ACR - Porto - Sessão de Solidariedade com a República Bolivariana da Venezuela

No passado dia 30 de Janeiro o vogal da direcção Jorge Sarabando proferiu a seguinte intervenção:




Os ciclos históricos na América Latina são diferentes da Europa, continente que foi o palco principal das duas Guerras Mundiais. Aos movimentos de afirmação soberana e democrática, de emancipação social e de apropriação nacional dos principais recursos e meios de produção, sucedem-se as ditaduras ou os regimes populistas, favoráveis às oligarquias económicas e financeiras, em estreita aliança com o governo dos Estados Unidos e os interesses nele hegemónicos. E a seguir, porque há uma resistência que se organiza contra o fascismo. um novo ciclo de movimentos libertadores e depois novamente o regresso dos regimes opressores. Em todos os enfrentamentos é fácil identificar a interferência directa ou indirecta do Governo norte-americano e das suas agências especializadas.
Há mesmo uma frase tornada célebre: “Pobre México, tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos”…
Para nos cingirmos apenas às intervenções ocorridas a partir de meados do século passado, por determinação dos Governos de Washington, com presidentes democratas ou republicanos, aqui fica um registo:
1954 – Guatemala: Invasão armada para derrubar o Presidente eleito Jacob Arbenz, que fez nacionalizações, iniciou uma Reforma Agrária e pôs em causa os interesses da United Fruit Co..
1961 – Cuba: invasão mal sucedida da Baía dos Porcos, por milícias formadas pela CIA, para derrubar o Governo socialista do Presidente Fidel Castro. Contra o Bloqueio económico declarado pelos EUA, todos os anos é apresentada uma moção na Assembleia Geral da ONU. Na mais recente, em 2018,, só os Estados Unidos e Israel votaram contra. Mas o bloqueio continua. 
1964 - Brasil: golpe militar cria uma ditadura, donde irradia a “Operação Condor”.
1965 – República Dominicana: intervenção armada para impedir que o Presidente eleito e entretanto derrubado, o progressista Juan Bosch, reassumisse funções. Foi a Operação “Power Pack”, ordenada pelo presidente Lindon Johnson.
1967 – Bolívia: apoio às operações para captura e assassínio de Che Guevara.
1973 – Uruguai: apoio ao golpe militar, que instituiu uma ditadura até 1985.
1973 – Chile: apoio, juntamente com a ditadura brasileira, ao golpe militar de Pinochet. Segundo um Relatório da ONU: 90 mil presos, 3 mil executados sem julgamento, 50 mil chilenos obrigados a abandonar a sua Pátria.
1975 – Peru: apoio ao golpe que derrubou o Presidente progressista General Velasco Alvarado.
1976 – Argentina: apoio à Junta Militar, presidida pelo General Jorge Videla, que esteve no poder até 1983 e cometeu as maiores atrocidades, como testemunhou o Movimento das Mães da Praça de Maio.
1978 – Nicarágua: actuação contra a Frente Sandinista e mais tarde de apoio ao grupo dos “Contras”.
1980 – El Salvador: apoio à luta contra a Frente Farabundo Marti de Libertação Nacional, que só terminou com o acordo de Paz de 83. Neste ano foi assassinado por milícias de extrema-direita o corajoso Bispo Óscar Romero, recentemente canonizado. 
 1980 - Bolívia: apoio ao golpe que levou ao poder o general Garcia Meza, que chegou a ter  ajuda de antigos nazis alemães.
1983 – República de Granada: invasão para derrubar o Governo de inspiração marxista.
1989 – Panamá: invasão por tropas dos EUA para derrubar o Presidente Noriega. Foi a operação “Justa Causa”, ordenada pelo Presidente George Bush. O comando militar norte-americano, num acto insólito, deu posse ao novo Presidente Guillermo Endara. Mortos cerca de 3 mil panamianos, poucas baixas entre os invasores.
2008 – Paraguai: apoio ao derrube, via “impeachment”, do Presidente progressista Fernando Lugo, antigo sacerdote católico.
2009 – Honduras: apoio ao derrube do Presidente Zelaya, que foi metido pelos militares golpistas num avião, ainda em pijama. A eleição de 2017 para a Presidência foi muito renhida e os resultados contestados pelo candidato mais à esquerda. Ainda antes da Comissão Eleitoral anunciar a sua decisão final, a embaixada dos EUA felicitou o Presidente eleito, justamente o seu aliado, assim criando um facto consumado.
Eis um registo, muito incompleto e simplificado, das intervenções norte-americanas em pouco mais de meio século. 
Continua, tão forte e tão despudorada como antes, a interferência do Governo de Washington e das potências suas aliadas na vida interna de cada País da América Latina, que nada tem a ver com a liberdade e a democracia, mas sim com a defesa dos seus interesses, das suas empresas e dos oligarcas seus associados. Não é para defender a liberdade e a democracia que o Governo de Washington apoia activamente os conspiradores contra a Bolívia, de Evo Morales, ou a Nicarágua, de Somoza, ou agora a Venezuela, de Nicolas Maduro.
A luta continua, na Venezuela, na América e em todos os continentes, contra o imperialismo, pela democracia e o direito soberano dos povos, pela paz e por isso aqui fica a nossa solidariedade.