URBANO Tavares Rodrigues…Até já, amigo!
( «Nunca aceitaria qualquer tirania…») [Urbano Tavares Rodrigues]
(«Uso a palavra amor no sentido mais lato, não só sexual. A grande lição para o mundo futuro é uma grande dose de amor, de compreensão dos outros. Não sei se nota isso nos meus livros.») [Urbano Tavares Rodrigues]
(«A poesia de alta qualidade, mesmo quando não parece directamente ligada ao processo revolucionário, é sempre progressista. Porque a beleza em si é uma forma de progresso, de aperfeiçoamento do ser humano» [Urbano Tavares Rodrigues]
I-A tua escrita foi feita coma tinta da luta e do amor.
Mais um Amigo que nos deixa neste mês de Agosto de 2013.Urbano Tavares Rodrigues.
Conheci-te há mais de quarenta anos (Abril de 1973) no III Congresso da Oposição Democrática em Aveiro, quando eras membro da sua Comissão Nacional. Apresentaram-me como um capitão revoltado e trocámos documentos. Foste dos que conheceste o meu manifesto/requerimento contra a situação e o teu sorriso luminoso e esperançoso ouviu palavras minhas premonitórias sobre o fim do regime por parte dos militares. Já tínhamos começado a mexer.
Sempre que nos encontrávamos falavas-me de ABRIL…e os teus olhos brilhavam. No teu olhar estava tudo o que o nosso Abril merece: encantamento, fraternidade, amizade, solidariedade, liberdade, saudade…e tudo o mais que sente a cabeça e o coração!
Os anos foram passando. Fomo-nos encontrando esporadicamente. Quanto mais debilitado te víamos mais luminoso e penetrante era o teu sorriso. A tua partida não foi inesperada. Foi desgosto grande. Os quase noventa anos não perdoam; nem aos génios perdoam!
Dizem teres sido um escritor e sedutor indignado. Sim. Mas foste sobretudo um combatente serenamente apaixonado. A tua escrita foi feita coma tinta da luta e do amor. Foste um nobre guerreiro, militante de espada, por um melhor mundo, cuja lâmina tinha a dimensão plana do teu Alentejo e bem representava também a cruz das gentes sofridas, na elevação da sua dignidade, tão profusamente por ti defendida!
II- Nunca aceitarias qualquer tirania .
No poema “Destino” do teu livro “Horas de Vidro” dizes bem quem és:
«Trago na fonte/e estrela do fogo/da minha revolta/Nunca aceitaria qualquer tirania/nem a do dinheiro/nem a do mais justo ditador/nem a própria vida eu aceito.../tal como ela é/com todas as promessas/do amor e da juventude/e a parda doença/de envelhecer/a morte em cada dia/antecipada. Na mais lebrega alfurja/ou na cama de folhas macias/da floresta/da onde a chuva te adormeceu/há sempre um idamente de sol/cujos raios te penetram de/ventura/ao sonhares a palavra/liberdade.»
III- Biografia resumida.
“Filho do escritor Urbano Rodrigues, nasceu em Lisboa e passou a infância em Moura. Criado numa família de grandes proprietários agrícolas, recebeu as influências das gentes do campo, o que marcou indelevelmente. Frequentou a Faculdade de Letras de Lisboa, onde se licenciou em Filologia Românica. Impedido de leccionar em Portugal, foi leitor de português nas universidades de Montpellier, Aix e Paris, entre os anos de 1949 e 1955. Depois do 25 de Abril de 1974 regressou a Portugal. Em 1984 doutorou-se em Literatura, com uma tese sobre a obra de Manuel Teixeira Gomes. Em 1993 jubila-se como professor catedrático da Faculdade de Letras. Foi igualmente professor na Universidade Autónoma de Lisboa Luís de Camões. Foi membro efectivo da Academia de Ciências de Lisboa e membro correspondente da Academia Brasileira de Letras.”(Wilkipédia)
“Escreveu em diversas revistas e jornais, como o Bulletin des Études Portugaises, a Colóquio-Letras, o Jornal de Letras, Vértice, Nouvel Observateur, entre outros. Foi director da revista Europa e crítico de teatro d' O Século e do Diário de Lisboa. Enquanto repórter percorreu grande parte do mundo, tendo reunido os seus relatos de viagem nos volumes Santiago de Compostela (1949), Jornadas no Oriente (1956) e Jornadas na Europa (1958)(….) (…) Recebeu variados galardões literários, como o Prémio Ricardo Malheiros, da Academia das Ciências de Lisboa, com a obra Uma Pedrada no Charco — é de salientar que o seu pai, Urbano Rodrigues, já tinha vencido este prémio na edição do ano de 1948, com a obra O Castigo de D. João —, o Prémio da Associação Internacional de Críticos Literários, o Prémio da Imprensa Cultural, o Prémio Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores e o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco.””(Wilkipédia)
IV- O amor, para ti, como uma necessidade absoluta do mundo.
Numa entrevista ao jornal Público/Ípsilon, o ano passado, voltámos a ouvir a tua inteligência falar de amor:
«Não consigo escrever qualquer coisa que seja completamente nova, mas consigo escrever de uma maneira nova e cada vez mais olho o amor como uma necessidade absoluta do mundo»(…)«Uso a palavra amor no sentido mais lato, não só sexual. A grande lição para o mundo futuro é uma grande dose de amor, de compreensão dos outros. (…).»
