Congresso "Conquistas da Revolução" - Intervenção de Henrique Mendonça, Vice-Presidente da Assembleia Geral da ACR



A acção e o papel do Primeiro-Ministro Vasco Gonçalves à frente dos quatro governos provisórios


Vasco Gonçalves é designado primeiro ministro na sequência do que ficou conhecido pelo golpe Palma Carlos; tentativa palaciana de dissolução do MFA e concentração de todos os poderes no Presidente da República.

Toma posse em 18 de Julho de 1974.

E nunca mais nos largou, como disse Nuno Pinto Soares, capitão de Abril.
Este capitão de Abril afirmou ainda que Vasco Gonçalves incentivava os encontros de critica e autocrítica e nunca quis ser o senhor da revolução.

Foi Primeiro Ministro durante 14 meses.

Antes de iniciar a abordagem deste tema relembro que nas vésperas do 25ABR74 a economia portuguesa estava à beira do caos.
A guerra colonial durava há 13 anos.
Em todo o período em apreço  vivia-se uma grave crise do petróleo, e foi fortemente marcado pela chamada guerra fria.

Composição dos governos
Até ao IV governo provisório, Vasco Gonçalves procurou a representação e empenhamento das forças políticas mais representativas,  e a nível militar as tendências ideológicas mais relevantes.
Do II ao IV governo provisório, governos de coligação partidária, houve a preponderância, nas diversas pastas, de cidadãos essencialmente ligados ao Partido Socialista e de militares.
Com o avanço da revolução e o desenvolvimento da luta de classes a coligação das diversas forças políticas representadas no governo veio a revelar-se inviável.
O V Governo Provisório assume a missão de agir de forma unitária e não partidária.
Foi uma solução transitória destinada a pôr termo à crise política criada no País.

A composição dos seus governos não excedeu os 18 ministros.
II Governo Provisório
Na tomada de posse do II governo provisório, a 18 de Julho de 1974, Spínola destaca a reconhecida estatura moral e intelectual do Coronel Vasco Gonçalves e o facto de ser o cérebro da Comissão Coordenadora do Movimento das Forças Armadas e, como tal, o primeiro responsável pelo seu ideário, e preocupado com a explosão social que irrompeu no país apela à Maioria Silenciosa.
Vasco Gonçalves logo no inicio do seu discurso afirma a decisão inabalável de cumprir escrupulosamente o Programa das Forças Armadas e informa da firme decisão de impor uma séria moralização da vida nacional, como condição básica para a tomada de medidas que a situação económica e social do País exigia. Aborda também a questão colonial salientando a determinação de no mais curto espaço de tempo, ser obtido o cessar fogo e dar inicio ao processo de descolonização sem abertura às tentativas neocolonialistas.
O II governo provisório pautou-se por permanentes afrontamentos com Spínola que Vasco Gonçalves procurou gerir o melhor possível e que terminaram a 28 de Setembro, com o malogro da manifestação da dita Maioria Silenciosa.
Na formação deste governo Vasco Gonçalves procurou, juntamente com a Coordenadora, contornar as dificuldades que lhe iam sendo colocadas em relação aos nomes que propunha.
Spínola, encabeçando a força da reacção capitalista e pontualmente com o apoio do PPD/PSD exigiu que destacados antifascistas, como Mário Murteira, Avelino Gonçalves, Pereira de Moura e Herberto Goulart não figurassem no elenco governamental.
Durante este governo foram implementadas medidas previstas no Programa do Governo Provisório - DL 203/74 de 15 de Maio; das quais as mais importantes, se centraram nas áreas económicas e sociais e dos direitos dos trabalhadores.
Deram-se passos decisivos na habitação social, na alfabetização e na educação sanitária.

No domínio da descolonização, por proposta de Vasco Gonçalves, foi criada a Comissão Nacional de Descolonização.
Foi promulgada a Lei Constitucional 7/74 de 27 de Julho que reconheceu o direito dos povos à autodeterminação de acordo com a Carta das Nações Unidas, incluindo a aceitação da independência dos territórios ultramarinos.

A 10 de Setembro de 1974 a Guiné-Bissau é a primeira colónia portuguesa, no continente africano, a ter a independência reconhecida por Portugal.

Com o fim de assegurar de imediato, ao Estado, intervenção na política de crédito foram nacionalizados os bancos emissores.
Ainda no período deste governo provisório o Banco Mundial recusou a Portugal um empréstimo de 400 milhões de contos, cerca de 2 mil milhões de euros.



III Governo Provisório
Com a renúncia de Spínola e a designação, pela Junta de Salvação Nacional, do general Francisco da Costa Gomes para presidente da república perspectivaram-se novos avanços da revolução portuguesa.
Costa Gomes confirma, como primeiro ministro, Vasco Gonçalves.
A 30 de Setembro é dada posse ao III governo provisório.
Vasco Gonçalves, no seu discurso de tomada de posse, declara manter o mesmo programa e para que não haja dúvidas explicita que empenha a sua honra no cumprimento do Programa do Movimento das Forças Armadas, em toda a sua pureza, e em tudo que ele encerra de projecto de nova vida para a nossa Pátria.

Avança-se decisivamente com o reforço do MFA, até à sua institucionalização.
A agitação social acentua-se com os trabalhadores a responder às acções provocatórias dos empresários, empenhados em promover artificialmente conflitos e conseguir a desorganização da economia do nosso país.

Durante a sua vigência deram-se passos importantes na defesa dos interesses das classes trabalhadoras e o aumento progressivo da qualidade de vida de todos os portugueses.
Foram:
-   consagrados os direitos de associação e de actividade dos partidos políticos,
-   definidos os princípios orientadores do saneamento da função pública e reintegração de funcionários expulsos por motivos políticos,
-   aprovadas medidas de protecção aos rendeiros,
-   estabelecidos preços máximos de artigos de consumo corrente.
Ainda durante este governo foram aprovadas a Lei de Imprensa, a Lei Eleitoral e a Lei de Intervenção do Estado nas Empresas.
A 21 de Janeiro de 1975 é aprovado, na especialidade, com votos contrários do PS e do PPD, o diploma sobre associações sindicais (a chamada lei da unicidade sindical) e em Fevereiro de 1975 é aprovado o Programa de política económica e social, com a anuência do Conselho dos 20 e da Assembleia do MFA.
De acordo com o programa, o controlo do Estado, não abrangia as entidades bancárias e de seguros, nem os transportes ferroviário e rodoviário, nem a construção naval.
Vasco Gonçalves sempre considerou este programa conservador, mas no seu entender podia-se trabalhar e desenvolver as orientações progressistas que dele emanavam.
A título de curiosidade transcrevo parte do conceito de austeridade que está escrito no documento:
Austeridade significará, antes do mais, uma maior sobriedade em consumos de luxo ou supérfluos. As camadas da população mais atingidas por medidas que venham a impor uma muito maior rigidez no acesso aos bens não essenciais ou pouco importantes serão as que até ao presente gozavam de privilégios ou benefícios inacessíveis à maioria da população.

