Evocação Carlos Paredes - Intervenção de Manuel Begonha




Em nome da Direcção da ACR quero agradecer a vossa presença que nos dá muita satisfação e muito nos honra.
Quero agradecer à Direcção da "Voz do Operário" a cedência destas excelentes instalações bem como aos correspondentes colaboradores que muito irão contribuir para o sucesso deste espectáculo.
Agradeço também a generosidade dos artistas, produtor e técnicos e ainda ao nosso associado que cedeu um inédito de Carlos Paredes que tornaram possível concretizar estarmos aqui hoje.
Embora tivesse colaborado nesta homenagem desde a primeira hora não é possível a Luisa Amaro, companheira de Carlos Paredes, estar presente devido a uma intervenção cirúrgica, da qual felizmente está bem.
Igualmente Carlos Canhoto não irá estar presente devido a uma doença imprevista.
Luisa Amaro pediu-me para vos transmitir a sua grande decepção por não estar hoje convosco, desejando o maior sucesso para este evento que muito a sensibiliza.
Lembro que uma iniciativa deste tipo, apesar da compreensão de todos os intervenientes, tem custos, pelo que apreciamos que olhassem com simpatia para o envelope que se encontra na vossa cadeira.
A ACR foi constituída para lutar pelas "Conquistas da Revolução" que foram conseguidas, maioritariamente, nos quatro governos provisórios presididos pelo general Vasco Gonçalves que é aliás o patrono da nossa associação.
Lutamos igualmente por não deixar esquecer aqueles que entendemos, se libertaram da lei da morte - assim convoco Camões para esta festa - pela obra que produziram para a consolidação das "Conquistas da Revolução".
Destes, no campo da cultura e especificamente no da música, tem justíssimo lugar o Carlos Paredes que deu novos mundos à guitarra portuguesa e a quem estamos agora a evocar e a homenagear.
Carlos paredes nasceu em Coimbra, a 16 de Fevereiro de 1925 e faleceu em Lisboa a 23 de Julho de 2004.
Compositor e guitarrista fulgurante constitui um símbolo impar da história da música portuguesa contemporânea.
Apesar de ter ficado conhecido como mestre da guitarra portuguesa, ao ser certa vez, em Espanha, tratado por mestre, respondeu, com a sua reconhecida modéstia, que não era mestre mas sim funcionário público.
E assombrosamente assim era, porque este grande homem era arquivista de radiografias no hospital de S. José.
Liga-me ao Carlos uma grande amizade, respeito e reconhecimento cimentados na 5ª divisão do Estado Maior General das Forças Armadas, onde nos idos 1974/75, integrou o departamento de música da CODICE, organismo que coordenou as Campanhas de Dinamização Cultural e Acção Cívica do MFA, no qual para além de se ter dedicado a várias intervenções públicas, por todo o país, elaborou um método para o ensino da guitarra às crianças, infelizmente desaparecido.
Revelou-se, sempre, um homem tímido mas vertical e dotado de uma grande cultura humanista e política, imbuído de profundas convicções, para além de ser um admirável conversador.
Por tudo isto, é com grande orgulho que vos comunico que em reunião de Direcção foi aprovado, por unanimidade, propor a atribuição à próxima Assembleia Geral, a atribuição a Carlos Paredes a qualidade de sócio de mérito da Associação Conquistas da Revolução.
Finalmente desejo que se divirtam, confraternizem e que saiam daqui mais inspirados para continuar a luta que todos os dias nos espera.
Muito obrigado
VIVA CARLOS PAREDES!!!

Homenagem a Carlos Paredes - Intervenção de Fausto Neves

Fausto Neves



Carlos Paredes (1925-2015)

Apesar do “aviso” escrito por João de Freitas Branco numa das suas críticas musicais, segundo o qual Carlos Paredes continuava a “pedir desculpa a todos por ser apenas o melhor guitarrista do mundo” –, era difícil resistir: desde que tinha chegado a Espinho, para participar no Festival de Música local, Paredes não cessava de nos interrogar acerca do cabimento da sua presença num festival dedicado à música clássica, de repetir à exaustão a “pequenez” da sua guitarra e das suas “modinhas” num Festival que trazia a Espinho nomes sonantes da música erudita portuguesa e internacional.  

Carlos Paredes surgiu no certame, acompanhado por Luísa Amaro, que entretanto sucedera a Fernando Alvim, na base harmónica sustentada pela guitarra clássica. Deixámo-nos preocupar pelo ambiente criado por Paredes, pelas suas dúvidas permanentes e em crescendo, que saltaram várias graduações ascendentes de ansiedade ao ver a sala onde iria actuar, o grande auditório do Casino de Espinho. Pior ficou mais tarde, a breves momentos do concerto, com a sala completamente cheia. Para além de toda a ansiedade de Paredes, surge uma unha alegadamente quase a partir. Num esforço sobre-humano, o nosso guitarrista consegue acertar com o bico do tubo de cola no espaço entre a unha e o dedo – ambas as mãos tremiam como canas verdes… –, lá descarregando uma boa porção, perante o nosso olhar incrédulo. Conhecedor das ansiedades artísticas iminentes ao concerto, nunca tínhamos presenciado tamanho “trac”!… Estaria capaz de tocar em palco uma nota que fosse na sua guitarra? Apenas a serena conformação com o estado do parceiro musical, que emanava de Luísa Amaro, me entreabriu uma ténue esperança que a coisa corresse bem…

E se correu! Entrecortando com uns eléctricos acordes de afinação as palavras, na sua boca tão prementes quanto cativantes, de saudação ao público e de ilustração acerca do programa e da história do seu instrumento, Carlos Paredes atacou a primeira obra com uma energia sobre-humana que ganhou de imediato a sobrelotada sala de largas centenas de pessoas para um concerto memorável para todos os presentes.