Foste um dos autores portugueses mais prolíficos da segundam metade do séc. XX. Como já assinalámos recebeste vários galardões literários, Mas ao Ípsilon, na mesma entrevista, confessavas-te desiludido e revoltado por nunca ter recebido o Prémio Camões, e porquê?
«Ainda não tive o prémio Camões porque soube recentemente que há membros do júri que dizem: “esse comunista não terá o Prémio Camões"».
E bem o merecias, todos sabemos. Nunca deixaste de ser corajoso e frontal, senhor das tuas convicções e daí a tua mais que justa revolta perante o sistema cego e preconceituoso!
V- Entre o realismo e o fantástico e a pressão da realidade envolvente.
Casado com a também brilhante escritora Maria Judite de Carvalho, que morreu em 1998, e pai de Isabel Fraga, romancista e tradutora, deixas ainda um filho com sete anos “o teu menino António” fruto de um segundo matrimónio a rondar os oitenta anos.
Autor de uma vasta obra escrita, no romance, novela, conto, teatro, poesia, crónica, viagens, ensaio e jornalismo. Nela estão presentes os valores humanos que sempre acarinhaste: -liberdade, solidariedade e justiça social.
Afirmaste, em tempos, que a tua obra foi influenciada pelo existencialismo francês da década de 1950, ocasião em que integras uma geração neorrealista preocupada em analisar o marxismo sob a óptica dos acontecimentos históricos fracturante na época. Mais tarde, na sequência da tua detenção no forte de Caxias, durante a ditadura surges como autor de resistência, a que se seguiu um novo período de esperança no pós-25 de Abril. Mas numa entrevista feita a José Manuel Mendes, em 1989,tu próprio te defines como dividido «entre o realismo e o fantástico», esclarecendo contudo que nunca tiveras uma escola mas sim «a pressão da realidade envolvente». Deixaste uma obra literária e ensaística muito vasta e traduzida em inúmeros idiomas, do francês e do espanhol ao russo e ao chinês.
Entre os teus livros, muitos reeditados, podemos destacar (no género romance, novela e conto):“As Aves da Madrugada”(1957)(2012),“A Noite Roxa”(1956)(1982), ”Uma Pedrada no Charco”(1957)(1998) ,“Bastardos do Sol”(1959)(1994), “Os Insubmissos” (1961) (2003), “Imitação da Felicidade” (1966) (1988), “As Pombas são Vermelhas”(1977)(1985),“Fuga Imóvel”(1982)(19929, ”Violeta e a Noite”(1991), “O Supremo Interdito”(2000), “Nunca Diremos Quem Sois”(2002),), “A Estação Dourada”(2003), ”Os Cadernos Secretos de Pior do Crato”(2007) e(último editado) a “Imensa Boca dessa Angústia e Outras Histórias”(2013). A tua última obra é “Nenhuma Vida” inédito entregue à editora, em Julho passado, para ser publicado brevemente.
VI-Exigência e coerência. Verticalidade e paixão. Insubmissão.
Há 57 anos, precisamente em Agosto de 1956,foste cobrir o conflito do Suez para o Diário de Notícias. Nunca ficaste satisfeito com as crónicas publicadas sob a alçada férrea da censura. Reunidas estas crónicas em 1999,em nota prévia, referiste essa insatisfação pelas condicionantes impostas pelo fascismo mas expressaste, mesmo assim, “gostaria que esses capítulos viessem a ser conhecidos pelos povos árabes ”.Mais um facto a revelar a fibra de um homem que iria fazer 90 anos em Dezembro e que toda a sua vida adulta teve como objectivo acabar com a luta da exploração do homem.
Tendo passado a tua infância em Moura, no nosso Alentejo, onde coabitava a fome com as ricas famílias , como a tua, possuidora de algumas terras, nunca na tua obra e nas tuas acções olvidaste o que ali tinhas vivido e registado nesses anos. Não pode deixar de salientar-se o que tu próprio contas, a propósito da herança das propriedades familiares, numa entrevista recente, já em Setembro de 2012,a um outro jornal
«Éramos três. O meu irmão Jorge não tinha as mesmas ideias - era um homem que se interessava fundamentalmente pelo dinheiro. Para podermos dar ao Jorge a parte dele vendemos aquilo a um primo nosso, grande agrário. Comprou se lhe garantíssemos que não lhe ocupavam as terras. Garantimos. A nossa parte, minha e do Miguel, ficou para o sindicato dos trabalhadores agrícolas do distrito de Beja. Pedi licença para tirar da minha parte uma pequena parte para ajudar a minha filha a comprar uma casa. Acharam bem. E ela comprou. Ela também está muito perto das ideias comunistas, embora não seja militante.»
Foste uma espécie de socialista cristão, como disseste, mas também é nessa mesma entrevista que nos confessas:
«A minha primeira relação com o Alentejo é eminentemente poética. Começo a sentir a natureza apaixonadamente, como qualquer coisa de mágico. Essa relação profunda a certa altura transforma-se porque me dou conta das injustiças sociais. Das desigualdades. Enveredo por um caminho que é uma espécie de socialismo cristão….Deixo de ser …(crente)… por causa da confissão. Se me comprometo, se juro, não cometer os mesmos pecados, [sou absolvido]. E tenho de rezar umas tantas orações. Eu sei de antemão que vou cometer esses pecados... Portanto, aquilo parece-me uma farsa. E repudio completamente o catolicismo.» (…)«As primeiras ideias marxistas vêm-me do contacto com o meu primo Fernando Medina, casado com a Maria Eugénia Cunhal, que era comunista. Dá-me a ler pela primeira vez textos do Marx. Tinha talvez 13, 14 anos.»
