Intervenção do Comandante Manuel Begonha, presidente da Direcção da Associação conquistas da Revolução, no almoço comemorativo do 25 de Abril





“Após 48 de fascismo, 14 anos de Guerras Coloniais, 32% de analfabetos, 10% da população emigrada e milhares de mortos e inválidos de guerra. Após termos índices sanitários dos mais baixos da Europa, problemas dramáticos na habitação e conomia desastrosa. Com o prestígio internacional nulo. Repressão. Tortura. Censura. Corrupção.
Foi neste clima de tragédia que na madrugada do 25 de Abril o MFA e o povo iniciaram a árdua caminhada para a construção da sociedade socialista em Portugal”.
Assim escreveu Ramiro Correia no 1º aniversário do 25 de Abril.
Levantou-se então uma força revolucionária imparável que percorreu toda a sociedade portuguesa, conduzida essencialmente pelos trabalhadores.
Como em todas as épocas singulares da história dos povos, surgiu um homem, o General Vasco gonçalves que nos governos provisórios a que presidiu e apesar das dificuldades e obstáculos próprios destes processos transformadores, decorrentes dos momentos contrarevolucionários nacionais e internacionais, foi capaz de responder às necessidades mais prementes da população, combatendo e identificando as injustiças sociais mais flagrantes provenientes do regime fascista e assim lançando os alicerces para a construção de uma sociedade rumo ao socialismo. Tal objectivo foi conseguido  mantendo a economia a funcionar, melhorando mesmo os indicadores económicos como aliás foi reconhecido por uma delegação do FMI que à época esteve em Portugal.
Viveu-se um momento da nossa história no qual quem mais ordenou foi o povo, estando o poder também com o povo.
No entanto, um país nestas condições era inaceitável e perigoso para o capital internacional que de imediato desencadeou uma enorme investida contra este Portugal, fortemente apoiada pelas forças reaccionárias internas. Foram adoptadas as orientações estratégicas do expoente máximo das actividades contra revolucionárias, o embaixador Frank Carlucci.
O socialismo foi então encaixotado, Cavaco silva e os seus discipulos tentaram enterrá-lo, para finalmente José Sócrates, o entregar, já descaracterizado, ao presente governo, que agradeceu, e diligentemente continuou a recuperar os grandes grupos económicos.
Aumentou o abismo entre os ricos e os pobres. Prolifera a corrupção, a ganância, o compadrio e a insensibilidade social.
Uma fúria destruidora e vingativa apoderou-se destes dirigentes para varrer as conquistas da revolução, conseguidas com tantas lutas e sacrificios pelo nosso povo, numa simbiose única entre forças revolucionárias consequentes e a legislação criada que legitimava as suas acções.
Os ideais de Abril têm vindo a ser combatidos por uma contrarevolução ultra liberal de carácter profundamente anti-social. Anti social poruqe pretende eliminar os mais velhos, expatriar os jovens e empobrecer todos os outros, tentando até alterar o movimento da história, retirando o poder ao povo para o entregar fragilizado, como instrumento de domínio do novo poder globalizado, aqueles que melhor sabem gerir a exploração enfim querem transformar-nos num povo de dispensáveis, multiplicando acções governativas que procura a penalização e a agressão do universo do universo do trabalho.
Não há respeito, nem confiança mútua entre o governo e o cidadão. O governo decide e xecuta sem se preocupar com os reflexos que políticas não adequadas, irão ter para o povo e quais os custos associados. Quanto mais lesivas são as medidas tomadas para a grande maioria da população, maior é a reserva e o secretismo que as acompanham.
Estes procedimentos unilaterias, atentam contra o bem estar, cultura e tradições dos portugueses, provocando angústia, vulnerabilidades e desespero, o que a prazo trará para todo o povo consequências imprevisíveis.