No ano seguinte, Paredes regressou ao Festival. (“Querem-me cá outra vez?!? Já me conheceram tudo no ano passado!...”). Quis inovar. Desta vez desejava juntar ao concerto um elemento de artes plásticas. Solicitou-nos um quadro no palco onde fixaria várias folhas de papel-cenário com desenhos feitos por si, a propósito de cada obra. Já conhecidas as brutais ansiedades pré-concerto do nosso visitante, agora preocupávamo-nos com o famoso quadro, que nos parecia muito pequeno no enorme palco do Casino e para uma sala muito, muito grande. A visibilidade estaria garantida para o público mais afastado? E os próprios delicados desenhos, que antevíramos fugazmente, iriam captar o público?  

O certo é que em palco Paredes era um verdadeiro amplificador de comunicação artística. E se todos ainda temos presente a força da sua comunicação musical e guitarrística em actuação pública, essa energia mantinha-se na convicção das palavras acerca do programa e, neste caso – mistério! –, na própria “ampliação” dos desenhos: uma sala cheia, tendencialmente barulhenta, ouviu religiosamente as suas palavras e as suas referências aos desenhos e às obras correspondentes, a serem executadas na sua guitarra mágica. As explosões de aplausos sucediam-se, até ao último balbuciar de Paredes, reclamando timidamente o seu cansaço e anunciando generosamente ainda mais um extraprograma “desta-vez-é-mesmo-o-último”!...

Carlos Paredes teria cumprido no passado dia 16, 91 anos de idade, roubados por doença terrível, que o separou da sua guitarra, primeiro, e depois da própria vida. De nós todos.

Herdeiro de uma insigne família coimbrã de executantes de guitarra portuguesa – filho de Artur, neto de Gonçalo e sobrinho-neto de Manuel – Carlos Paredes estudou piano, violino e teoria musical, por insistência materna, o que lhe veio dar uma consistência suplementar no desenvolvimento autodidacta dos seus estudos na guitarra portuguesa, herança da família paterna. Tendo-se mudado para Lisboa, fez os seus estudos liceais já na capital e iniciou a sua carreira profissional na função pública (1949) como administrativo do Hospital de S. José.

Apesar de ainda fazer alguns acompanhamentos de guitarra no início da sua carreira – chegou mesmo a gravar com o pai –, Carlos Paredes entra em ruptura com a tradição paterna: afasta-se de Coimbra como área preferencial de apresentações públicas – onde o pai era considerado muito justamente como expoente máximo da virtuosidade da guitarra coimbrã – e lança o seu instrumento de eleição numa senda solista nova, virtuosística e, sobretudo, plena de liberdade. Onde soube amalgamar, como todos os grandes mestres, um pouco de tudo o que herdou com o que soube captar e sintetizar do seu tempo: em Coimbra de Artur, em Lisboa de Armandinho, da clássica dos seus estudos, da organologia aprofundadamente estudada do seu instrumento de eleição, da expressividade das linhas vocais do fado, do abstracto virtuosístico das guitarradas de Mondego e Tejo. Como plasma de maturada fixação e síntese de todos estes enciclopédicos elementos, a profunda identificação com o seu povo, no seu drama de fascismo e nas suas alegrias e ilusões de liberdade, o seu contributo permanente e persistente na busca de Abril, na sua defesa e exigência, rumo a um mundo mais fraterno e justo, vibrante de paixão como o som de Paredes, na sua entrega integral à Música e à luta.

Nessas suas andanças fez caminho com outros artistas e intelectuais da oposição ao fascismo português, donde relevaríamos, pelo exemplo de fusão de artes e de frentismo cultural oposicionista, a concepção da intervenção pela arte global, soprada por Lorca e tão bem desenvolvida por Lopes-Graça e pela eternamente efémera Manuela Porto: entremeando as proibidas “Heróicas” com as toleradas “Canções Regionais” do Coro da Academia dos Amadores de Música (na altura Coro do Grupo Dramático Lisbonense) surgiam o Teatro, a Poesia e, aqui e ali, Carlos Paredes também.

Carlos Paredes foi militante do PCP. Denunciado à PIDE, foi preso em 1958. Cruelmente separado da sua guitarra durante ano e meio de cárcere viveu duros momentos na prisão. Para sobreviver mimava a execução guitarrística apenas com os braços, por vezes com um pente, fazendo os seus colegas de cárcere temer pela sua sanidade mental. Lutava apenas contra a clausura, compunha mentalmente, sentia no seu colo as asas da sua liberdade: a sua guitarra, “passarola” e caravela de sonhos de que o tinham separado.

Saído da cadeia, foi expulso da função pública. Por vocação e pela força das circunstâncias o anónimo funcionário público que nos tempos livres emprestava a sua arte a alguns serões musicais organizados por colectividades populares, passou a ter a sua actividade artística como fonte principal de vida – embora ainda tenha exercido as funções de delegado de propaganda médica.

Nesse primeiro ano de liberdade recuperada – 1960 – escreveu a música de fundo do filme “Rendas de Metais Preciosos” (Cândido Costa Pinto) e gravou em 1962, já com Fernando Alvim, o seu primeiro disco EP a solo. Em 1963 compõe e grava o que seria um dos seus maiores sucessos: “Verdes Anos”, música de fundo para o filme homónimo de Paulo Rocha, inaugurando o “cinema novo” português. Retoma a colaboração com o mesmo realizador em “Mudar de Vida”. Colabora com o teatro (Cardoso Pires e Bernardo Santareno, e Grupo de Teatro de Campolide), acompanha os versos de Ary e, logo após o 25 de Abril, de Alegre.