Ainda antes de ingressares no Partido Comunista Português, o que aconteceria em 1969,estiveste em Cuba em 1962, participando num encontro de escritores solidários com a revolução cubana e no ano seguinte, em Florença presides, enquanto membro, à delegação portuguesa das Juntas de Acção Patriótica no Congresso em Defesa da Liberdade da Cultura, realizado pela Comunidade Europeia de Escritores. No mesmo ano és preso acusado de pertencer ao PCP e às Juntas de Acção Patriótica.
Foi a primeira de três vezes que és preso e sujeito a brutais torturas pela PIDE. Há quem não te reconhecesse na magreza com que saíste de Peniche, mantendo o teu olhar doce e bondoso!
Em Cuba travas conhecimento com Fidel e Che Guevara e é sobretudo com este que crias laços profundos, na luta e na amizade. «Em 1961 vou a Cuba no momento do ataque [Baía dos Porcos] e conheço pessoalmente e travo relações de amizade com alguém que ia marcar toda a minha vida: o Che Guevara. Tivemos conversas muito interessantes, algumas, justamente, sobre poesia. (…)"A poesia de alta qualidade, mesmo quando não parece directamente ligada ao processo revolucionário, é sempre progressista. Porque a beleza em si é uma forma de progresso, de aperfeiçoamento do ser humano", disse-lhe. O Guevara deu-me esta resposta de que nunca me esqueci: "Talvez tu tenhas razão. Mas se puderem dar um jeitinho para o nosso lado, agradeço!". Isto era o Che.» (…) «Che tinha uma natureza romântica e revolucionária. E adorava as mulheres. E as mulheres adoravam o Che. Teve uma ligação no México com uma mulher mais velha, que tinha uma grande cultura marxista, e que foi quem fez dele um marxista.» (…) «Acreditava verdadeiramente no futuro do socialismo. Condenou os abusos da União Soviética quando esteve em Argel, e depois mergulhou naquela absurda guerrilha da Bolívia um pouco por causa disso. Como protesto contra o socialismo degradado. Andei por lá, ao lado do Che».
Tendo-te sido perguntado se te consideravas um D.Juan, respondes: «Nunca fui um Don Juan. Isso nunca fui, não.O Don Juan é um sedutor com o desejo do império e da sedução. Eu não fui nada disso. Era um menino bonito, tímido, que inspirava ternura nas mulheres. Essa ternura é que arrastava o acto sexual. Se quiser, [era] um Don Juan seduzido, mas não era um sedutor. O sedutor, como o Miguel de Mañara da lenda espanhola, é aquele que quer mesmo seduzir.»
Em "Solidões em Brasa", como noutros escritos, evocas "a longa resistência dos comunistas e outros antifascistas". Falas do poder operário, da "participação dos trabalhadores na gestão desses casarões, em breve nacionalizados, de onde eram expulsos, se é que não tinham já fugido, capitalistas e serventuários da ditadura". Na mesma entrevista que temos vindo a citar foi-te perguntado:-A palavra "capitalista" tinha para si peçonha? «Tinha! [riso] Ainda tem» respondes sem hesitar.E ainda perante nova pergunta:- Falas do "veneno da insubmissão". ---Insubmissão continua a ser uma palavra central em si? O primeiro dos seus livros a ser notado foi "Os Insubmissos", respondes: «Sim, continua. O Nuno Júdice fez uma leitura muito fina e profunda do livro. Diz que é um livro cheio de novidade, até na maneira de contar.»
VII- O papel das crianças é trazer a esperança e o futuro.
Tiveste um filho aos 83 anos e falaste assim do teu menino. «Ah, o meu António. Menino com talento para a pintura, o futebol, a natação, tanta coisa. Valentíssimo. Sai a mim. Não é provocador, mas se o empurram, vai soco que ferve. Sai ao pai, eu era valente ao soco! Fartei-me de andar à pancada. Porque andei no liceu Camões no tempo da [Segunda] Guerra. Havia os alianófilos, como eu, e os germanófilos. Entre nós havia cenas de pancadaria constantes.» (…)« Mas voltando ao meu filho.Tenho um texto escrito já há um tempo que se chama "Meu António Querido, quando fizeres dez anos vais ler estas palavras. Ocupa uma folha e explica quem eu fui, como eu gostava que ele me visse e como eu gostava que ele fosse. Para já está tudo bem, excepto que eu sou benfiquista e ele não. Foi um acontecimento extraordinário ter tido o António. Se o papel das crianças é trazer a esperança e o futuro? Direi que sim.»
VIII-O neofascismo na governação actual.
Sobre o actual momento que o teu país atravessa consideravas, e bem, que o governo de Passos é neofascista. «Porque está a limitar cada vez mais o direito à greve (e encontra formas de limitação). O Passos Coelho é um indivíduo pouco escrupuloso. Não correu ainda [Set.2012] com o Relvas porque estão ligados, os dois, em negócios sujos. Insultei o Sócrates quando ele esteve no Governo. Chamei-lhe vários nomes que apareceram na Internet. Trafulha, aldrabão, bandido, etc. Hoje acho que o Sócrates, comparado com o Passos Coelho, é uma pessoa com qualidades (…). »
IX-Crítico. Incómodo. Fidelidade ideológica.