Este governo foi o que teve maior duração, cerca de 6 meses.
Viu a sua acção brutalmente interrompida, a 11 de Março, com a tentativa de golpe militar.
A mais forte investida das forças de direita contra a revolução.



IV Governo Provisório
Com a terceira tentativa falhada para o afastamento da ala mais progressista do MFA a ambiguidade desaparece ao nível do Poder.
Na própria noite de 11 de Março a assembleia revolucionária do MFA, composta por oficiais, sargentos e praças; institucionaliza o Movimento das Forças Armadas.
A 14 de Março é criado o Conselho da Revolução, substituindo-se à Junta de Salvação Nacional e ao Conselho de Estado que são extintos.
Os primeiros decretos saídos deste órgão foram a nacionalização da banca e dos seguros, afirmando-se, a consagração da opção pela via socialista.
Vasco Gonçalves, procede a ajustamentos a nível do governo, com o objectivo de lhe dar maior operacionalidade e de o pôr em condições de dinamizar a actividade económica.
O governo toma posse em 26 de Março de 1975.
Vasco Gonçalves, no discurso de tomada de posse procura explicar o que entende pela dinamização da actividade económica que afirma ser a consolidação da política antimonopolista do programa do MFA e a defesa das classes mais desfavorecidas e mais adiante acrescenta “é necessário pôr a funcionar uma nova economia que conduza a uma verdadeira democracia, política, económica e social.

Durante este governo são aprovados:
-   As Bases Gerais dos Programas de Medidas Económicas de Emergência
-   O Programa Nacional de Emprego
-   O Programa de Preços de Bens Alimentares Essenciais
-   O Programa de Controlo dos Sectores Básicos da Indústria
-   A Nacionalização dos principais bens de produção
-   Medidas de controlo ou de intervenção do estado noutros sectores.

O salário mínimo é aumentado e é fixado um tecto salarial à remuneração do trabalho, estendendo-o a todas as empresas (públicas e privadas) pondo-se fim ao leque salarial, de amplitude ilimitada, herdado do fascismo.

O Programa de Transportes e Comunicações comportou a nacionalização dos transportes rodoviários, marítimos e aéreos. Foi constituída a Rodoviária Nacional, agrupando numa gestão unificada as empresas rodoviárias nacionalizadas.

A Lei da Reforma Agrária e a Lei do Arrendamento Rural visaram assegurar o apoio aos pequenos e médios agricultores, alterar radicalmente a estrutura do latifúndio, procurando o aumento geral da produção agrícola, combatendo o desemprego na agricultura e melhorar o nível de vida nos campos.

É consagrada a unicidade sindical a independência e autonomia dos sindicatos e reconhecida a Intersindical Nacional. Foi promulgada a Lei sindical.
Com o apoio do governo aprofunda-se o controlo operário.
Na sua luta contra a sabotagem económica os trabalhadores recuperam empresas abandonadas pelo patronato.

O Serviço Cívico Estudantil é regulamentado.



No âmbito da Educação:
-   São elaborados novos programas para o ensino primário, as escolas do magistério primário são remodeladas;
-   O Ensino Secundário é unificado
-   São aprovadas as bases gerais do ensino superior e incrementam-se experiências pedagógicas visando a sua ligação ao trabalho produtivo.

No âmbito da política externa
Reconheceu-se a independência de Moçambique, de Cabo Verde e de São Tomé e Principe. Nas cerimónias solenes dos actos da independência, o nosso País fez-se representar pelo Primeiro Ministro.

Cabe aqui focar o 1º Pacto de Acção Política, conhecido pelo Pacto MFA/Partidos.
Este documento, começou a ser negociado com os partidos ainda antes do 11 de Março. Visou o reconhecimento de forma inequívoca do papel do MFA no processo político de instauração da democracia em Portugal e a assunção clara e frontal, aos olhos do nosso povo, da função político militar do MFA.
Na primeira quinzena de Abril de 1975 o MDP, o PCP, o PS, o PPD, o CDS e a FSP assinam este pacto.
Estes partidos, ao assinarem o documento, concordaram com o estabelecimento de uma plataforma política comum que possibilitava a continuação da revolução política, económica e social iniciada em 25 de Abril de 1974, dentro do pluralismo político e da via socializante que permitisse levar a cabo, em liberdade, mas sem lutas partidárias estéreis e desagregadoras, um projecto comum de reconstrução nacional.

O MFA e o governo cumpriram a sua palavra e em 25 de Abril de 1975 é realizado o primeiro acto eleitoral, em liberdade. Os resultados mostraram, sem sombra de dúvidas que os portugueses pretendiam a via para o socialismo.
O resultado destas eleições foi aproveitado pelo PS que, com a sua verborreia, pretendeu tirar partido da eleição que lhe foi favorável e alterar os trabalhos da Assembleia Constituinte procurando dar-lhe o sentido legislativo.

A atitude do PS ajudou a que as forças reaccionárias e as esquerdistas iniciassem um grave confronto do qual o mais relevante foi o infeliz caso República. A sua agudização, com apoios nacionais e internacionais, acabou por provocar a saída, em Julho, de alguns ministros, provocando a queda do governo.
O Conselho da Revolução encarrega Vasco Gonçalves de formar novo governo.
V Governo Provisório
E na primeira quinzena de Agosto o V Governo Provisório toma posse.
O sistema de coligação partidária, conforme disse no início, revelou-se inviável
Mercê da oposição da parte mais conservadora do MFA e dos partidos políticos do centro e da direita, este governo durou apenas um mês.
Contribuíram para a sua queda:
-   os ataques concertados da reação externa tendentes e isolar e a desmoralizar o País;
-   as dificuldades enormes da descolonização em Angola;
-     os reflexos sobre a frágil economia portuguesa da crise económica geral do capitalismo;
-     os desequilíbrio e instabilidade provenientes do necessário desmantelamento das estruturas monopolistas e fascistas.
O governo, mesmo nas condições difíceis em que trabalhou, continuou as nacionalizações, decidiu pela intervenção em várias grandes empresas e aprovou legislação de grande alcance; tal como:
-   o controlo operário;
-   o salário máximo nacional,
-   a lei dos baldios,
-   a extinção do arrendamento por prazo longo ou perpétuo de terras públicas a particulares,
-   A concessão às autarquias locais de um crédito superior a um milhão de contos, cerca de 5 milhões de euros e a comparticipação do Estado em 95% do custo das obras de equipamento social.
Para finalizar
Não quero finalizar sem referir mais uns pontos de caracter geral
Do ponto de vista económico na Análise e Projecção das Condições Macro Económicas em Portugal, relatório de uma missão patrocinada pela OCDE que se deslocou a Portugal de 15 a 20 de Dezembro de 1975 é dito que a economia portuguesa está surpreendentemente saudável.
O parecer deste relatório foi confirmado por outra missão do MIT que se deslocou a Portugal nos primeiro meses de 1976.