Progressivamente popular e apreciado nos meios oposicionistas ao regime fascista, quer na intelectualidade, quer nas organizações populares e juvenis, Carlos Paredes grava o seu primeiro LP a solo, “ Guitarra Portuguesa”(1967-42 anos!!), a que se segue “Movimento Perpétuo” e o single “Balada de Coimbra”. Levado aos lares portugueses pelo programa de televisão “Zip-zip”, admirado publicamente por Amália Rodrigues, acaba por representar Portugal no Olympia de Paris (1967), na Feira Mundial de Osaka e na Ópera de Sidney (ambas as apresentações em 1970).

A sua fulgurante carreira nacional e internacional estava lançada, o seu talento musical de criador e de intérprete de elite, através de uma virtuosidade técnica assombrosa fazia dele um artista inigualável, que através de todas estas características rompia com o próprio fascismo, com as suas próprias e eternas timidez e modéstia que soçobravam na penumbra dos “rasgados” enérgicos das cordas da sua guitarra portuguesa, das frases melódicas enternecedoras, na velocidade cósmica das passagens rápidas do seu dedilhar insuperável.

E a Festa de Abril chegou em 1974. Apanhou o guitarrista com uma carreira construída a pulso, com o seu extraordinário talento a vencer a má vontade do fascismo, da pequenez nacional e… da sua própria timidez. Por incrível que pareça, a sua entrega total à Revolução dos Cravos, apresentando-se por todo o país – da mais ilustre sala ao salão de festas popular mais modesto –, e a sua reintegração na função pública – com regresso anacrónico ao serviço de Radiologia do Hospital de S. José – acabaram por travar a intensificação progressiva de gravações de discos e de trabalhos de criação, sugeridos pela década anterior.

A imensidão do trabalho cultural da Revolução de Abril absorveu-lhe completamente os tempos livres das suas funções profissionais. O CD “Espelho de Sons” apareceria a público apenas em 1988, dois anos após a sua reforma, ordenando vários originais que fora desenvolvendo em público na azáfama de 14 anos de vida democrática, nos fluxos e refluxos de Abril.

Apesar da dúvida que grita nos agudos da sua guitarra, imaginando-se até onde poderia ter ido a sua carreira se tivesse recebido um estatuto de entrega profissional exclusiva ao seu instrumento, este tempo foi, claramente, de consagração de Paredes. Figura permanente da “sua” Festa do Avante e de inúmeras iniciativas do PCP, o guitarrista emparelhou com outros gigantes da música improvisada como Vitorino de Almeida e Charlie Haden, participou ainda em gravações de Carlos do Carmo e de Adriano Correia de Oliveira e foi convidado especial de um concerto dos “Madredeus”.

No estrangeiro representou o PCP em vários concertos realizados em países socialistas e entrou no circuito comercial internacional ao actuar no Bobino de Paris (1980) e na Alte Oper de Frankfurt (1982). Vasco Wallencamp coreografou a sua música para o saudoso Ballet Gulbenkian em “Danças para uma Guitarra”, em cujas apresentações Paredes actuou ao vivo.

Em 1984 apresenta-se finalmente como solista principal de dois grandes concertos, realizados no Auditório Nacional Carlos Alberto no Porto.  

Em 1990 é-lhe concedida uma bolsa de mérito cultural pela Secretaria de Estado da Cultura e em 1992 recebe a comenda da Ordem de Santiago da Espada. Nesse ano foi homenageado em dois concertos no teatro São Luiz e um no Porto, no Teatro Rivoli.

Em 1993 inicia a gravação de um novo CD, mas já não consegue terminá-lo, devido a problemas de saúde. O seu material seria recolhido mais tarde no CD “Canções para Titi”. Toca ainda, com esforço, na apresentação da Lisboa, capital europeia da Cultura, e em Dezembro é-lhe diagnosticada uma grave doença degenerativa na medula, que o obrigou a internamento e de que faleceu em 2004. Surgiria ainda o CD “Na Corrente” (1996), com gravações inéditas de 1971 a 1973.

Na sua visão marxista do Mundo, o amor profundo pela sua guitarra incluía a contradição dialética entre o criador vulcânico e os limites opressores do cordofone, relação recomeçada a cada concerto, repartindo do novo limite conquistado no anterior, para o alargar um pouco mais longe ainda. Na boa tradição clássica não se distinguia em Paredes o compositor do intérprete, nem se vislumbravam os limites de cada um dos titânicos personagens que habitavam aquele homem bom, modesto e cumpridor das suas funções profissionais administrativas.  

Que se transfigurava em palco na volúpia do gesto, no sentir da dor dos gemidos ou da opulência sonora da guitarra. Mas que tinha pelo trabalho, fosse ele qual fosse, um respeito apenas ao alcance do pensamento marxista. E esta talvez seja a chave para percebermos o regresso feliz de Paredes, após o 25 de Abril, ao seu posto na Radiologia do hospital de S. José.

A sua serenidade de conversa e audácia visionária de palco acompanha-nos. O portuguesismo da sua guitarra, pelos seus dedos, atingiu a universalidade. Para nós, a sua guitarra chama-nos à terra “Em memória de uma camponesa assassinada” para construirmos o Universo de “movimento perpétuo”.  