Quer a bandeira do partido comunista sobre a urna? Foi-te perguntado o ano passado. «Quero, quero, quero. Absolutamente» respondeste, depois de teres afirmado: « (…) hei-de ser comunista até ao último instante!».O entrevistador insiste. Que significa esse ritual? «É uma ideia de felicidade que só pode ser assegurada pela pureza desse instante. (Deixe-me ver se consigo explicar isto melhor...) É o momento em que tudo se cristaliza, tudo o que há de belo se reúne. É o fim do fim”.
X- Obra e exemplo imortais. Inicio ou retoma de aprendizagem.
Não amigo Urbano. Não é o fim do fim. É o início ou a retoma para todos aprendermos, ainda mais, com a tua obra e o teu exemplo. Obra e exemplo imortais para os seres humanos que verdadeiramente amarem os princípios e os valores que deram corpo e alma à tua prosa, à tua poesia, à tua luta…
XI-A Lua no chão. Um borrão lindíssimo.
Por isso nesta nossa singela homenagem de amigo e ousando repetir o que disseste sobre o papel das crianças que é o de” trazer a esperança ao mundo” achei que me perdoarás citar o escrito da tua filha Isabel, no que é doce e terno , características tão tuas, este testemunho de amor e saudade por um pai especial e porque, como tu disseste, “é lindíssimo”.
I.F.« Lembro-me de um dia, por volta dos meus 7 ou 8 anos, ter recebido como presente uma caixa de guaches de todas as cores.
O desenho nunca foi o meu forte, mas julgo que nessa altura ainda não tinha tido oportunidade de chegar a essa triste conclusão e haviam-me criado condições para montar o meu pequeno atelier no quarto da costura da enorme casa dos meus avós.
Não sei que outras obras de arte teria feito antes, mas quando entraste na sala, nesse dia, estava eu a terminar o vestido radioso de uma menina que habitava uma paisagem campestre, cheia de árvores e flores. Era minha intenção acrescentar inúmeras bolinhas brancas à sua saia rodada, mas mergulhara desordenadamente o pincel na tinta e um enorme borrão tinha caído no chão do desenho, manchando também o meu momento. Tu aproximavas-te da secretária. Era tão raro visitares-me enquanto brincava!
Rodei as cerdas do pincel em círculos rápidos e meticulosos, de aparente concentração.— Que é isso — perguntaste. — Que estás a pintar?— Uma menina — disse, sem desviar os olhos do trabalho. — Uma menina no campo.—Ah, muito bem — ias concluir já de saída, quando um meio sorriso um pouco condescendente te reteve mais um pouco.— E isto? — quiseste saber, apontando para o borrão de tinta branca que eu não parava de aumentar.— Isto é a lua — respondi.
— A lua no chão? — estranhaste.— Sim, a lua no chão.
O teu rosto tornou-se então grave. Sério. — A lua no chão — repetiste.— Mas isso é lindíssimo! — e saíste triunfante, a folha de papel almaço entre as mãos, declarando naquele teu tom de voz quase em contralto que termina num murmúrio de verdadeiro êxtase:— Isto revela um imenso sentido poético! Dias depois o meu «quadro» surgia emoldurado. Andou por essa casa durante anos e anos. «A tua lua no chão» como sempre lhe chamaste. Ainda hoje penso muitas vezes se as coisas belas o têm de ser obrigatoriamente à partida — enquanto ideia, elemento estético — ou se podem construir-se no material dos erros, dos borrões, rodando as cerdas dos afectos em longos círculos de tinta branca. Criando luas. Julgo que sim. Mas julgo também que, para que tal aconteça, é necessário que alguém, alguma vez, tenha sido capaz de olhar para o nosso trágico engano, para a nossa pinta derramada do vestido, emoldurá-lo, dar-lhe um pedacinho de parede e murmurar nesse exagero alquímico dos afectos “Isto é lindíssimo!”
Eu tive essa sorte.» ( Isabel Fraga/tua filha)
A lua,de facto, está sempre no chão do céu...e nele passa um velho homem a cumprir a sua sentença divina...levar um fardo de lenha às costas...como bem se vê nas luas cheias... É um singelo desabafo meu, de choro contido e nó seco na garganta, meu querido Urbano.
XII- “Foste sempre aquele/ que nos mostrou/a urgência do sonho…e a liberdade”
E para terminar , por ora, partilho também, da lutadora e amiga comum, os versos que M.Tereza Horta te dedicou na tua partida:
«Foste sempre aquele/ que nos mostrou/a urgência do sonho/
O gesto solidário/o valor da palavra
Falavas de honra e amizade/
Contigo aprendemos/ a coragem/
Meu amigo de luta /e liberdade
XIII-O Dia Último e o Primeiro. Nenhuma Vida
«Há borboletas imóveis no colo da tarde. São promessas. Jovens altivos e duros, meia dúzia deles, parecem dizer, à maneira do Cristo da Justiça: não é a paz que vamos empunhar, mas a espada, a espada das nossas queixas, das nossas aspirações, de todos os sonhos que sufocámos.Aprende, rapariga que passas, bonita mas constrangida. O próprio ar te deseja e te força a baixar os olhos. Levanta-os, aprende a imensidão deste dia.»…[ em “O Dia Último e O Primeiro(1999)]
«Daqui me vou despedindo, pouco a pouco, lutando com a minha angústia e vencendo-a,dizendo um maravilhoso adeus à água fresca do mar e dos rios onde nadei,ao perfume das flores e das crianças, e à beleza das mulheres.» [do prefácio do teu ultimo livro a editar:”Nenhuma Vida”]
Sabemos como, na tua vida, te marcou o AMOR na criação e perca.
