Artigo de Manuel Begonha - Sócio da ACR - sobre a accção cultural da 5ª Divisão e um texto de Varela Gomes

 

CIRCO E APOIO LITERÁRIO
TEXTO DE JOÃO VARELA GOMES

 

 

Termino a série de textos  ácerca dos sectores da CODICE e publico um texto de João Varela Gomes, sobre a 5ª Divisão, para não deixar esquecer nem permitir deturpações.

João Varela Gomes foi um grande revolucionário de fortes convicções, corajoso, com notável honestidade intelectual, inteligência e cultura política.
Foi o amigo, o camarada e o modelo de muitos de nós jovens, que com ele partilhámos a 5ª Divisão nessa época de renovação e esperança.
Este e Ramiro Correia, homens de grande importância para a concretização da Revolução do 25 de Abril, foram lamentavelmente ocultados da História, pelos poderes emergentes do golpe de 25 de Novembro de 1975.

CIRCO E APOIO LITERÁRIO

CIRCO 

O animador inicial foi João de Lemos Menezes Ferreira , da Direcção Geral da Cultura Popular e Espectáculos. 
O desígnio era estruturar e dignificar a vida dos artistas de circo. 
Criou-se então, no Muxico uma Cooperativa de Circo. 
Posteriormente, constitui-se uma escola de circo e promoveu-se a formação e ensino de teatro de fantoches. 
Para o dia 29 de Novembro de 1975, estava prevista a inauguração do Grande Circo Popular. 
"O circo é olhado pela primeira vez a nível oficial em 1975, através da 5ª Divisão do EMGFA, que sensibilizada por pessoas ligadas ao circo, se apercebe da sua validade como acção dinamizadora, não hesitando inclui-la nas campanhas de dinamização do MFA. 
O circo passa então a viajar nos autocarros militares e nos helicópteros, chegando ao interior do país, a locais onde nunca lhe fora permitido assentar arraiais. 
Muitos dos artistas que participaram nessas campanhas partiam já pintados e com as roupas dos espectáculos vestidas :só havia tempo de chegar ao local, actuar e partir de corrida para outro sítio. "*

*Diário de Lisboa, 10 de Abril de 1981

Indica-se seguidamente a ficha técnica do sector :
- Coordenação :Faria Paulino e Teresa Ricou (Té 
té). 
-: Carlos da Costa Monteiro, Família Jacques, Luciano Nobre, Palhaços da Inatel, Palhaços de Viseu, Fantoches de Francisco Esteves e outros. 

 

APOIO LITERÁRIO 

 

A intenção era registar e tratar os relatórios e outras matérias relativas às campanhas de dinamização e a respectiva transposição para estudos sociológicos e etnográficos do país. 
Por outro lado, os escritores produziram textos de apoio e outros para banda desenhada, apoio à produção editorial da CODICE, artigos, reportagens e crónicas para a Comunicação Social, e ainda livros relacionados com a presença do MFA no terreno. 

A ficha técnica do sector é a que se segue :
- Coordenação : Modesto Navarro. 
- Colaboradores : Virginio Martinho, Bernardo Santareno, Isabel da Nóbrega, António Torrado, Luso Soares, Maria Carrilho e outros. 
- Obra original : Vida ou Morte no Distrito de Viseu, de Modesto Navarro, editora Prelo. 

 

TEXTO DE JOÃO VARELA GOMES, de Fevereiro de 1984 

 

" Dez anos passados sobre o derrubamento do fascismo, poucas são as recolhas documentais relativas ao período revolucionário de 1974 - 1975 que se encontram publicadas. 
Poder-se - à alegar - em generalização fácil - que os portugueses não têm ( não querem ter memória). 
Em rigor porém, quem não quer ter memória ( quem teme) é a actual classe dominante, os usufruídores da democracia partidária parlamentarista. 
A má consciência afasta a ( boa) memória (...) 
Todavia, o panorama mais sombrio corresponde ao sector militar. 
Há fortes razões para supor que a documentação oficial e os arquivos complementares da 5ª Divisão do EMGFA foram, em grande parte, ou destruídos ou feitos desaparecer. 
Duas acusações concretas permanecem sem desmentido, nem averiguação : o auto - de - fé das colectâneas dos Boletins do MFA, o desaparecimento das bobinas com a gravação das Assembleias do MFA. 
Uma terceira se acrescenta nesta oportunidade :
a presumível destruição do valiosissimo espólio da CODICE, constituído por milhares de documentos do mais alto interesse histórico e sociológico... "

" Na realidade a 5ª Divisão nunca emitiu um mandato de captura, nunca procedeu a qualquer busca, ou prisão, nunca exerceu actividades de natureza policial ou judicial. 
Apenas porque não era essa a sua função, não por se desconsiderar esse aspecto da defesa de um regime revolucionário. 
As nossas missões situavam-se no campo das ideias, da Revolução cultural. Consistiam em arrancar este nosso povo do obscurantismo mostrando - lhe os caminhos do socialismo, os caminhos da redenção, da esperança, do progresso. 
Também pegamos em armas e corremos para as posições mais expostas, sempre que a Revolução foi atacada. 
Mas esse é o dever elementar do revolucionário que tem alguma coragem e preza a sua honra. "*

 

*Livro Branco da 5ª Divisão, pp. 445 a 446