Estes dois documentos mostram como eram falsas e tendenciosas as considerações sobre o estado da economia mencionadas no Documento dos Nove

  Os governos de Vasco Gonçalves não afundaram a economia portuguesa. A nacionalização da banca e dos seguros evitou que tal tivesse acontecido.
  As reservas de ouro do Banco de Portugal ficaram intactas.
  As reservas de ouro foram delapidadas, pela primeira vez,  com o primeiro governo constitucional, do Partido Socialista, em cerca de 100 toneladas.

Vasco Gonçalves, na formação dos seus governos, procurou conciliar as forças políticas e adaptou-os às condições existentes, defendendo os direitos e os ensejos mais profundos do nosso povo e o programa do MFA.

As conquistas revolucionárias alcançadas ao longo dos governos presididos por Vasco Gonçalves foram produto da luta heróica do nosso povo e dos democratas, que muitas vezes estava à frente dos governos.

Pela sua forma de agir Vasco Gonçalves era tido pelo companheiro Vasco, foi o único primeiro ministro a quem as massas populares chamaram de camarada.

 Henrique Mendonça, Vice-Presidente da Assembleia Geral da ACR

Congresso "Conquistas da Revolução" - Intervenção de Vítor Lambert, membro da direcção da ACR

A ALIANÇA POVO-MFA, FORÇA MOTRIZ DO PROCESSO REVOLUCIONÁRIO

Exmªs Senhoras e Senhores convidados.
Camaradas.

Mal as tropas do Movimento dos Capitães, entraram em Lisboa,  e ainda sem a confirmação da queda do regime fascista de Marcelo Caetano, já o Povo empurrava a ditadura para o fim do império, mórbido e decadente. Assim se conseguiu o derrube do governo fascista, colonialista ao fim longos e penosos 48 anos.

Espontaneamente, fartos de opressão e noites de terror, ao passar a palavra de que estava no ar um golpe de estado  nascia a primeira desobediência civil a fim de dar apoio ao Movimento dos Capitães, contrariando assim os apelos lançados pela rádio e pela a televisão, para que a população se mantivesse serena em casa.

É assim que nesse mesmo dia, se desencadeou um vigoroso movimento popular e nacional. O impulso dos trabalhadores e das massas populares obriga a um empenhamento politico e social mais alargado e profundo do que o inicialmente previsto pelos Capitães, fazendo que a relação de forças dentro do Movimento desse força aos militares mais identificados com os interesses populares e aspirações na transformação revolucionária ao golpe militar. Fruto da guerra colonial uma grande parte de oficiais dos quadros permanentes, vai ganhando consciencialização política e que o regime colonialista arrastava Portugal para a grave situação em que se encontrava.      

É assim que impulsionados pelo Povo os militares avançam para o cerco da sede da PIDE/DGS e para a libertação de todos os presos políticos. Inicialmente as forças mais conservadoras do movimento dos Capitães não previa o fim da Pide/DGS e da Legião, mas sim uma remodelação, para que disfarçadamente tudo continuasse na mesma.
A imprevisibilidade destas acções levou a que desde o início do derrube do regime totalitário fosse construído um verdadeiro pacto entre o Povo e o Movimento das Forças Armadas.

Ao fim de 5 meses, em 28 de Setembro de 1974, ficou mais reforçada a aliança POVO-MFA, pois é de novo o Povo que sai à rua, em defesa da jovem democracia erguendo trincheiras e com o apoio dos militares impediu que as forças reaccionárias, manobradas por Spínola, PDC e outras forças golpistas, que preparavam a manifestação da “maioria silenciosa”, avançasse impedindo assim a tentativa de golpe de estado que visava o regresso das forças retrógradas visando a reposição da ditadura.

Pelo meio muitas outras acções foram conseguidas conjuntamente reforçando assim uma verdadeira unidade entre o POVO e os militares progressistas que visava a construção de uma sociedade onde a injustiça não tivesse lugar, e a igualdade existisse sem ser decretada, onde os homens fossem HOMENS.

Em 11 de Março de 1975, mais uma vez o apoio do Povo aos  militares revolucionários do RAL 1, quando atacados cobardemente pelas tropas para-quedistas a mando de Spínola e seus lacaios reaccionários, foi determinante. Não que o Povo tivesse armamento belicista, mas sim porque  a sua  arma era a  força da razão.

Após esta vitória sobre mais uma golpada spinolista, a Revolução avança e surge a transição pacífica, democrática e pluralista para a democracia e o socialismo. Estes avanços vão surgindo na prática, nas condições políticas, sociais, económicas e culturais do nosso País, fortemente determinadas pela Aliança Povo-MFA, e em outros factores externos.   

Quando em Julho de 1975 a  Assembleia do MFA institucionaliza como estrutura orgânica, da Aliança POVO-MFA, três linhas fundamentais; o MFA, a Popular e a Governamental, está a criar condições para o avanço do poder popular. Para tal era prioritário que o aparelho de Estado deveria ser saneado e progressivamente substituido, descentralizando os seus poderes (administrativo e financeiro) permitindo a iniciativa local sob o controlo, fiscalização e progressiva tomada do poder pelos organismos populares. Por questões diversas infelizmente não se concretizou esta linha orientadora da Revolução.

Foi assim que graças a estas atitudes tomadas pelo Povo e pelos militares progressistas que muito se avançou de modo a que as conquistas revolucionárias fossem uma realidade.

Foi o conjugar de duas vontades entre Povo e o MFA que deram mais força aos governos provisórios chefiados por Vasco Gonçalves – o único primeiro ministro que realmente se identificou com as classes mais desfavorecidas, os trabalhadores e operários, os intelectuais, os camponeses e a juventude interessada na transformação da sociedade. 

Entre 11 de Março de 1975 e o fim do V Governo Provisório – chefiado por Vasco Gonçalves o POVO vive o período mais criativo da Revolução e se alcançou mais conquistas da revolução. Instaurou-se um regime de amplas liberdades, de direitos políticos, culturais, sindicais, laborais e cívicos. Nacionalizou-se a banca, as companhias de seguros, os sectores básicos de produção, as empresas de transporte principais, avançou-se para a Reforma Agrária eliminando o latifúndio no Alentejo e no Ribatejo, criando-se cooperativas de produção dirigidas por trabalhadores agrícolas, avançou-se para a lei do arrendamento rural e devolveu-se ao Povo os terrenos baldios. Aprovou-se o Serviço Nacional de Saúde, desenvolveu-se a prática desportiva para todos e a cultura, houve transformações progressistas no ensino e aumentou extraordinariamente a frequência escolar. Melhorou e dignificou substancialmente as condições de vida dos trabalhadores. E assim na Constituição da República aprovada em 2 de Abri de 1976, todas estas conquistas estão consagradas.