Mas nessas lutas-com derrotas e vitórias- foste sempre de corpo inteiro. É aí que, na nossa memória, tu-Amigo Urbano-ascendes à eternidade e à imortalidade. Na memória dos que quiseste que fossem teus queridos e teus amigos, na memória das tuas acções e da tua obra, no desempenho pelo cimentar do nosso Abril da Liberdade.
Todos deixaremos de estar cá. Que essa falta possa ser compensada, como no teu caso, pelas sementes que deram fruto. Pelas sementes que deixas para sempre, as do teu génio e trabalho, da tua doçura e afectividade e as do teu firme caráter e verticalidade, as de quereres um mundo melhor, mais solidário e verdadeiramente humano.
Ficamos mais pobres sem ti.Ficaremos mais ricos com a memória do teu estatuto e estatura, de ti e da tua obra.
Foi bom ter-te. Será bom manter-te entre nós. Os teus capitães de Abril e toda a gente de Abril te manterão vivo. Manteremos
Até já, Urbano amigo…
Manuel Duran Clemente
(10 de Agosto de 2013)
URBANO TAVARES RODRIGUES: escritor e sedutor indignado.
Pelo
falecimento de Urbano Tavares Rodrigues, no passado dia 9 de Agosto,
a Associação Conquistas da Revolução manifesta o seu pesar pela
perda de um enorme militante da luta antifascista e um dos mais
brilhantes escritores contemporâneos e mais relevantes expoentes da
nossa literatura. Sobre o homem e obra desta figura ímpar das nossas
letras e da sua acção revolucionária publicaremos o artigo “URBANO
Tavares Rodrigues…Até já amigo!”-do membro da nossa Direcção
e coordenador da nossa Folha de Informação, M.Duran Clemente,com
quem tinha uma particular relação de amizade como o próprio
descreve.
Neste
momento doloroso a Direcção da Associação Conquistas da Revolução
endereça aos familiares de Urbano Tavares Rodrigues profundas
condolências e toda a solidariedade na sua dor.
COMEMORAÇÂO DOS 230 ANOS DO NASCIMENTO DE SIMÂO BOLÍVAR
COMEMORAÇÂO
DOS 230 ANOS DO NASCIMENTO DE SIMÂO BOLÍVAR
Senhora
Ministra Conselheira, encarregada de negócios da República
Bolivariana da Venezuela
Minhas
senhoras e meus senhores
É para
mim uma grande honra estar aqui, hoje, Dia Internacional de
Solidariedade com a Revolução Bolivariana, na qualidade de
Vice-Presidente do Conselho Português para a Paz e Cooperação
(CPPC), para comemorar os 230 anos passados sobre o nascimento de
Simão Bolívar. Tanto mais quanto, para além de nos permitir
felicitar o povo da República Bolivariana da Venezuela na pessoa da
Senhora Ministra Conselheira, Margarita Mêndola, é também, e muito
particularmente, a oportunidade para uma vez mais sentirmos o pulsar
da revolução bolivariana, iniciada em 1998 com a eleição de Hugo
Chávez Frias.
Simão
Bolívar, militar e líder político venezuelano, nascido a 24 de
Julho de 1783,é uma das figuras mais ricas da História Universal.
Para os venezuelanos, para toda a América Latina, foi um herói,
revolucionário e libertador, tendo liderado o acesso à
independência da Bolívia, Colômbia, Equador, Panamá, Peru e
Venezuela .Foi também, um dos principais responsáveis pelo
lançamento das bases ideológicas democráticas na América Latina e
percursor na promoção da integração continental ao convocar, em
1826, o Congresso do Panamá considerado o princípio das
Conferências Pan- Americanas.
Um
Homem de ideias revolucionárias, um Homem muito à frente do seu
tempo. Um visionário e um sonhador.
A sua
visão do futuro está bem patente na frase seguinte, que lhe é
atribuída:
“O
novo Mundo deve ser constituído por nações livres e independentes,
unidas entre si , por um corpo de leis em comum que regulem os seus
relacionamentos externos.”
Dois
séculos passados, sabemos bem o preço que Humanidade já teve que
pagar e sabemos também o muito que ainda falta para lá chegar. A
Liberdade e a Independência conquistam-se na luta. Sabiam-no, Hugo
Chávez e seus companheiros, na Venezuela, como o sabiam os Homens do
MFA, em Portugal. Sabiam e sabemos todos que só os povos serão
capazes de vencer estes combates.
Ao
longo dos últimos 14 anos foram notórias as transformações
políticas, económicas e sociais na Venezuela. Todos os índices
demonstram que o desenvolvimento económico e que o progresso social
continuam na República Bolivariana da Venezuela. Prossegue a
extraordinária redução da pobreza. Prosseguem as políticas
sociais com a expansão da saúde pública gratuita para todos, da
educação pública gratuita, da cultura, da habitação e da própria
alimentação
Ao
longo de todo este tempo da Revolução Bolivariana, o povo cerrou
fileiras á volta do seu Presidente Hugo Chávez e derrotou todas as
tentativas dos inimigos da revolução, internos e externos. Logo em
2002, um golpe de Estado, é abortado, como abortadas foram as
tentativas de ingerência externa nos actos eleitorais que se lhe
seguiram, inclusive, nas últimas eleições que deram a vitória de
Nicolás Maduro.
A
Revolução Bolivariana venceu.
Em
Portugal sabemos bem, saber de experiência feita, o que custa a
Liberdade e a construção de uma vida digna para todos.