Fausto Neves

Professor Mário Ruivo



Prof. Mário Ruivo



O Professor Mário João de Oliveira Ruivo, nascido em Campo Maior em 1927 e que deixou a nossa companhia em 25 de Janeiro em Lisboa, era conhecido internacionalmente como cientista e investigador no campo da Oceanografia Biológica e tendo-se formado em Biologia na Faculdade de Ciências de Lisboa em 1950, 

Segui-se a sua especialização na Sorbonne de Paris, em Oceanografia Biológica , desenvolvendo a partir dessa data activa investigação em vários Países, e frequentemente convidado a participar e dar o contributo do seu conhecimento em organizações internacionais.

Na Organização da FAO das Nações Unidas, foi Director de Divisão em Roma durante 5 anos após deixar o lugar de Ministro dos Negócios Estrangeiros no 5º Governo Provisório em 1975, tendo ainda desempenhado o lugar de Secretário de Estado das Pescas, nos 3 Governos Provisórios anteriores, sempre convidado pelo General Vasco Gonçalves que reconhecia no Prof. Mário Ruivo uma pessoa de elevada cultura e de espirito aberto e profundamente anti-fascista.

Sendo um Homem de ciência não deixou contudo de desde jovem manifestar e assumir sempre posições firmes contra a ditadura, tendo sido dirigente da Direcção Universitária de Lisboa, do MUD Juvenil, e por esse motivo perseguido e preso pela ditadura em 1947, quando ainda estudante. 

A sua obra e estudos apresentados e reconhecidos internacionalmente tornaram o Professor Mário Ruivo em figura de elevado prestigio para Portugal, tendo sido condecorado e homenageado por vários países, como Brasil, Espanha, França, etc. tendo ainda em 2015 sido distinguido pela União Europeia com o Prémio Cidadão Europeu.


Á sua familia  a "Associação Conquistas da Revolução" - onde deixou admiradores e amigos -  expressa por esta via os seus pêsames.

I Encontro Nacional de Solidariedade com CUBA


Carta que dirigimos à Associação de Amizade Portugal Cuba por ocasião do 
"I Encontro Nacional de Solidariedade com CUBA"

   

Exma Direcção da Associação de Amizade Portugal-Cuba

   Caros Amigos e Companheiros

   Com grande satisfação tomamos conhecimento do I Encontro Nacional de Solidariedade com Cuba a realizar em Almada no próximo sábado, e muito nos honra o vosso desejo de nele estarmos presentes e participarmos.
   Não têm sido poucas as ocasiões em que juntos manifestamos a nossa solidariedade internacionalista com Cuba e com os povos da América Latina, na luta por um Mundo desenvolvido de Países Soberanos, pela Paz e derrota das ingerências externas e do imperialismo.
   E também não há muito tempo manifestámos o pesar pelo falecimento do Comandante Fidel Castro.
   Porém, um conjunto de circunstâncias, em particular iniciativas diversas que comprometem membros da Direcção da ACR, nos impede de corresponder ao vosso convite.
   Mas estamos certos que os vossos trabalhos correrão da melhor maneira e que deles não deixaremos de vir a obter os benefícios do êxito que ireis conseguir. 

   As nossas saudações a todos!


Lisboa, 20 de Janeiro de 2017

A Direcção da Associação Conquistas da Revolução

   

CARLOS PAREDES, Evocação e festa de amizade - 19 de Fevereiro - 15h00 - Salão d´A Voz do Operário

                                                               Fotografia de Eduardo Gageiro 

CARLOS PAREDES, Evocação e festa de amizade
19 de Fevereiro - 15h00 -  Salão d´A Voz do Operário

Com a participação de:

Alexandre Branco
Coro Lopes Graça
Duo Cordis
Fausto Neves
Fernando Tavares Marques
Gonçalo Lopes
Luísa Amaro
Luísa Basto
Manuel Pires da Rocha
Mariana Abrunheiro
Samuel

Entre outros


Vamos encher o Salão d´A Voz do Operário com a música, a criatividade e o exemplo notável e ético que nos deu e deixou Carlos Paredes. Vamos todos evocá-lo e homenagem-lo com a grande generosidade e artistas, de grupos, de homens e mulheres da música e da vida democrática e activa que queremos defender e impulsionar.
Carlos Paredes estará lá connosco na luminosidade da básica, no canto que nos fará erguer ainda mais a vontade de lutar por um país justo e democrático, em desenvolvimento e libertador.


COMPARECE!

Assembleia Geral de 20161207


Plano de Actividades para 2017
(Aprovado na Assembleia Geral realizada em 7 de Dezembro) 



No prosseguimento das iniciativas levadas a cabo nos anos anteriores, no sentido de cumprir os objectivos estatutários e o respectivo programa eleitoral “Pela defesa das Conquistas da Revolução”, a direcção da ACR submete à aprovação da correspondente Assembleia Geral o “Plano de Actividades e Orçamento para 2017”.


1. INICIATIVAS
a) Promover iniciativas, sobre o poder local democrático e regionalização.
b) Realizar em Fevereiro uma evocação/homenagem a Carlos Paredes.
c) Lançamento do livro sobre a “Contra-Revolução”.
d) Promover uma iniciativa conjunta sobre as figuras, pensamento e obra do Gen. Vasco Gonçalves e Alm. Rosa Coutinho.
e) Promover e participar em sessões de esclarecimento nas Escolas e Universidades, e ainda junto ao movi-mento associativo popular e outras iniciativas no âmbito da defesa das Conquistas da Revolução para as quais a ACR seja convidada ou que possa sugerir em ocasiões adequadas, com especial incidência nas actividades relacionadas com as comemorações do 25 de Abril.
f) Prosseguir os contactos com a Câmara Municipal de Lisboa, para a concretização de um espaço para a sede da ACR.
g) Prosseguir os contactos com a Câmara Municipal de Almada, para a obtenção de um local para a constituição do “Centro de Documentação Vasco Gonçalves”.
h) Reactivar a acção dos Núcleos Distritais da ACR.
i) Prosseguir o trabalho de recolha de textos e outros materiais inéditos do Gen. Vasco Gonçalves para edição de um livro.
j) Continuar a publicação trimestral da Folha Informativa.
k) Realizar com os associados, familiares e amigos o jantar comemorativo dos 43 anos do 25 de Abril.
l) Prosseguir a campanha de angariação de novos associados.
m) Prosseguir com as acções conducentes para o pagamento regular das quotas, assim como a recolha de quotização em atraso.


