Museu do Trabalho - Setúbal - 20231111 | Intervenção de Fernando Casaca | Centenário de Vasco Gonçalves

 

 

Começo por partilhar convosco que gosto de histórias, de as ouvir e de as contar. 

As histórias - que resultam da invenção humana - ajudam-me a melhor entender a História - correspondem à forma mais genuína e popular de entender a realidade, na minha perspetiva. A realidade que, por sua vez, é o edifício que resulta de um imenso, de um gigantesco movimento humano - grandioso, quer na dimensão material quer na sua forma imaterial. Movimentação - e motivação - humana, sonhada e executada, de acordo com as lógicas e dinâmicas sociais coletivas, de uma época determinada, que me fascina. Que tanto me fascina, de facto! É o devir histórico, no sentido do progresso!

Progresso...?! Chegou a altura de mudar o rumo deste texto, porque pode correr muito mal...

As histórias... A minha opinião é que as histórias são os relatos mais fidedignos da vida, das nossas vidas e das coisas dessas vidas. Das coisas que vão sucedendo, no mundo que nos rodeia e envolve, sem as rédeas e o espartilho classista dominante.

E porque estou eu a falar de histórias? - estarão, provavelmente, a perguntar na privacidade dos vossos pensamentos... Eu respondo: porque todos os textos e, em particular, todas as narrativas precisam de uma introdução. Uma introdução e um conflito - ou será ‘uma' luta de classes?...

Nova mudança, no rumo que isto está a levar...

Vou ser direto. Falo de histórias, num dia como o de hoje, porque sempre vi o Vasco, o companheiro Vasco, sob o manto das metáforas.

Como sabemos, todas as histórias contêm metáforas, em abundância... para além de introdução e conflito.

Por esta altura, já estarão a perceber a relação, entre o que nos trouxe a este lugar e as minhas palavras - não?...

Vasco Gonçalves era o militar, o general que trajava à civil, tal como sempre o conheci.
Era o primeiro-ministro da Revolução. Nenhum outro personificou o 25 de abril, como o Vasco, o companheiro Vasco. E isto - esta imagem que persiste, na minha memória de abril - isto está cheio de metáforas, de histórias.

Quero contar-vos, então, um pouco da minha experiência, em jeito de história. As histórias são como os jogos, precisam de jogadores motivados, conscientes e engajados.
Vou, pois, lançar as pistas para que, todos juntos, possamos recriar os enredos, as narrativas, desta História de verdade. Estão de acordo? Obrigado.

Estamos aqui por causa do cem. Cem, com c de companheiro, c de centenário, c de conquistas, c de cinquenta - que outros tantos tem abril! ou tantos quantos contam os anos da Liberdade! C de cinco - o número dos dedos a que, cerrados, chamamos punho.
Cinco que corresponde ao mês de maio, o quinto do nosso calendário - o mês em que celebramos o trabalho. Mas não haveria nenhum cinco no mundo, sem um quatro - o que nos leva de novo a abril, de facto. Cinco que multiplicado por outros cinco, ou seja, por si próprio, se faz em vinte e cinco - o dia em que faz anos a Liberdade. E não há nisto outra ciência, que as histórias da minha infância não possam explicar. Que a História não é
senão uma invenção coletiva, em que o conflito - a luta de classes, ainda se lembram?... - gera as mudanças, os desfechos; gera novas realidades. Um conhecimento do mundo - a matemática, a álgebra e a alegria, de construir um edifício ou de levantar uma muralha - uma muralha feita do aço, de que somos feitos, quando sabemos enfrentar o fascismo, o obscurantismo; quando combatemos a exploração dos homens pelo homem; quando não
nos permitimos substituir a grandeza da Humanidade pela pequena dimensão do homem individualista.

E também há o c com cedilha - aquele acento que lembra uma mola. O acento que ressalta na imaginação, como mola propulsora do movimento ascendente e do progresso social e da humanidade. Um segredo guardado no abecedário do futuro, escondido sob a letra c. É o c da muralha d’aço. Ergamos de novo esta muralha, feita com o aço, agora, forjado nestes cinquenta anos de abril. O aço que sustenta a vontade, individual e
comum, de construir um mundo melhor. O aço temperado com a consciência de ser classe - o aço, que está no braço e no abraço, que vos deixo neste dia.