Os
poderosos predadores da Humanidade, sempre acolitados por “ amigos”
internos, não nos dão tréguas. Afinam e refinam as suas manhas e
disfarces e, volta não volta, aí estão: sempre com a conhecida
tática de vendedores de promessas, para, mal as gentes se distraiam,
começarem, como dizia o nosso poeta cantor “ A comer tudo, a comer
tudo e não deixar nada.”
É
assim que, hoje, os portugueses estão a ser expropriados dos seus
mais elementares direitos, tão duramente conquistados durante a
Revolução de Abril de 1974, a coberto duma política de austeridade
que nada mais é do que o empobrecimento forçado do país para o
tornar mais dócil á voragem da exploração e da agiotagem nacional
e internacional.
Nuvens
bem negras se perfilam no nosso horizonte. Ameaças sérias ao futuro
de Portugal, é certo, mas por entre elas o Sol, que já brilhou por
aqui numa madrugada de Abril, vai conseguir penetrar e acordar este
povo. E se o povo acorda, o povo vence.
Antes
de terminar seja-me permitido apresentar, em nome do CPPC, os nossos
agradecimentos à Direcção da Escola Profissional Bento de Jesus
Caraça, pela cedência das instalações e por toda a colaboração
prestada.
Termino
como comecei, felicitando, em nome do CPPC, o povo da República
Bolivariana da Venezuela e de toda a América Latina, pelo
aniversário do nascimento de Simão Bolívar e recorrendo a outro
nosso poeta, abranger neste abraço fraterno todos quantos, sabem,
como Simão Bolívar, sabia,
QUE O
SONHO COMANDA O MUNDO
José
Baptista Alves,Vice-Presidente do CPPC e membro da Direcção da ACR.
A Associação Conquistas da Revolução apoia a Greve Geral de 27 de Junho
A
“Associação Conquistas da Revolução”, face à gravidade do
momento que se vive no nosso país, declara total solidariedade com
as lutas entretanto desenvolvidas pelos trabalhadores, pela
juventude, pelos homens e mulheres de Abril, manifesta o seu total
apoio à greve geral convocada para 27 de Junho e apela à
participação dos seus associados e de todos os democratas em defesa
das conquistas soberanas do povo português na construção dum
futuro melhor, livre de ingerências e imposições estrangeiras.
A
progressiva destruição das conquistas de Abril é inaceitável e
obriga a recorrer às formas de luta adequadas no quadro
constitucional. Impõe-se, assim, fazer deste dia - de greve geral
contra o pacote de exploração e empobrecimento - uma grande
demonstração de repúdio ao violento e injusto ataque à dignidade
e independência dos portugueses e demonstrar a unidade dos
trabalhadores e do povo.
Defender
Abril. Conquistar o Futuro.
A ASSOCIAÇÃO CONQUISTAS DA REVOLUÇÃO regista hoje,18 de Junho de 2013, a passagem do segundo aniversário da sua constituição
Do Relatório e Contas,
relativo à nossa actividade de 2011 e 2012,podemos retirar a
seguinte passagem:
«Realizámos a 18 de
Junho a Assembleia Constitutiva da Associação
com a seguinte ordem de trabalhos:”A ACR e os seus
objectivos”,”Apresentação, discussão e votação da proposta
de Estatutos da Associação” e “Eleição da Comissão
Instaladora da Associação”.
Tendo estado presentes
151 aderentes foi eleita a Comissão Instaladora,
formada pelos mesmos membros impulsionadores que se constituíram,
desde do início do ano, como Comissão Promotora….
Esta Comissão
Instaladora ficou encarregada de proceder à escritura da ACR e de
preparar a Assembleia-Geral Eleitoral, ou seja, de executar todos os
actos até à instalação da ACR.
Ainda nesta
Assembleia foram aprovados os Estatutos da ACR e
a proposta de, neles, o General Vasco Gonçalves ser considerado
«sócio de mérito da Associação Conquistas da Revolução, a
título póstumo». Tal aspecto ficou consagrado no artigo sétimo
dos mesmos Estatutos.»
Através dos nossos meios
próprios de comunicação (blogue, correio electrónico e folha
informativa )e de algumas entrevistas temos divulgado a todos os
nossos associados e ao público em geral o desenvolvimento das nossas
acções e a planificação das que desejamos realizar no futuro.
Nestes dois anos
passados, as nossas acções têm procurado concretizar o programa
eleitoral ou seja «O nosso objectivo para o triénio 2012-2014 é
dar cumprimento aos estatutos da ACR e dar resposta às propostas que
satisfaçam a concretização do objecto fulcral da Associação: a
defesa das Conquistas da Revolução.O nosso combate irá orientar-se
no âmbito da Cultura, da Informação, da Luta pela Paz e Defesa da
Soberania, da Independência Nacional e da Solidariedade.»
«Pretendemos promover
em vários pontos do País todo o tipo de iniciativas culturais,
desde exposições, conferências, incentivando as actividades
teatrais, musicais, literárias e todas as que forem possíveis
recorrendo, entre outras, à experiência e meios ainda existentes,
utilizados nas Campanhas de Dinamização Cultural e Acção Cívica»
«A informação é um
instrumento fulcral para podermos entender a propaganda e manipulação
que nos rodeia, com recurso a todo o tipo de novos profetas que
tentam explicar-nos a razão das suas teorias com argumentos
previamente mastigados e formatados. »
«O que se passa no
mundo não nos deve ser estranho. Necessitamos de estar atentos aos
objectivos da estratégia de globalização que permite a
flexibilidade sem limites do capital, não considerando condições
de trabalho justas nem normas de segurança no trabalho, impedindo os
países mais fracos, como o nosso, de defenderem os seus direitos,
por exemplo sobre as pescas, agricultura, indústria e emprego.»