2. OBRIGAÇÕES ESTATUTÁRIAS
a) Realizar a Assembleia Geral Ordinária, para apresentação, discussão e aprovação do Relatório e Contas do exercício do ano de dois mil e dezasseis.
b) Realizar a Assembleia Geral Ordinária, para apresentação, discussão e aprovação do Plano de Actividades e Orçamento para dois mil e dezoito.



ORÇAMENTO PARA 2017
(Aprovado na Assembleia Geral realizada em 7 de Dezembro) 



1. RECEITAS
a) Quotas dos associados ……………………5.500,00 Euros
b) Donativos ……………………………………3.000,00 Euros

                                                                               8.500,00 Euros




2. DESPESAS
a) Iniciativas ……………………….…..………3.300,00 Euros
b) Folha Informativa ……………………..…….1.200,00 Euros
c) Comunicação com os Associados …………....1.500,00 Euros
d) Despesas Gerais ……………………………1.500,00Euros
e) Outras Despesas ……………………………1.000,00 Euros



                                                                               8.500,00 Euros

Faleceu Fidel Castro



Foi com profunda consternação que recebemos a noticia da morte de Fidel Castro.
Já enviamos à sra. Embaixadora de Cuba o nosso sentido pesar pela morte do Homem que desde muito jovem foi o dirigente máximo da luta do Povo Cubano contra a ditadura de Fulgêncio Baptista, pela libertação do seu país do jugo do imperialismo.
Fidel Castro consagrou toda a sua vida aos ideais da liberdade, da paz e do socialismo.
A ACR solidária com a dor do Povo Cubano saberá honrar a sua memória.

Intervenção de Avelãs Nunes na CONFERÊNCIA INTERNACIONAL NO 50.o ANIVERSÁRIO DA APROVAÇÃO PELA ONU DOS PACTOS INTERNACIONAIS DE DIREITOS HUMANOS (PACTO INTERNACIONAL DE DIREITOS CIVIS E POLÍTICOS E PACTO INTERNACIONAL DE DIREITOS ECONÓMICOS, SOCIAIS E CULTURAIS)



Intervenção do Presidente da Assembleia Geral da ACR, Avelãs Nunes, no encerramento

clicar no link

Maria Eugénia Varela Gomes


 Maria Eugénia Varela Gomes, faleceu no dia 21 de Novembro

A nossa sentida homenagem transcrita pelo punho do membro da direcção Modesto Navarro

"Hoje havia gente amiga na Basílica da Estrela. Não vi estrelas da moda nem ministros e presidentes. Vi gente que sempre amou aquela Mulher que lutou ao lado do marido e dos filhos contra a violência da ditadura, contra as prisões e os crimes. Maria Eugenia Varela Gomes. Conheci-a em 1971, na Cooperativa Pragma. João Varela Gomes estava lá e lutávamos contra o decreto 520/71, de Marcelo Caetano e Goncalves Rapazote, que levaria ao encerramento de cooperativas culturais que pra...ticavam crimes de venda de livros e discos, que realizavam sessões sobre questões de interesse para os associados.
Como isso vai longe e como Maria Eugenia esteve sempre no nosso coração e continuará a estar. Nós éramos mais novos e aprendíamos duramente o caminho da vida que era necessário mudar.
Até sempre, Maria Eugenia. Ficamos contigo, João, herói de Beja e da revolução que ajudaste a erguer e que nunca traíste."   
Modesto Navarro

Apresentação do livro - 40º Aniversário da Constituição, A Conquista dos Direitos Democráticos


 Intervenção de Jorge Sarabando, coordenador do núcleo do Porto da ACR, na apresentação do livro
 - 40º Aniversário da Constituição, A Conquista dos Direitos Democráticos-,
edição da ACR