A partir daqui  com o agravamento da luta de classes, com as divisões no seio dos Partidos e no próprio MFA sobretudo nos sectores de esquerda, com a mudança da correlação de forças políticas e sociais fez que não fossem consolidadas as Conquistas da Revolução.

Foi uma experiência única a vivência destes 19 meses num dos períodos mais ricos da história de Portugal, onde o Povo em estreita Aliança com o MFA se libertou dos seus opressores, opressores estes que nunca perderam a esperança de voltar a ser exploradores.

Muito mais se poderia acrescentar a este tema pois a Aliança POVO-MFA é tão rica, vasta e abrangente que se prolongaria até onde a nossa imaginação nos possa levar.

Permitam que se encerre com uma citação do General Vasco Gonçalves.

- “AS CONQUISTAS DE ABRIL SÃO O CAMINHO PARA O FUTURO DE PORTUGAL”. 

Vítor Lambert, membro da direcção da ACR

Lançamento dos livros "Conquistas da Revolução" e "Vasco, nome de Abril" Baixa da Banheira - 8 de Novembro





Um futuro para Portugal na acção e obra de
 Vasco Gonçalves evocados na Baixa da Banheira

   Uma iniciativa conjunta da Associação Conquistas da Revolução e da Câmara Municipal da Moita vai ter lugar no próximo sábado, 8 de Novembro, pelas 16h00, na Biblioteca Municipal da Baixa da Banheira (Fórum Cultural José Manuel Figueiredo). Com a intervenção de Baptista Alves, Militar de Abril, e Nuno Lopes, ambos da Direcção da ACR, serão apresentados em sessão pública os livros por esta editados, “Conquistas da Revolução” e “Vasco, nome de Abril”.

   A primeira destas obras explana o que foram as “Conquistas da Revolução de Abril através de elementos factuais inquestionáveis que são os Diplomas Oficiais” no período compreendido entre 17 de Junho de 1974 e 19 de Setembro de 1975, durante o qual o General Vasco Gonçalves presidiu aos II, III, IV e V Governos Provisórios. “Vasco, nome de Abril” reúne 76 testemunhos de quem o conheceu como “uma figura inspiradora, não devendo, contudo, ser apenas evocada a sua acção, mas também o impulso que nos abrirá o futuro. Tinha um futuro para Portugal e é justamente esse que pretendemos alcançar” (Prefácio de Manuel Begonha, Presidente da ACR).

Congresso "Conquistas da Revolução" - Intervenção de Nuno Lopes, membro da direcção da ACR


Painel 1

O regime fascista; 48 anos de exploração e repressão; 48 anos de resistência

A ditadura fascista oprimiu Portugal durante 48 anos. Teve como base a liquidação das liberdades mais elementares e a mais feroz repressão. O fascismo português é caracterizado como o governo terrorista dos monopólios, dos grupos financeiros e dos agrários, associados ao imperialismo estrangeiro.

Podemos dividir a ditadura fascista em dois períodos:
a Ditadura Militar entre 1926 e 1933, que suspende as garantias consignadas na Constituição Portuguesa de 1911, acabando todas as organizações e movimentos políticos. Alguns, como o Partido Comunista Português ou o movimento anarcossindicalista da Confederação Geral do Trabalho passaram à clandestinidade;
e a Ditadura Fascista entre 1933 e 1974, autoritária, conservadora, nacionalista, corporativista, tradicionalista, antiliberal, antiparlamentarista, anticomunista e colonialista. Assentando no culto do Chefe, Salazar era apresentado como um chefe paternal, austero, "casado com a Nação", "ungido de Deus", o "salvador da Pátria" ou o "redentor da Nação".

É necessário, no momento em que se assiste a uma enorme campanha de falsificação da história e ao branqueamento do fascismo, falar dos 48 anos que muitos pretendem desculpabilizar ou amaciar, falar da ditadura que se impôs e sobreviveu pelo medo.
É necessário falar da PIDE, da Legião Portuguesa, da Mocidade Portuguesa, da censura, do Secretariado de Propaganda Nacional, do Tribunal Militar Especial ou dos Tribunais Plenários.

Nos 48 anos de fascismo, a polícia política PVDE/PIDE/DGS reuniu um brutal aparelho repressivo e de informações do foro pessoal de cada cidadão português que permitiu reunir nos seus Arquivos Centrais um total de cerca de 6 milhões de fichas informativas, para além de 29 510 processos individuais que registaram as informações relativas aos presos políticos propriamente ditos. Todo este sistema estava ancorado, designadamente, numa rede nacional de cerca de 20 000 informadores. A PIDE utilizava como métodos a tortura muitas vezes até à morte como no caso de Germano Vidigal, o assassínio como no caso de Catarina Eufémia, Alfredo Dinis, Militão Ribeiro, José Dias Coelho, o General Humberto Delgado, Cândido Capilé, José Adelino dos Santos entre tantos outros.

Não podemos esquecer o aparelho prisional fascista, com a Fortaleza de São João Batista em Angra do Heroísmo, com a Puterna, um buraco com oito metros de profundidade onde, em pleno Verão, escorria água na escadaria, no Calejão, que tinha sido interdito para a estadia de cavalos por não ter condições para tal, mas passou a ter para guardar presos, o Forte de Peniche, Caxias, a Penitenciaria de Lisboa, o Aljube, a prisão na sede da PIDE no Porto.

Permitam-me destacar o Campo de Concentração do Tarrafal, criado em 1936, inspirado nos campos de concentração nazis, que por essa altura surgiam por toda a Alemanha. Em 29 de Outubro de 1936 chegam ao Tarrafal, na ilha de Santiago, Cabo Verde, a bordo do navio “Luanda”, os primeiros 152 presos políticos entre os quais Bento Gonçalves, secretário-geral do PCP e Mário Castelhano, dirigente da CGT, entre outros destacados antifascistas. Encontravam-se também neste grupo muitos dos participantes nas greves do 18 de Janeiro de 1934 e os marinheiros da revolta de 8 de Setembro de 1936 que ocuparam os navios de guerra “Afonso de Albuquerque”, “Bartolomeu Dias” e “Dão”, revolta esta fortemente reprimida pela ditadura fascista e que vitimou 10 marinheiros e condenou outros 60 a uma soma de mais de 600 anos de cadeia.