Estando a ser
confrontados com uma realidade desesperante «Ao Portugal de Abril –
momento mais luminoso da nossa história colectiva - sucedeu este
Portugal sombrio, negro, gerado por 37 anos de política de
sucessivos governos PS/PSD/CDS-PP: o Portugal do desemprego; da
precariedade; dos roubos nos salários e nas reformas; dos roubos nos
direitos laborais e sociais; das injustiças sociais e do aumento do
fosso entre pobres e ricos: da exclusão, da pobreza, da miséria e
da fome; do afundamento da economia nacional; da venda a retalho da
independência e da soberania de Portugal; do domínio absoluto do
poder do grande capital nacional e transnacional sobre o poder
político; de uma democracia precária, crescentemente carenciada de
conteúdo democrático e trazendo-nos todos os dias à memória o
tempo que «em Abril, Abril venceu».
É essa política da
contra-revolução - executada nas últimas quatro décadas por quase
uma vintena de governos da troika nacional, em frontal desrespeito
pela Constituição da República, fora da lei Fundamental do País
de há dois anos para cá, sob a batuta da troika ocupante - a única
responsável pelo estado de desgraça a que Portugal chegou.
É essa política de ódio
a Abril que urge derrotar e substituir por um política de sentido
oposto, logo inspirada nos valores de Abril.
Por isso….com a firme
convicção de que é nos valores de Abril - nas suas conquistas
políticas, sociais, económicas, culturais, civilizacionais - que se
encontra a solução para os muitos e graves problemas criados pelos
governos e pela política da contra-revolução. Com a certeza de que
a conquista de tal solução depende, no essencial, da luta dos
trabalhadores e do povo.
Com os trabalhadores e o
povo, com a intervenção organizada de todos os homens, mulheres e
jovens identificados com os valores de Abril, conquistaremos um rumo
novo para Portugal.»
Resta-nos neste dia
reafirmar que é nossa vontade, que é vontade dos órgãos sociais
desta Associação, mantermos firmes e coesos na defesa das nossas
conquistas de Abril em sintonia e colaboração com todos os nossos
associados a quem ,neste aniversário, prestamos a nossa fraterna e
solidária homenagem.
Abril
vencerá! Porque Abril é o futuro.»
Intervenção de Manuel Bacelar Begonha Presidente da ACR na Romagem à campa do General Vasco Gonçalves
Estamos aqui para
evocar o General Vasco Gonçalves no 8º aniversário da sua morte.
Quanto vale a vida de
um homem? Julgo que vale pelo seu sonho e pela sua obra. Conhecemos o homem
quando com ele contactamos frequentemente e lhe podemos apreender o projecto,
ou quando conhecemos o seu reflexo através da sua obra.
Conhecer Vasco
Gonçalves é tomar contacto com uma natureza motivadora que leva a uma nova
consciência e a uma melhor compreensão do nosso meio social. Muitos de nós o
ouvimos falar e certamente nos deixámos empolgar. Como escreveu o professor
Teixeira Ribeiro: "Pois é principalmente isso - a simplicidade, a
sinceridade e o entusiasmo - tudo junto em doses extremas, que faz Vasco
Gonçalves um caso à parte na nossa oratória política."
Com Vasco Gonçalves
vivemos a única época da nossa história moderna, em que as pessoas acreditaram
que seria possível mudar a vida pelas suas próprias mãos.
Hoje estão-nos a
retirar a vida pelas mãos de uma Europa vingativa que nos quer fazer expiar
pelo crime de termos sido marcados por um governante, Vasco Gonçalves, que nos
deixou o seu mais importante legado que são as conquistas sociais e políticas
que foram conseguidas durante a Revolução.
Para seguir os seus desígnios
essa Europa encontrou um governo que se rege pelo total desrespeito pela
Constituição da República e pelo povo português. Partidários da austeridade destroem a economia.
Coniventes com a corrupção e com o grande capital financeiro, não se regem por
uma justiça independente. Amigos da opacidade escondem os seus objectivos e a
forma como os atingem, simulando não ter rumo.
Contrariamente à
política patriótica e de defesa da dignidade do homem, seguida por Vasco
Gonçalves, - a quem se pode atribuir individualmente a maior responsabilidade
pelos acontecimentos mais importantes dos nossos dias, - este governo tenta
impor um clima de medo e de incerteza para mais facilmente impor a violência
das suas medidas, prioritariamente sobre os mais desprotegidos, os funcionários
públicos, os pensionistas e os reformados. A sua óptica de reforma do Estado,
passando por cima dos desempregados e dos jovens, não é mais de que o
desmantelar do Estado Social. Este deverá então ser substituído pela prática da
caridade.
Com Vasco Gonçalves o
governo era uma promessa de um país decente, fraterno e progressivo. O
presente, é um factor de instabilidade, especializado em tornar medidas
provisórias em permanentes, insistindo em
forçar a aprovação de decisões anti-constitucionais.
Vasco Gonçalves era
detentor de uma capacidade de empatia, irrepetível e inimitável, defensor
intransigente do carácter, da cultura e da liberdade.