Lisboa,17 de Novembro 2016
Área de anex


No ano em que celebramos os 40 anos de vida da Constituição da República, justo é lembrar a gesta revolucionária que a tornou possível. Assim poderemos compreender melhor o seu significado, porque não se limita, como as Constituições de outros Países, a enunciar princípios gerais e a regular o funcionamento do poder político. Vai muito mais longe, quando determina como “tarefas fundamentais do Estado”, além de garantir as liberdades e defender a democracia política e participativa, “promover…a efectivação dos direitos económicos, sociais, culturais e ambientais”, “ mediante a transformação… das estruturas”. Assim estabelece o artigo 9º e, por isso, uma das quatro Partes da Constituição é dedicada à Organização económica, e um dos Títulos é sobre os direitos e deveres económicos, sociais e culturais, e outro, inteiramente dedicado aos direitos, liberdades e garantias, distingue os pessoais, os de participação política e os dos trabalhadores.
Como se assinala no texto introdutório do livro hoje apresentado, a Constituição não foi elaborada, como outras, por um grupo de peritos em círculo fechado, antes acolheu as grandes conquistas de Abril, que foram legisladas e em parte ainda permanecem, nascidas da luta popular e das necessidades objectivas do desenvolvimento.
Por isso a direita, como expressão política e doutrinária do grande capital financeiro, tudo fez, primeiro, para evitar que fosse gerada no decurso do processo revolucionário, e depois para que fosse concluída e entrasse em vigor. Nunca se conformou com a Constituição aprovada, que depreciativamente classificava de “programática”, e por isso procurou atingir os seus desígnios através de sucessivas revisões que a amputassem de determinantes essenciais.
Vejamos alguns passos, que identificam um dos fios condutores da acção da direita durante o processo revolucionário.
Logo em Julho de 74, o então Primeiro-ministro Adelino Palma Carlos, com o respaldo de Spínola e Sá Carneiro, propôs um referendo a normas constitucionais provisórias e o adiamento das eleições para Novembro de 76. A proposta não passou nem no próprio Governo nem no Conselho de Estado e foi rejeitada pelo MFA.
Na Proclamação ao País que o General Spínola não chegou a ler na sequência do falhado golpe de 11 de Março, as eleições constituintes eram anuladas e o que se realizaria, em Novembro, seria um referendo sobre projectos constitucionais elaborados pelos “Partidos autorizados”.
Um dos planos de contingência concebidos pela direita no 25 de Novembro previa a transferência para o Porto do Governo e da Assembleia Constituinte. Com essa finalidade foram enviadas para esta cidade as barras de ouro do Banco de Portugal, operação ilegal por raros autores referida mas confirmada agora pelo então Vice-governador , Emílio Rui Vilar, em entrevista ao Jornal de Notícias em 25 de Novembro último. Note-se: na ausência do Governador Silva Lopes, que estava na Alemanha. Com a mesma finalidade, foi redigido um Projecto de lei pelo então deputado Jorge Miranda, por alegada incumbência de dirigentes do PS e do PPD, em que se atribuía a plenitude dos poderes legislativos e de fiscalização, bem como de eleger o Primeiro-ministro, à Assembleia Constituinte, e eram dissolvidos o Conselho da Revolução e a Assembleia do MFA. Encontra-se reproduzido no seu livro “Da revolução à Constituição”.
O período seguinte, menos conhecido e um dos menos estudados, foi marcado pelas tentativas de demissão do Presidente da República, alvo duma infame campanha, e de impor um referendo sobre a Constituição. Foram os perigos que se iam acumulando que levaram o General Costa Gomes a decidir promulgá-la, em 2 de Abril de 76, no momento seguinte à sua aprovação pela Assembleia.
Por esta época a rede terrorista intensificava as suas acções criminosas, e é elucidativo que um  dos seus próceres assumidos, o comandante Alpoim Calvão, mais tarde distinguido e agraciado pelo poder político emergente, para explicar o incremento dos atentados bombistas, tenha declarado que no 25 de Novembro tinha havido “uma clarificação militar mas não política”.
O processo conhecido por “recuperação capitalista” iniciou-se a partir de Julho de 1976, com a posse do I Governo Constitucional, mas não simultaneamente em todas as esferas da sua actividade. Foram sendo gradualmente afastados responsáveis mais vinculados às conquistas revolucionárias e substituídos por outros mais afeiçoados aos novos rumos. Assim aconteceu, por exemplo, no Ministério da Agricultura onde o seu titular, engº Lopes Cardoso, que vinha já do VI Governo Provisório, foi substituído, em 5 de Novembro de 76, por António Barreto, com quem se inicia a ofensiva contra a Reforma Agrária.
Não deixa de ter interesse anotar que, 10 dias depois do seu afastamento, a residência deste dirigente do PS viria a ser atingida por um atentado bombista.
A Constituição veio a ser submetida a 7 revisões, para as quais são necessários, como sabemos, 2/3 dos deputados eleitos, o que implica um entendimento entre os dois Partidos tradicionalmente mais votados.
Algumas destas Revisões foram particularmente gravosas e atingiram a sua matriz identitária.
A de 1989, na decorrência da adesão à Comunidade mais tarde designada por União Europeia, eliminou o princípio da irreversibilidade das nacionalizações, abriu caminho à reprivatização das empresas públicas e ao seu domínio pelo capital estrangeiro, acabou com a referência à Reforma Agrária e à socialização dos meios de produção, acabou com o princípio da gratuitidade do Serviço Nacional de Saúde, que passou a ser definido como “tendencial”.
A de 92, com o objectivo de permitir a ratificação do Tratado da União Europeia sem referendo, retirou o exclusivo da emissão de moeda ao Banco de Portugal.
A de 2004, abdicou do primado da Constituição portuguesa sobre o direito comunitário.