Como Pedro Soares refere no seu livro “Tarrafal, Campo da Morte Lenta”, os presos políticos eram condenados a um processo de morte lenta, maus tratos (entre os quais a frigideira), má alimentação, falta de tratamento médico principalmente tendo em conta as doenças tropicais (a biliosa, fase final do paludismo crónico, vitimou, entre outros, Bento Gonçalves em 11 de Setembro de 1942) e o clima (uma das mais inóspitas zonas de Cabo Verde).

As mortes dos antifascistas foram premeditadas, tão nítido era o intuito que o então director do campo afirmava “Quem vem para o Tarrafal vem para morrer”.
O tempo de prisão dos 340 presos políticos que passaram pelo Tarrafal somou dois mil anos, onze meses e cinco dias, muitos deles sem terem sido julgados.
Em 1953, Francisco Miguel Duarte, militante do PCP foi transferido do Tarrafal para o Forte de Caxias, sendo o último preso político português a sair do Tarrafal. Em 26 de Janeiro de 1954 é encerrado o Campo de Concentração do Tarrafal, após aí terem sido assassinados 32 antifascistas.

Em 1966 é reaberto o Campo de Concentração do Tarrafal, com o objectivo de encarcerar os mais destacados membros dos movimentos de libertação nacional.
A censura prévia às publicações, às emissões de rádio e de televisão, ao teatro e ao cinema, tinham o objectivo de defender a ideologia do governo fascista, com o argumento de defender "a moral e os bons costumes".

Grande foi a repressão, mas enorme foi a luta e resistência ao fascismo, desde o republicanismo reviralhista, passando pelo movimento anarco-sindicalista e pelos militantes comunistas, para além de muitos democratas, todos os lutadores antifascistas deram o seu contributo para que o povo português nunca deixasse de lutar. Desde as revoltas militares no seio das Forças Armadas contra a Ditadura Militar (1926-1933) onde participaram civis até ao 25 de Abril de 1974.

A luta dos trabalhadores e do povo foi sempre uma característica deste período.
Destaco:
- A Revolta de Fevereiro de 1927, que ocorreu entre 3 e 9 de Fevereiro de 1927, tendo terminado com a rendição e prisão dos revoltosos e saldou-se em cerca de 80 mortos e 360 feridos no Porto e mais de 70 mortos e 400 feridos em Lisboa;
- O 18 de Janeiro de 1934, com o apelo à «Frente Única Sindical», em diferentes pontos do país, sob a forma de acções de esclarecimento, manifestações de rua, acções de sabotagem, paralisações e greves em numerosas empresas, greves gerais em Almada, Silves e Marinha Grande, dezenas de milhar de trabalhadores manifestaram inequivocamente o seu repúdio à fascização dos sindicatos e à política da ditadura;
- A Revolta dos Marinheiros a 8 de Setembro de 1936, com a ocupação do “Afonso de Albuquerque”, “Bartolomeu Dias” e “Dão”, que tinha por objectivo a satisfação de direitos, o fim das perseguições e a libertação dos presos;
- As greves operárias na Covilhã em 1941;
- A greve dos trabalhadores da Carris de 1942, e que alastra a todo o país;
- As lutas e grandes greves de 1943, por melhores salários, na região de Lisboa, margem sul do Tejo, São João da Madeira, Alentejo e Norte;
- Marchas da fome em várias localidades do país contra a falta de géneros;
- O movimento grevista de 8-9 de Maio de 1944, em protesto contra a escassez de bens e racionamento do pão;
- As manifestações de regozijo pelo fim da Segunda Guerra Mundial;
- As manifestações de 31 de Janeiro de 1946 em Lisboa e no Porto que exigem o fim da ditadura;
- As comemorações do 1.º aniversário do fim da guerra, onde é exigida a realização de eleições livres e o fim da ditadura;
- A comemoração do dia do estudante em Lisboa e no Porto e os protestos organizados por estudantes da Academia de Lisboa em 1947;
- As greves por aumentos salariais em 1956;
- Em 1962 - a crise académica, após a proibição das comemorações do Dia do Estudante, as comemorações do 1º de Maio, com destaque para Lisboa, onde saíram à rua cem mil manifestantes, e a vitória da luta do proletariado agrícola do Alentejo e Ribatejo que viria a impor o horário das 8 horas de trabalho diário nos campos do Sul e do Ribatejo;
- A “greve da mala” na Carris em 1967;
- Em 1969 - mais de 70 mil trabalhadores estiveram em luta nos primeiros 45 dias do ano na região de Lisboa, margem Sul e Baixo Alentejo, a Academia de Lisboa decreta luto académico;
- 40 mil pessoas manifestam-se no Porto contra o aumento do custo de vida, em 1972;
- As greves de Outubro/Novembro de 1973;
- A greve geral de 4 de Fevereiro de 1974, na Universidade de Lisboa contra a guerra colonial, entre tantas outras lutas.

Foram vários os movimentos de unidade antifascista.
A Frente Popular foi criada em Portugal em 1936, congregando o PCP, a FJCP, o Socorro Vermelho Internacional, a franco-maçonaria, o Partido Socialista Português, a Aliança Republicana, a Liga Antifascista, os Sindicatos Autónomos, o Bloco Antifascista dos Estudantes e a AAA (Antifascistas, Antimilitaristas, Anticlericais). Tinha como objectivo «derrubar o fascismo e criar um governo democrático-popular provisório que esmague o fascismo, solucione os problemas sociais prementes e convoque eleições gerais».

Em Dezembro de 1943 é criado na clandestinidade o Conselho Nacional de Unidade Anti-Fascista. Num "Comunicado ao Povo Português", o Conselho declarou ser objectivo do Movimento de Unidade Nacional Anti-Fascista (MUNAF) a instauração de um governo em que estivessem representadas todas as correntes da oposição e que desse ao povo português "a possibilidade de escolher, em eleições verdadeiramente livres, os seus governantes".

O Conselho Nacional, que teve como Presidente Norton de Matos e contou na sua composição mais de 40 membros, conseguiu unir à sua volta praticamente todos os sectores da oposição antifascista, esteve aberto a grupos militares e a correntes católicas e formou Comités de Unidade Nacional por todo o país.
Com o fim da guerra, o MUNAF lançou um vastíssimo e dinâmico movimento político de massas que impôs temporariamente a sua actuação legal e semi-legal (o MUD) e que nos anos seguintes, fazendo frente à repressão, promoveu uma intensa actividade política.

Em 1949 a campanha eleitoral de Norton de Matos decorreu sobre o lema «Sem eleições livres, não votes» e, apesar das gigantescas manifestações e comícios de apoio, nomeadamente no Porto, em Lisboa e Coimbra, Norton de Matos desiste da sua candidatura por não existirem garantias de democraticidade eleitoral.

