Sobre a Velhice
Manuel Begonha - sócio da ACR
Estive recentemente num jantar comemorativo do 25 de Abril na Casa do Alentejo com numerosos camaradas e amigos.
Apesar das sequelas da idade nem sempre notórias, o encontro decorreu com muita alegria e a evocação de recordações gratificantes.
Mesmo vivendo num mundo dominado pela insanidade e onde tantos jovens não chegarão a esta fase da vida que é uma velhice mais ou menos remendada.
Convivemos com tanta experiência acumulada, tantas alegrias e exaltações, tantas utopias acarinhadas, tantas tristezas, tantas memórias dos que já partiram e tão penosas e crescentes desilusões que acabei a recordar um poema de Mario Benedetti.
POEMA de Mario Benedetti
Aqui não há velhos.
Sozinho, chegou a tarde:
Uma tarde carregada de experiência
Experiência para dar conselhos.
Aqui não há velhos.
Só estamos atrasados.
Velho é o mar e agiganta.
Velho é o sol e nos aquece.
Velha é a lua e ilumina-nos.
Velha é a terra e nos dá vida.
Velho é o amor e nos encoraja.
Aqui não há velhos.
Só nos chegou a tarde.
Somos seres cheios de conhecimento.
Graduados na escola.
Da vida e do tempo.
Que nos deu a pós graduação.
Subimos na árvore da vida.
Nós cortamos os seus frutos o melhor.
São esses frutos nossos filhos.
Que cuidamos com paciência.
Reverte essa paciência com amor.
Foram crianças são homens serão velhos.
A manhã virá e a tarde chegará.
E eles também darão conselhos.
Aqui não há velhos.
Só nos chegou a tarde.
Jovem: se você encontrar na sua caminhada.
Seres pausados.
De olhares serenos e carinhosos.
Pele rugosa, mãos trémulas.
Não os ignore, ajude-os.
Proteja-os, ampare-os.
Dê-lhes a sua mão amiga.
O teu amor.
Lembre-se disso um dia.
Você também vai chegar a tarde.