Artigo do nosso associado Armando de Sousa Teixeira
DE VEZ EM QUANDO… “in memoriam”]
NA ESTRADA DO FIM…
A terrível doença do esquecimento não perturba a memória da fraternidade e da luta nos tempos difíceis, que alguns sem vergonha querem omitir, deturpar ou branquear.
O pelotão marchava em ordem unida, aproximava-se o “juramento” que escondia o crime de levar a destruição e a morte a terras distantes, onde os estropiados do corpo ou da alma tombavam às centenas, em obediência ao poder colonial despótico que há 500 anos espalhava a escravidão, a miséria e a morte.
Então como hoje a ordem (neo)colonial era o poder desmesurado das potências ocidentais sobre os povos vulneráveis provocando milhões de vítimas.
- Fausto, parecemos os cabeçudos das feiras, a toque de caixa!
Momentaneamente distraído e perturbado, o cadete mais alto no fim do pelotão trocou o passo sem querer e não tardou a ter o oficial comandante da companhia de instrução a soprar-lhe ao ouvido:
- Filho da puta! Se repetir a brincadeira está fodido comigo!
Engolir em seco o fel da revolta era o que restava de momento ao mancebo que, estando contra a guerra, ia à tropa para tentar abreviá-la, já durava há tempo demais!...
Foram para Moçambique em situações diferentes. Um oficial de justiça na cidade de Nampula, na Força Aérea, o outro, soldado raso despromovido, em Cabo Delgado, no coração da guerra em pioria, que alguns alienados no fervor patrioteiro e no embuste diziam já estar ganha!?... Estaria certamente para os grupos capitalistas monopolistas e para os seus próceres nos governos fascistas de Salazar/Caetano, que se enchiam com os negócios de sangue da guerra colonial.
A fraternidade tecida nas malhas do Império e a solidariedade na luta antifascista e anticolonialista, reflectiam a luz que iluminava a maré a levantar-se pelo derrube do regime.
- O senhor é fulano de tal? Tem aqui uma encomenda dos seus amigos de Nampula! Bons amigos, hem!
- Obrigado senhor tenente! Os amigos não são muitos, mas são bons!
No fim da pista de terra batida onde acabara de aterrar o “Nordatlas”, os semblantes surpreendidos de vários camaradas testemunhavam a mão estendida pelo oficial piloto-aviador para o soldado, sem continências!... Muitos anos mais tarde seria Chefe do Estado Maior da Força Aérea, um militar por Abril.
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Formado em Direito, jurista com mérito e devoção nas causas do Trabalho e dos Trabalhadores, Fausto Leite partiu no fim da estrada da dignidade e da honorabilidade dos que ficam na memória por feitos valorosos na luta por um mundo mais justo e equânime.
Os cadetes que agitaram a escola de infantaria de guerra em Mafra, em Outubro de 1971, com a consigna gritada no silêncio ensurdecedor das paredes frias do Convento-Quartel cobertas de vinhetas, e nos corredores sombrios onde ficaram os documentos de denúncia, “Não jures camarada!”, (e não juraram!), já partiram quase todos. Estavam contra a guerra colonial hedionda, contra todas as guerras de agressão e de dominação colonialista e imperialista que comprometem a Humanidade.
O seu exemplo perdurará porém na recordação dos tempos da repressão tremenda, da polícia política (a PIDE/DGS), do medo da máquina militarista que punia, despromovia, encarcerava quem ousava lutar e resistir. São as acções valorosas que libertam das leis do fim da estrada, outros continuarão a caminhada por um mundo melhor!
Viva o 25 de Abril!
Barreiro, 17/4/2026
Armando de Sousa Teixeira