Em 1951 é apresentada a candidatura de Ruy Luís Gomes pelo Movimento Nacional Democrático, candidatura que foi considerada inelegível pelo Conselho de Estado.
Em 1958 é apresentada a candidatura de Arlindo Vicente (20 de Abril) que virá a fundir a sua candidatura com a de Humberto Delgado. Nesta batalha eleitoral o povo português travou uma das suas maiores batalhas contra a ditadura fascista. Nos 28 dias de “campanha” e apesar de toda a repressão, com proibições, espancamentos e prisões, o governo fascista é obrigado a autorizar mais de 60 sessões públicas, grandiosas manifestações de rua, com a participação de 200 mil pessoas no Porto e 300 mil em Lisboa. Apesar da total ausência de garantias democráticas e da burla eleitoral, a oposição decide ir às urnas e o governo é forçado a atribuir à oposição 22,5% dos votos. A burla fascista levanta uma poderosa vaga de protestos: cerca de 60 mil operários fabris e rurais fazem greves e paralisações reclamando a demissão de Salazar. As eleições de 1958 abalaram o fascismo tanto no país como fora dele, o jornal norte-americano New York Times publicou a seguinte notícia «O general Humberto Delgado, é claro, perdeu por uma larga margem a favor do candidato escolhido por António de Oliveira Salazar, o ditador e primeiro-ministro. O nome do vencedor é por acaso, o contra-almirante Tomás, mas isso não tem qualquer importância. Ele não terá qualquer poder e o Dr. Salazar podia da mesma forma ter escolhido o polícia de trânsito mais à mão.»

A criação em 1962 da Frente Patriótica de Libertação Nacional, com Álvaro Cunhal, Humberto Delgado e Ruy Luis Gomes, entre outros, teve também um importante papel na aglutinação e dinamização da luta contra a ditadura.

Importantes foram também os Congressos da oposição democrática. O primeiro, realizado em 1957, reuniu em Aveiro, sob o olhar atento do fascismo, viria a dar um forte abalo ao regime, com a criação de uma ampla frente unitária, que irá edificar um ano mais tarde a candidatura presidencial do General Humberto Delgado.
Quando os promotores aproveitaram “uma nesga azul de liberdade” na célebre frase de António Luís Gomes, ministro da I República, que presidiu aos trabalhos do congresso, conseguiram algo impensável até aquele momento - a hipótese de reunião das forças antifascistas.

Depois deste viriam a realizar-se em Aveiro mais dois congressos da oposição democrática, em 1969 e 1973, com a participação de mais de 4 mil antifascistas, cuja Comissão Nacional era composta por mais de 500 membros, representantes de todos os distritos do país, e onde foram apresentadas cerca de 200 teses, muitas delas colectivas, com um papel fundamental na transição política de Portugal desencadeada com o 25 de Abril de 1974.

Em 1961 começa uma nova fase. As contradições no seio do fascismo aumentam, agravam-se as condições económicas e sociais, eclode a guerra colonial e desenvolve-se a luta dos povos oprimidos das colónias. Há um acréscimo da luta popular e democrática de massas. A partir de 1961 acumulam-se os factores que conduziram a uma situação revolucionária da crise.

Com Marcelo Caetano e a morte de Salazar aprofunda-se a crise e para o fascismo entra na ordem do dia a questão da própria sobrevivência. E o fascismo tudo fará para se manter no poder, da liberalização demagógica às velhas formas de repressão.
A dramática guerra colonial, para a qual foram mobilizados um milhão e quatrocentos mil homens em treze anos (mais de 10% da população portuguesa e mais de 90% da juventude masculina) levou à morte quase 9 mil homens e ficariam feridos ou incapacitados cerca de 100 mil. Nos movimentos de libertação nacional o número de mortos ascendeu a quase 100 mil.

Citando o General Vasco Gonçalves “A Guerra Colonial foi para a grande parte dos oficiais do Quadro Permanente uma verdadeira escola de educação política, uma escola de consciencialização política, de percepção e de conhecimento das relações económico-sociais que conduziam à guerra que o governo fascista-colonialista fazia aos movimentos de libertação anti-colonialista e que arrastava o país para a grave situação em que se encontrava.


O aumento das contradições no seio do capitalismo durante esta fase da ditadura, a vastidão e força da luta popular e democrática, a diminuição da base social e política de apoio ao fascismo, a formação a partir dos sindicatos fascistas de um movimento sindical independente (a Intersindical), o movimento democrático com a grande campanha em torno das eleições para a Assembleia Nacional fascista, o movimento juvenil, a luta armada dos povos das colónias, a formação de um movimento militar organizado (o MFA), conduziram a uma crise geral e irreversível do regime, que era já incapaz de impedir o curso revolucionário da luta do povo português, que após 48 anos de opressão e obscurantismo, tinha agora a consciência clara que a solução insurrecional era o único caminho para pôr fim à ditadura fascista.  


Nuno Lopes, membro da direcção da ACR

Congresso "Conquistas da Revolução" - Intervenção de António Avelãs Nunes, Presidente da Assembleia Geral da ACR




Congresso "Conquistas da Revolução" Intervenção de António Avelãs Nunes, Presidente da Assembleia Geral da ACR



Há 40 anos a nossa Pátria deixou de ser “lugar de exílio” (Daniel Filipe) para os portugueses.

            Durante quase 50 anos de “injustiça e de vileza”, de “medo e de traição” (Sophia), o fascismo condenou-nos à opressão, à pobreza e ao analfabetismo, à guerra colonial e à emigração em massa. Mas, como diz uma canção do meu tempo de estudante de Coimbra, “é nas noites mais negras que as estrelas brilham mais” (Fernando Machado Soares). E elas brilharam na noite negra do fascismo, que encarcerou e assassinou muitas delas, como se as estrelas se pudessem encarcerar e mesmo assassinar… Tudo com a cumplicidade e o apoio activo do “mundo livre”, as chamadas democracias ocidentais. Salazar bem poderia ter dito: a Europa está connosco; o mundo livre está connosco…

            Mas o povo que faz a História nunca desertou da luta, organizou-se e foi sempre caminhando, um passo atrás, dois passos à frente, rumo à vitória. E esta surgiu num Abril cheio de cravos vermelhos, quando o povo fardado pegou em armas para pôr fim à ditadura.

            As portas que Abril abriu (Ary dos Santos) conduziram directamente ao Maio dos trabalhadores. Nesse 1º de Maio de 1974 começou, verdadeiramente, a revolução, porque nele se revelou e lançou a Aliança Povo-MFA. O povo já tinha enfeitado com cravos vermelhos as espingardas dos soldados de Abril, dizendo com flores que não queria mais guerra. Já tinha dado caça aos pides e já tinha libertado os presos políticos. Já tinha começado a exercer os seus direitos e a gozar as suas liberdades. Mas foi com o 1º de Maio que o povo impôs a Spínola e aos que o apoiavam o reconhecimento imediato dos partidos políticos, a aceitação do papel dos sindicatos, a libertação das câmaras municipais e das juntas de freguesia dos fascistas que as ocupavam ilegitimamente.