Assistimos a permanentes actos de injustiça, como o apoio do Governo aqueles que no passado foram os responsáveis por esta situação, a banca e o capital internacional.
Vende-se a retalho o património conquistado com o 25 de Abril.
O medo de perder o posto de trabalho vai inibindo cada vez mais os trabalhadores de se exporem às mais diversas formas de luta dentro e fora das empresas, acredirabdo até por vezes, que nada se pode fazer, quando pelo contrário tudo se conquista lutando para consolidar os seus legítimos ideais.
A comunicação social procura muitas vezes estimular a noção da inevitabilidade das medidas em curso, alimentando assim o pessimismo e o conformismo.
A mensagem é que não há alternativa para a austeridade e que as lutas populares são inúteis agravando até a crise.
Por outro lado a Coligação no poder continua a veicular um cenário optimista ocultando pateticamente a dimensão da nossa dívida pública que, a não ser reestruturada, mantendo-se as actuais condições do prazo de pagamento e dos juros, as actuais medidas são insuficientes para o crescimento da economia o que nos irá levar seguramente a pedir novos empréstimos e consequentemente novos sacrifícios àqueles que já se encontram no limite da sobrevivência e de uma forma de vida digna.
Temos a responsabilidade inalienável de ir ao encontro daqueles que aspiram a ser felizes e livres deste sofrimento.
Devemos entender como é que passados 38 anos sobre a Revolução do 25 de Abril, nos encontramos de novo oprimidos pela mesma classe que aquela revolução parecia ter afastado. No acto comemorativo do 5 de Outubro ouvimos do Presidente da República que é preciso “reinventar a República”…!
Nestes tempos de contra revolução é necessário agir.
Hoje a tarefa revolucionária é desenvolver o espírito da luta. Não podemos baixar os braços, mas sim criar a confiança que nos empurrará para os grandes combates.
Sozinhos, temos de reaprender o que em conjunto devemos pôr em prática.
De nada servirão os nossos pensamentos íntimos, se não forem utilizados pela força de um colectivo. Não haverá local onde os possamos esconder.
Nada se pode fazer contra o espírito de liberdade que resiste a todo o tipo de injustiças.
Contudo não devemos procurar rever-nos excessivamente nas conquistas do passado. Há que dinamizar uma reflexão sobre o nosso futuro estudando as transformações que vêm ocorrendo na sociedade e em toda a humanidade. Temos de despertar a consciência para definir e construir o futuro. Os tempos mudam e nós mudamos com eles? Nada de essencial muda verdadeiramente.
Relembremos José Saramago, quando da inauguração da exposição “Portugal um ano de Revolução” – “Vejamos os soldados, os operários, os camponeses, as gentes das cidades e dos campos, ouçamos nas gargantas abertas os gritos da Revolução. Vejamos o trabalho e a construção de tudo. Vejamos o ondular das bandeiras, os braços erguidos no ar, a força dos punhos, o cântico das imagens sobre a memória dos sons gigantescos das grandes caminhadas. É este o povo Português enfim recolhendo e frutificando a herança de oito séculos. Agora são as nossas verdadeiras Descobertas: este ser enfim o que tanto esperávamos – Portugal”.
Então qual a mudança? A vontade de um mundo diferente permanece, os conceitos que norteiam o desejo humano que vai da solidariedade à justiça prevalecem.
Olhemos Vasco Gonçalves empunhando agora cravos brancos que reflectem a pureza dos seus ideais que não morreram mas se desvaneceram numa neblina que não ofuscaram as planícies e montanhas vestidas de vermelho, neblina essa que será dissipada pelo vento forte da determinação do povo português.
Aquilo que se está a perder será recuperado noutros moldes, porque justos e em novos tempos.
Vamos continuar a resistir, avançando, quando por vezes o desistir parece fácil.
Para nós nunca haverá a desistência, o conformismo e o abandono dos ideais progressistas, mas sim uma caminhada para um País Novo e um mundo melhor.

VIVA O 25 DE ABRIL!

VIVA PORTUGAL!

21 Abril 2012