No seu texto, sempre claro e pedagógico, o Juiz Conselheiro Guilherme da Fonseca enumera diferentes normas que foram sendo eliminadas, como a do Serviço Militar Obrigatório, ou a que estabelecia “ a descriminação positiva a favor dos filhos de trabalhadores no acesso ao ensino superior”, que constava do art.76º.
E sublinha, com clarividência, que o exercício dos direitos subjectivos públicos, gerais e universais, de que todos os cidadãos são titulares, em condições de igualdade, e revestem natureza vinculativa, este exercício “encontra-se muitas vezes mais vigiado e condicionado, indo até quase à sua eliminação, na prática”.
Tem, por isso, muito interesse na abordagem que faz sobre o acesso de todos ao direito e aos tribunais, que não pode ser denegado por insuficiência económica, como garante o art. 20º, uma das conquistas democráticas, a definição de oito pilares essenciais de um modelo de justiça.
A direita não se conforma com a Constituição que temos, apesar de todas as alterações que sofreu. Queixa-se muito da “rigidez laboral” como factor desfavorável ao investimento e, em selectos auditórios, vai reclamando nova revisão, designadamente a alteração do art.53º, que proíbe os despedimentos sem justa causa. Esperemos que o quadro político existente desde há um ano tenha estancado o longo processo que conduziu à perda de direitos, a limitações das funções sociais do Estado e a cedências de soberania. 
No que respeita a outra conquista democrática, o direito que a Constituição consagra de os cidadãos informarem, se informarem e serem informados, o texto do jornalista Alfredo Maia historia, de forma exaustiva, todos os passos dados para assegurar, no campo legislativo, a liberdade de expressão e de imprensa.
A censura não teve de ser formalmente extinta, porque a liberdade de informar foi conquistada pelos jornalistas no próprio dia 25 de Abril. A Lei de Imprensa, que estabelece como direito fundamental uma informação livre e pluralista e os direitos e garantias dos próprios jornalistas, foi aprovada em pleno processo revolucionário, em Fevereiro de 1975. Representa um dos seus frutos mais perenes e primordiais e, na sua essência, foi incorporada na Constituição da República
No estudo de Alfredo Maia se descreve o debate e os projectos apresentados pelos vários Partidos, e depois as sucessivas revisões da lei constitucional que, para além de alguns pontos compreensíveis, significaram verdadeiras regressões no que respeita ao pluralismo informativo e ao escrutínio público, não acautelaram eficazmente a concentração empresarial, uma das origens da informação monolítica e manipuladora hoje dominante nos meios de Comunicação social. O texto de Alfredo Maia vai mais longe no exercício de distinguir a letra da lei e a realidade existente, e apresenta sugestões para os cidadãos dinamizarem a acção crítica. Termina com um grito de alerta, também partilhado por outro autor, o jornalista Pedro Tadeu, sobre as restrições que se pretende impôr à cobertura das campanhas eleitorais.
No texto que intitulou “10 perigos para a liberdade de informar e ser informado”, Pedro Tadeu enumera-os e fundamenta a sua análise com exemplos concretos e grande clareza. Lá figuram o medo, a mentira, o carreirismo, a falsa deontologia, as limitações abusivas, o afastamento dos cidadãos, o fim da vida privada, o segredo de justiça, a desvalorização do debate político justo, terminando com um apelo que, como caminho alternativo, responsabiliza os jornais e os jornalistas: “reforçar o seu compromisso com a verdade, ou, aliás, das várias verdades que uma mesma realidade comporta”.
Outra reflexão, também brilhantemente exposta, foi escrita pelo docente e investigador Rui Pereira.
Nela se procede a uma sistematização das directrizes do Estado Novo para os serviços da Censura, e os interditos que condicionam a informação hoje. Ontem se proibia tudo o que pudesse comprometer a “unidade moral e espiritual da Nação”. Hoje os interditos permanecem, num outro tempo e de um outro modo. Num quadro em que a parte do trabalho no rendimento nacional era, em 1975, de 59%, e em 1985 já tinha descido para cerca de 36%, mais fácil é compreender que” os interditos permanecem, cuidadosamente evitados por aqueles que estariam habilitados a testemunhá-los e com igual prudência ignorados, de facto ou voluntariamente, por aqueles que precisariam de conhecê-los”.
Esta reflexão de Rui Pereira talvez nos possa conduzir a um outro ponto: o Regime pode ser menos ou mais democrático, mas o sistema é o capitalista, que acolhe e protege os interesses das classes dominantes, por norma egoístas, predadores e tendencialmente hegemónicos. Uma contradição que pode ser esbatida ou atenuada mas que é insanável.
Não foi por espírito de época ou qualquer pressão sectorial, que a Constituição estabelece, no art.65º, que “todos têm direito, para si e sua família, a uma habitação de dimensão adequada, em condições de higiene e conforto e que preserve a intimidade pessoal e a privacidade familiar”.
A falta de habitação decente e a carência deste bem social básico irromperam pelas ruas libertas pela Revolução de Abril. Quem assistiu à imensa manifestação de 17 de Maio de 75, promovida pelas comissões de moradores, que inundou a Avenida dos Aliados e ruas adjacentes, no Porto, não esquece. “Casas, sim/barracas não”, “Casas sim, fascismo nunca mais”, era um clamor de revolta e indignação que se erguia da multidão, de famílias inteiras, vindas lá das periferias operárias, a pé ou em camionetas de caixa aberta, ou do imo da cidade, de casas húmidas e escuras, onde crescia o bolor e o desespero. Em alguns locais a situação era insuportável.