            Pelas portas que Abril abriu entrou a festa, a liberdade e a democracia.

 E, como o povo é quem mais ordena, entraram também a criação do salário mínimo nacional e a sua fixação em 3.300$00, duplicando ou triplicando o rendimento de milhões de trabalhadores portugueses, que ficaram com um poder de compra superior ao do atual salário mínimo.

E entrou o reconhecimento do direito das mulheres a aceder à magistratura, à diplomacia e a outros cargos públicos e a proclamação da igualdade de direitos entre homens e mulheres.

E entrou a generalização dos direitos da segurança social, o direito ao subsídio de Natal, a generalização do direito a férias e ao subsídio de férias, o aumento do abono de família e de outras prestações sociais. E entrou a atribuição do direito a 90 dias de licença de parto e a consagração do direito ao subsídio de desemprego.

As portas que Abril abriu abriram o caminho da revolução. Consciente disto mesmo, o povo, em aliança com o MFA, foi exercendo todos os seus direitos, mesmo antes da sua consagração legal.

Foi o povo que, logo no dia 25 de Abril, aboliu a censura e exerceu, sem limitações, a liberdade de pensamento e de expressão, bem como a liberdade de reunião, de associação e de manifestação, apesar de o MFA apelar às pessoas para que ficassem em casa.

Foi o povo que ocupou as sedes da União Nacional-Acção Nacional Popular, da Pide, da Legião e da MP, deitando todo este lixo para o respectivo caixote.

Foi o povo que exigiu nas ruas o fim da guerra colonial e o reconhecimento do direito dos povos colonizados à autodeterminação e à independência, pondo fim à resistência dos últimos bastiões do colonialismo.

Foi o povo trabalhador que impôs os partidos políticos, os sindicatos e o direito à greve, que saneou as autarquias e assumiu a administração das empresas abandonadas ou sabotadas pelos patrões.

 Foram os trabalhadores que chamaram a si o controlo dos bancos que persistiam em sangrar o País e que ocuparam e cultivaram as terras do latifúndio, sob o lema a terra a quem a trabalha, transformando os ideais em força material: 550 UCPs e cooperativas passaram a cultivar mais de um milhão de hectares de terra, dando emprego a mais de 50 mil trabalhadores e criando riqueza como nunca antes, riqueza repartida por toda a comunidade.

Foi o povo que impôs a nacionalização da banca, dos seguros e dos sectores estratégicos, a reforma agrária, o controlo operário, a subordinação do poder económico ao poder político democrático, pondo termo ao poder dos grupos monopolistas que tinham sido a base de apoio do fascismo.

Foi o povo que escreveu nas ruas, nos campos, nos mares, nas cidades, nas fábricas, nas oficinas, nos quartéis, nas escolas, nos hospitais e nas repartições públicas as normas que viriam a ser consagradas na CRP, promulgada pelo Presidente Costa Gomes em 2 de Abril de 1976 para entrar em vigor no dia 25 de Abril desse ano. E com a CRP veio a criação do SNS, o desenvolvimento e a melhoria da escola pública, o poder local democrático.

Portugal mudou radicalmente. E mudou para muito melhor. Apesar da situação herdada do fascismo, apesar da situação internacional desfavorável (o mundo capitalista vivia em 1973 em depressão complementada por acentuada inflação – a famosa estagflação) e apesar do boicote do “mundo livre”, o período revolucionário foi, em Portugal, um período de crescimento económico e de desenvolvimento social. Isto mesmo consta de um Relatório da insuspeita OCDE, ao reconhecer que, em finais de 1975, a economia portuguesa gozava de uma “saúde invejável”.

A revolução portuguesa ajudou também a mudar o mundo, nesse mesmo ano em que o poderoso exército do imperialismo sofreu uma derrota humilhante no Vietnam, cujo povo obrigou os EUA a uma capitulação sem condições. A derrota do fascismo colonialista em Portugal veio acelerar e consolidar a vitória dos movimentos de libertação nas antigas colónias portuguesas, pondo fim ao último império colonial e abrindo o caminho à derrota do apartheid na África do Sul.

O 25 de Abril valeu a pena. Vale a pena celebrar Abril e continuar a defender os valores de Abril e as conquistas de Abril!

E as conquistas de Abril, as conquistas da revolução, andam associadas a um homem, a um militar de Abril, que encarnou, como nenhum outro, o espírito e a força da Aliança Povo-MFA, que acreditou nas capacidades do povo português e que trabalhou, dia e noite, para tornar realidade no nosso País o programa político que viria a ser plasmado na CRP. Refiro-me, como já adivinharam, a Vasco Gonçalves.

Por mais que queiram ‘matar’ a sua memória pelo silêncio, ele faz parte da História de Portugal nos anos da Revolução, porque ele fez História, sempre do lado dos trabalhadores e sempre ao lado dos trabalhadores. Primeiro-Ministro, por indicação do MFA, de 18.7.1974 até 2.9.1975, os seus Governos – apesar de deles fazerem parte, salvo o V Governo Provisório, forças que, manifestamente, não queriam que a revolução avançasse – procuraram acompanhar os anseios populares e deram ao povo trabalhador inteira liberdade para exercer os seus direitos e para expressar a sua vontade.

O Primeiro-Ministro Vasco Gonçalves está associado aos momentos mais importantes do processo revolucionário: o reconhecimento por Portugal do direito à autodeterminação dos povos, incluindo a aceitação da independência dos territórios coloniais; a legalização do direito à greve (DL nº 372/74,de 27 de Agosto); o reconhecimento do direito dos trabalhadores desempregados aos benefícios concedidos pela Previdência (DL nº 411/74, de 5 de Setembro); a institucionalização do subsídio de desemprego (DL nº 169-D/75, de 31 de Março); a actualização do salário mínimo para 4.000$00 (DL nº 292/75, de 16 de Junho); o reconhecimento dos trabalhadores do estado (incluindo os militares e os membros das forças militarizadas) a uma remuneração mínima e ao subsídio de férias (DL nº 294/75, de 16 de Junho); a nacionalização dos bancos emissores – Banco de Portugal, BNU e Banco de Angola (DL nºs 450, 451 e 452, de 13 de Setembro de 1974); a legalização da gestão democrática das escolas (DL nº 806/74, de 31 de Dezembro); a nacionalização da banca e dos seguros e dos sectores básicos e estratégicos da economia; o reconhecimento do controlo da produção organizado pelos trabalhadores (DL nº 203-C/75, de 15 de Abril); a legalização da reforma agrária, levada a cabo pelo operariado agrícola nas terras do latifúndio, mas dando particular atenção aos apoios a prestar pelo estado aos pequenos e médios agricultores, especialmente no norte e centro do País, e também à proteção dos rendeiros com a consagração de um novo regime do arrendamento rural (DL nº 201/75, de 15 de Abril), e ao direito dos povos a administrar os baldios.