Era um revolucionário
no pleno sentido da palavra, sempre fiel às suas convicções que mergulham
profundamente nas aspirações do povo. Sempre se apercebeu da importância da
defesa da Constituição da República, tendo afirmado: "O essencial da
Constituição Portuguesa está de acordo com as grandes transformações
revolucionárias operadas no decurso do nosso processo revolucionário. A essas
transformações chamamos Conquistas da Revolução e uma delas é a própria
Constituição!" e ainda "A defesa da Constituição Portuguesa é,
portanto, a defesa das conquistas da nossa Revolução e, assim, a defesa do
direito dos povos à livre escolha do seu regime político e cultural."
Hoje em dia, o governo
não tem um compromisso com o povo português, baseado na confiança e na
credibilidade; sucedem-se as humilhações ao país como a patética subserviência
à Alemanha e os atentados à soberania nacional, com o apoio empenhado do Presidente
da República, que não consegue cumprir o papel de defensor da Constituição,
prisioneiro que está das suas inseguranças e contradições.
Parecem estar apenas à
espera de um novo ciclo histórico que traga outros ventos para a Europa,
enquanto o país se vai degradando. São um corpo estranho a Portugal estando ao
serviço do Capital financeiro global.
O que presentemente se
observa é ser o governo constituído por uma coligação assimétrica ou de
geometria variável em que um dos partidos, o PSD apenas se interessa por uma
carreira europeia e o outro, o CDS em não perder votantes para as eleições
internas, assim pautando o seu caminho.
Todas as simulações,
mentiras e tergiversações fazem com que o Governo se mova num teatro de sombras
em que as personagens vão mudando e se esfumam até se transformarem noutras.
Passos Coelho de Átila o Reformador, transmuta-se em Conde Drácula; Portas o
nóvel Maquiavel, passa a Cavaleiro da Triste Figura, enquanto que Gaspar o
mágico da bola de vidro surge como o Grilo Falante da Troika. Assim, recorrendo
às artimanhas do disfarce e do teatro de fantoches, vão produzindo um
espectáculo deplorável, até ao fechar do pano, num palco vazio e sem luz.
Pelo contrário, a
política económica e financeira dos Governos de Vasco Gonçalves era clara e
transparente. Assim, no Relatório Análise e Projecção das Condições
Macroeconómicas em Portugal, de uma missão a Portugal patrocinada pela OCDE e
levada a cabo, entre 15 e 20 de Dezembro de 1975, por três elementos do
Departamento de Economia do MIT, pode ler-se o seguinte: "Para um
observador exterior lendo apenas as tabelas estatísticas nacionais sem uma
palavra acerca da revolução social, o registo do último ano e meio em Portugal
não parece diferente do resto da Europa, com algumas diferenças intrigantes.
Mas os maiores impactos de uma reduzida produção e investimento, deficites da
balança de pagamento e inflação todos parecem familiares e em alguns aspectos
menos sérios para Portugal do que em alguns dos outros países da Europa
Ocidental." E mais adiante "Para um país que recentemente passou por
uma reforma social, uma enorme mudança na sua posição de mercado externo e seis
Governos Revolucionários nos últimos dezanove meses, Portugal goza de uma
inesperada boa saúde económica."
Apesar de amado pelo
povo era anti-populista, não gostando de exibições, mantendo-se sóbrio e
discreto, sendo no entanto capaz de enfrentar as situações adversas com
franqueza e frontalidade, vencendo por vezes a sua timidez com um grande e
efusivo entusiasmo quando pugnava pelas Conquistas da Revolução de Abril. No
livro Companheiro Vasco, escreve--se: "Este General sem basófia,
que tanto aprecia o concreto e o real, este antimaquiavel sereno e irredutível
recusa afável mas definitivamente qualquer asserção passível de cheirar a culto
de personalidade".
Este General que
reconheceu que "o período mais feliz da minha vida, aquele em que me senti
mais realizado foi o período em que fui Primeiro Ministro. Foi o mais criador
da Revolução e é desse período que tenho as maiores compensações."
Para voltar à questão
inicial de avaliar quanto vale a obra de um homem a quem se ficou a dever a
materialização de muitos dos ideais revolucionários de Abril, importa agora
aprofundar o seu pensamento e o sentido do seu combate, seguindo as suas
próprias palavras:
"Para mim é
gratificante o facto de ter despertado sentimentos tão contraditórios porque
isso significa que a política de que procurei ser obreiro estava no caminho
certo da libertação das classes mais desfavorecidas da nossa sociedade, dos
pobres, dos humildes, dos explorados e dos que não têm voz, embora muitos,
talvez a maioria, não tivessem consciência disso.
E estava no caminho
daqueles que, não pertencendo às classes mais desfavorecidas, se identificaram
com os interesses e as suas justas aspirações, que estavam com os interesses da
nossa Pátria, que é o nosso povo."
Como esta posição se
aplica aos dias de hoje.
Daquilo que ficou dito,
veio-me entretanto à memória, a propósito da figura e obra de Vasco Gonçalves,
o poema de Sidónio Muralha:
"Com os pés na
terra,
a quilha que singra,
o arado que rasga,
o rasgo que cria,
vimos o começo,
e o fim dos tiranos,
que outros alarguem
nosso gesto rude
de semeador."
Vasco Gonçalves era de
facto um semeador.
Desde a honestidade
intelectual à firmeza nas convicções, semeou um projecto de liberdade para o
futuro de que não abdicaremos. As pétalas dos cravos de Abril estão a
soltar-se, algumas poderão ser levadas pelos ventos do esquecimento, mas a
semente foi lançada muito fundo, as suas raízes continuarão a iluminar o nosso
pensamento e outros cravos renascerão puros e fortes empunhados pelos nossos
filhos.
VIVA O GENERAL VASCO
GONÇALVES
VIVA PORTUGAL
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