No seu texto, o arquitecto professor António Madureira, que participou no Comissariado para a Renovação Urbana da Área Ribeira-Barredo (CRUARB), criado pelo II Governo Provisório, depois de descrever o processo histórico de densificação demográfica ali ocorrido, refere que chegou a registar-se mais de duas mil pessoas por hectare, quando se considera como norma urbanística máxima e já perigosa, trezentos habitantes por hectare. Metade das casas só tinha uma cama, onde dormia toda a família. Os sub-alugas eram prática corrente e até uma célebre Rosa Padeira alugava degraus de escada. Apesar de todos os boicotes, e sempre em diálogo com as Comissões de Moradores, o Comissariado procedeu a diversas construções, em curtíssimo tempo, e segundo directrizes que, por exemplo, recomendavam evitar demolições. A ideia que pontificava não era desalojar pessoas para as substituir por outras com mais posses, como acontece hoje com frequência na reabilitação dos Centros Históricos.
Outro autor, o coronel engenheiro, e autarca durante muitos anos, Baptista Alves, foi Director nacional do Serviço Ambulatório de Apoio Local ( SAAL) a partir de Julho de 75. No seu texto, Baptista Alves descreve a situação herdada do fascismo: havia um défice de 600 mil alojamentos, mais de metade das habitações não possuía energia eléctrica e abastecimento de água, 60% não era servidas pela rede de saneamento.
Foram tomadas medidas de emergência pelos Governos Provisórios, sobretudo pelos presididos por Vasco Gonçalves, através da promoção directa, de Contratos de Desenvolvimento, do apoio às Cooperativas e do SAAL.
Várias urbanizações foram construídas pelo SAAL, só no Porto foram 4. Representaram um importante exercício de participação democrática das populações organizadas em comissões e associações de moradores.
O balanço efectuado em final de 76 é concludente: famílias envolvidas – 41665; fogos iniciados até 31/10/76 – 2259, a iniciar até 31/12/76 – 3125; total em projecto – 19359.
Não pode deixar de se referir que as instalações no Porto, na rua Gonçalo Cristóvão, do CRUARB e do SAAL, foram destruídas por um atentado bombista, em 14 de Janeiro de 1976.
É o momento de dizer que apesar de todas as convulsões, da violência da rede terrorista, da cruzada contra-revolucionária, do acumular de tensões, das chantagens e ameaças vindas do exterior, a Revolução seguiu o seu curso: importantes conquistas laborais foram alcançadas, a economia continuou a funcionar apesar de todos os boicotes e da fuga de capitais, os trabalhadores e o Estado asseguraram a sobrevivência das empresas sabotadas, a Banca e os sectores estratégicos foram nacionalizados com um amplo consenso, criaram-se as condições de acesso generalizado à Saúde, à Educação, à Justiça, à Segurança Social, à Cultura, a uma habitação digna, instituiu-se o salário mínimo, realizou-se a Reforma Agrária, criaram-se melhores condições para a exploração agrícola, instituiu-se o Controlo Operário, expandiu-se o movimento associativo e sindical, lançaram-se os alicerces do Poder Local Democrático, as condições de vida melhoraram, diminuíram as desigualdades, criou-se mais emprego e emprego com direitos.
Apesar de todas as convulsões, dos atentados bombistas, das agressões, dos assaltos contra sedes dos Partidos de esquerda e dos Sindicatos, de todas as divisões no corpo social e na estrutura militar, a Constituição foi sendo escrita, e os seus artigos aprovados por largas maiorias.
As lutas desenvolvidas pelas classes trabalhadoras tiveram um papel determinante.
O texto do dirigente sindical Manuel Freitas constitui um valioso testemunho.
Através da sua experiência vivida, descreve as condições de trabalho numa grande empresa fabril do norte antes do 25 de Abril, os horários longos de 48 horas, os salários reduzidos e discriminatórios, sobretudo para as mulheres e os jovens, a teia repressiva, a bufaria ao serviço da PIDE e do patronato, o severo regime disciplinar, a inexistência de 13º mês, do subsídio de desemprego e de acesso à Segurança Social.
O autor evoca a perseguição aos que tentavam pôr o sindicato ao serviço dos trabalhadores, as manobras do patronato e do governo e as lutas desenvolvidas. Já depois do 25 de Abril conta-nos como foi a greve rotativa de 11 dias, com ocupação da sede patronal, e que terminou numa grande vitória, com a satisfação das principais reivindicações, o que teve uma grande repercussão no movimento operário. Conta-nos como foram os ataques ao movimento sindical e as provocações dos grupos pseudo-revolucionários.
Deixo para o fim uma referência ao texto do Coronel Castro Carneiro, que foi um dos capitães do MFA no Porto. É um texto luminoso, escrito com rigor e serenidade, por quem viveu intensamente, com espírito de missão, firmeza e coragem, acontecimentos decisivos para a libertação do nosso País.
Nele se descrevem as acções militares do 25 de Abril no norte, as surpresas, as incertezas e as hesitações dalguns, o modo eficaz como enfrentaram as dificuldades e as superaram, e esse momento único, histórico, de encontro dos militares com o povo do Porto, que tinha sofrido nesse mesmo dia, uma inusitada carga policial na avenida dos Aliados. A imensa alegria feita de confiança e fraternidade num inesquecível fim de tarde, e que se repetiria dias depois no primeiro 1º de Maio em liberdade.
Um texto em que se refere a luta dos militares contra as redes terroristas do ELP e congéneres, e a torpe conspiração que levou ao afastamento do brigadeiro Corvacho do Comando da Região Militar Norte.
As últimas linhas ressumam um certo desencanto, bem compreensível.
Mas lembremos: quando terminou o período revolucionário, há 40 anos, tínhamos uma das Constituições mais avançadas, justas e progressistas de todo o mundo; tínhamos uma economia a funcionar e uma taxa de desemprego de 4%; foram acolhidos e integrados mais de meio milhão de portugueses vindos das colónias africanas; muitos emigrantes regressaram e reconstituiram as suas vidas; o poder financeiro estava subordinado ao poder político; a paz, apesar dos seus elevados custos, tinha voltado; Portugal já não estava só mas orgulhosamente solidário com outros países e povos.
Sabemos o que aconteceu depois.

Uma síntese do processo revolucionário poderá ser esta: a Revolução portuguesa foi tão longe quanto possível na construção de uma democracia a caminho do socialismo, a contra-revolução foi tão longe quanto possível nos labirintos de Novembro e no tempo seguinte.