Vasco Gonçalves não foi deputado à Assembleia Constituinte. Mas acreditou que era possível construir em Portugal, como um dia escreveu, “uma via pacífica e pluralista para a democracia e o socialismo, garantida pelas Forças Armadas”. Por isso ele esteve com os trabalhadores, com os jovens, com as mulheres, com os militares do MFA em todas as ações, em todas as lutas através das quais se foram escrevendo, com tintas fortes, os princípios e os direitos que a CRP veio consagrar. Ele esteve comprometido com todas as ações do povo português

- para “defender a independência nacional, garantir os direitos fundamentais dos cidadãos, estabelecer os princípios basilares da democracia, assegurar o primado do estado de direito democrático e abrir caminho para uma sociedade socialista, no respeito da vontade do povo português, tendo em vista a construção de um país mais livre, mais justo e mais fraterno” (do Preâmbulo da CRP);

- para fazer da República portuguesa “uma República soberana, baseada na dignidade humana e na vontade popular e empenhada na sua transformação numa sociedade sem classes” (art. 1º CRP);

- para fazer de Portugal “um estado democrático, baseado na soberania popular, no respeito e na garantia dos direitos e liberdades fundamentais e no pluralismo de expressão e organização política democráticas, (...) com o objectivo de assegurar a transição para o socialismo mediante a criação de condições para o exercício democrático do poder pelas classes trabalhadoras” (art. 2º CRP), um estado cujas tarefas fundamentais são as de “garantir a independência nacional, criando as condições políticas, económicas e sociais que a promovam, e (…) abolir a exploração e a opressão do homem pelo homem” (art. 9º CRP);

- para fazer de Portugal um estado que “preconiza a abolição de todas as formas de imperialismo, colonialismo e agressão, o desarmamento geral, simultâneo e controlado, a dissolução dos blocos político-militares e o estabelecimento de um sistema de segurança colectiva, com vista à criação de uma ordem internacional capaz de assegurar a paz e a justiça nas relações entre os povos” (art. 7º CRP).

A expressão gonçalvismo foi inventada pelos adversários da Revolução para reduzir o movimento revolucionário a uma espécie de seguidismo messiânico e para desvalorizar e depreciar o mais destacado timoneiro do movimento revolucionário no seio do MFA. Ela é filha do medo de quem a inventou, medo da revolução, medo do socialismo, e a violência e o destempero das calúnias que ela pretendia (e ainda pretende) veicular foram subindo à medida do medo dos seus inventores.

 Criada para ser usada depreciativamente contra Vasco Gonçalves e contra as políticas que este representava, esta expressão acabou por se transformar numa homenagem a Vasco Gonçalves. Em 1977, ele próprio descodificou esta campanha: “Hoje em dia, falar de gonçalvismo é identificar o gonçalvismo com as conquistas da revolução”; “hoje em dia, a luta contra o gonçalvismo é, na realidade, uma luta contra a Constituição”.

Verdade de ontem, verdade de hoje. A CRP recorda-lhes a Revolução e as conquistas da Revolução. E Vasco Gonçalves continua a ser para eles, ainda que o neguem mil vezes, o rosto e o símbolo da Revolução de Abril.

Apesar dos rombos que sofreu, a CRP continua a ser um obstáculo aos avanços da direita revanchista e saudosa do passado, que continua a olhá-la com maus olhos, considerando-a uma manifestação do império do mal. Outros há, no entanto, no afã de enterrarem tudo o que cheire à Revolução de Abril, têm procurado vestir a C RP com roupas de Novembro, desrespeitando-a sempre que podem e mostrando-se sempre, em nome da ‘modernidade’ (eles acompanham sempre as ‘modas’…), dispostos a revê-la (encostados à direita).

Para nós, ela continua a ser um bom programa para reunir à volta dele os democratas que queiram trabalhar para fazer de Portugal uma Pátria soberana e independente, um país mais livre, mais justo e mais fraterno, em que o poder económico e financeiro esteja efectivamente subordinado ao poder político democrático.

Estes mesmos que nunca quiseram nem querem nada que se pareça com a revolução aliam-se à direita na obra inglória de ‘matar’ de novo Vasco Gonçalves, desta vez pelo silêncio. Todos eles ‘encenaram’ as comemorações dos 40 anos do 25 de Abril como se ele não tivesse existido. Mas ele existiu e vai ficar na História, mesmo quando já ninguém se lembrar dos seus adversários e destes ‘encenadores’ que procuram tirar do retrato da História um dos seus actores mais destacados.

“Homem de um só rosto e de uma só fé”, como diria o velho Sá de Miranda, Vasco Gonçalves sublinhou um dia que “o socialismo que queremos consiste (também) na possibilidade de cada cidadão ser um homem de lisura, um homem limpo, um homem íntegro, um homem transparente”. Parece que desenhava o seu próprio retrato, porque Vasco foi isso mesmo: um homem de lisura, um homem limpo, um homem íntegro, um homem transparente. Um homem que sempre olhou o povo olhos nos olhos, e que disse num dos seus discursos: “Esta cara não se esconde, não muda, não renuncia. É a minha cara. (…) É a cara a quem vocês pedirão contas”.

Este era Vasco Gonçalves, “homem inteiro”, “homem verdade”, o “Vasco igual a povo”, o Companheiro Vasco, símbolo maior da Aliança Povo-MFA. Homem do MFA (“essa gente é o que é, eu sou um homem do MFA”, como repetia tantas vezes), que faz da sua participação no 25 de Abril, ao lado dos capitães, o momento mais alto da sua vida, não se esquece, porém, de sublinhar que “é o povo que faz a História”.

Um dia confidenciou ao seu Amigo João de Freitas Branco: “O que mais me espanta nestes tipos é a falta de patriotismo”. Como patriota que foi, ele entendia, porém, que “a Pátria são os portugueses de carne e osso, (…) é o povo que vive dia a dia os eus problemas, mas que sofre e que tem alegrias, que constrói o futuro, dia a dia”.

Termino esta minha fala com uma mensagem de Vasco Gonçalves:
“O futuro com que sonhei não é cada vez mais saudade, é, sim, cada vez mais, necessidade imperiosa. Assim o povo o compreenda”.
É nossa obrigação dizer-lhe que não nos esconderemos, que não mudaremos de rumo, que não renunciaremos aos nossos ideais.
Com o teu exemplo e a tua força, Companheiro Vasco, nós seremos a muralha de aço!


António Avelãs Nunes

Lisboa, 4 de Outubro de 2014