes, toda fresca e radiante nos seus dezoito ou dezanove anos”, para terminar explicando as mortes: “Só que o destino do casal, infelizmente, estava traçado, e contra o destino não há planos que resistam”. Por curiosidade se acrescenta que o indivíduo esteve preso em Alcoentre, por outras acusações, donde fugiu passado pouco tempo.
No mesmo livro se transcreve um artigo do jornal fascista A Rua, de 8 de Junho de 77, onde se fazia a afirmação de que a Maria de Lurdes estava “grávida de 3 meses”, que ficou provado, mais tarde, ser uma abjecta calúnia.
O fascismo não é coisa do passado, está de regresso e em força. Há uma direita tradicional, que se move no campo democrático, que tem da violência fascista uma visão instrumental pelo que possa ser útil para os seus interesses de classe. Tende a contemporizar ou condescender porque teme, acima de tudo, o ascenso revolucionário que a crise do capitalismo possa gerar nas classes trabalhadoras. A grande burguesia, a alta finança, têm com as organizações fascistas laços de cumplicidade e mesmo vínculos orgânicos, muito resguardados. Como aconteceu nos anos 20 e 30 com os resultados conhecidos. Como aconteceu em Portugal nos anos da Revolução. Como hoje vai acontecendo na Europa ou no continente americano.
O livro de Daniela Costa, para além do valor literário que tem, é um contributo mais para conhecer a revolução e a contra-revolução no Portugal de Abril.
É a memória que nos constrói, como cidadãos livres numa democracia plena.


Jorge Sarabando
2020 Abril

Textos periódicos II - Vasco Gonçalves na cimeira da NATO - por Henrique Mendonça; vice presidente da Assembleia Geral


Vasco Gonçalves na cimeira da NATO

Estamos em Maio de 1975, inicio do verão quente e tenebroso.
No final de Maio, em 29 e 30 de Maio, realizou-se a 3ª cimeira dos chefes de governo dos países da NATO.
Estas cimeiras são realizadas periodicamente para reunir os chefes de estado ou os primeiros ministros dos Estados membros, com objectivo de tomar decisões relativas a questões económicas e políticas que possam afetar os países membros.
Na NATO as línguas oficiais são o Francês e o Inglês.
Portugal fez-se representar pelo Primeiro Ministro, Gen. Vasco Gonçalves, e pelo Alm. Rosa Coutinho.
Vasco Gonçalves teve o cuidado de informar o nosso embaixador na NATO, Freitas Cruz, que o seu discurso, em nome do nosso país, seria feito em português.
Debalde o embaixador tentou convencer Vasco Gonçalves para proferir o discurso numa das línguas oficiais.
Por fim chegou-se a uma solução,Vasco Gonçalves proferia o discurso em português e facultava-se às tradutoras a versão em inglês e em  francês.
De salientar que em 29 de Maio quer Gerald Ford quer Helmut Schmidt, nos contactos bilaterais, procuraram intimidar arrogantemente o “nosso primeiro”. 
Nesses contactos, Vasco Gonçalves, falou sempre em português traduzido por um tradutor da nossa confiança, respondeu com imensa calma desmontando todas as questões por eles levantadas.
No dia 30 todos aguardavamos, espectantes a intervenção portuguesa. Até as interpretes estavam nervosas.
Quando Vasco Gonçalves iniciou o seu discurso fez-se um enorme silêncio na sala.
No final uma das tradutoras diz-me:
Este vosso Primeiro Ministro deve ser uma pessoa extraordinária. Gostei muito de ler o discurso dele. Não sei português mas pela entoação sentida da sua voz percebia-se muito em que ponto do discurso ele ía.

Poderão ler extractos do seu discurso abrindo o link
https://www.marxists.org/portugues/goncalves-vasco/1975/05/30.htm

Henrique Mendonça
6 de Abril de 2020

Escrito do Presidente da Mesa da Assembleia Geral, Manuel Begonha



Tempos Difíceis

A humanidade encontra-se hoje à mercê de duas soluções desenhadas pelos seus dirigentes.
Ou se salvam as pessoas ou se salva a economia, ou de outra forma, ou prevalece a fraternidade ou o individualismo agiota. 
Está a ser rudemente posta à prova a bondade intrínseca da natureza humana. Quantas mortes, quanta pobreza, quantas vidas destroçadas.
Os detentores do poder mundial, parecem esquecer que há pontes que por vezes não podem ser atravessadas 
Podem destruir-se.
Mas neste tempo de contrastes, também se manifestam as melhores virtudes do homem - tanta dedicação, tanta bondade, tanto altruísmo e tanta heroicidade.
E os mais velhos perceberam que há quem entenda que andam a mais por este mundo. Confrontam-se com a eutanásia tecnológica.
Quanta ingratidão!
Como escreveu Miguel Torga, "A velhice é isto - ou se chora sem motivo, ou os olhos ficam secos de lucidez". 
Entretanto, depois na acalmia virão os oportunistas, os catastrofistas e os populistas apresentar a factura ao governo e aos serviços pela incapacidade, inépcia e inadequabilidade dos actuais modelos de gestão políticos, económicos e sociais e lutar por dividendos para as virtudes do neoliberalismo e filo fascismo. 
Mas estou seguro que iremos vencer porque temos uma revolução por cumprir. 
Porque temos ideais que queremos transmitir aos mais jovens. 
Porque queremos um mundo diferente onde o homem livre e a justiça imperem. 
Porque somos combatentes pela Paz e por uma Terra sem desequilíbrio ecológico. 
Porque não queremos que o medo pense de mais. 
Porque havemos de ter a valentia dos Lacedemónios de quem o rei Agis dizia "Eles não perguntavam quantos eram os inimigos, mas onde estavam os inimigos."

Lisboa, Março de 2020
Manuel Begonha