A Ideologia Neoliberal no Orçamento de Estado de 2013






Debate promovido pela ASSOCIAÇÃO CONQUISTAS DA REVOLUÇÃO e realizado no passado dia 29,pelas 18h00, na Casa do Alentejo.
Foram oradores o Dr.Fernando Marques e Prof.Dr. António Avelãs Nunes conforme largamente anunciado, tendo tido como moderador o engenheiro e capitão de Mar e Guerra, Manuel Begonha, presidente da Associação.
Apesar da hora e de ser mais um dia de manifestações populares, contra as políticas do governo PSD/CDS, o salão encontrava-se praticamente cheio. Merecem por isso os nossos agradecimentos os que compareceram com o pedido de desculpas pelo contratempo técnico manifestado nas deficiências no sistema de som.
Dada a importância do tema aqui se deixa lavrado o que de essencial se poderá reter das respectivas intervenções.

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Assim Fernando Marques fez um paralelo entre a actual política orçamental e politica de austeridade deste Governo. Referindo que efectivamente a divida pública terá atingido um nível insuportável não só com a sua deterioração entre 2007 e 2011 mas também agravando-se com as medidas do apelidado plano de reajustamento. Estando em causa a imposição da troika também contribui para tal agravamento a forma submissa como o governo português tratou tão delicado problema. Dir-se-á mesmo que os governantes, foram além do que lhes era imposto, manifestando uma insensibilidade absoluta perante a realidade do nosso xadrez económico e do quadro social existente. Contrariamente ao que fazem constar, os poucos adeptos destes gestores políticos, havia alternativas a estas políticas. Os prazos podiam ser maiores e os juros menores. Cortar em despesas que sejam visivelmente gorduras do Estado e renegociar a história das P.P.P..

Assistimos assim a uma ainda mais acentuada viragem da politica da U.Europeia: reduzir salários e pôr em causa o Estado Social…e sem crescimento económico. As consequências estão à vista nesta proposta do OE para 2013 : continua o espectro do agravamento da austeridade e do recrudescer da recessão da economia e os números saltam, com uma taxa de desemprego nunca antes vista (mais de 650.000 desempregados) e uma dívida pública que atingirá, em breve, os 120% do PIB. [Tenha-se em conta que na Grécia quando foi atingido este limite foi justificado o corte da mesma.]

Preocupante é ouvir da parte do governo que agora (no final de 2012) constituiu para si uma surpresa a evolução negativa do emprego, da recessão e do aumento da dívida pública após as já fortes medidas de austeridade a que os portugueses foram sujeitos nestes dois últimos anos!

Se houve surpresa não se percebe como é que o OE/2013 vai corrigir os maus resultados mantendo a teimosia do pseudo remédio da austeridade impondo a mais brutal carga fiscal aos portugueses?

Na quarta-feira passada foi divulgado o relatório do 5º exame da troika.O mesmo relatório técnico salienta, curiosamente, que os riscos hoje são maiores que há um ano.

Destacamos, esses riscos:
1º-A crise na zona Euro agravou-se, alargando-se. Quais os efeitos em Portugal da crise em Espanha?
2º-A recessão pode ser maior devido à austeridade. Continua a aplicar-se um remédio que agrava a doença.
3º-As famílias procuram diminuir as suas despesas e contribuem para a diminuição da economia.
4º-A crescente resistência politica e social tira capacidade de manobra à sustentação destas políticas ruinosas, onde por cada 1 euro de austeridade se perde 0,8 euros de crescimento.

O orador salientou, por fim, que fase a pressão tremenda de deslocar os impostos para a despes, aparece um propalado Plano B  que surgiu nos últimos dias aflorado pelo governo. Significa que já prevendo que a receita da austeridade só vem agravar a situação é agora colocado um novo espectro ou seja a proposta dum corte ,não temporário mas definitivo, de 4.000 milhões de euros na despesa. Afirmando mesmo que não podem haver áreas sagradas como a Saúde, a Educação…a Segurança Social… vê-se com nitidez que o que está em causa é mesmo desmantelar o Estado Social.

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O Professo Doutor António Avelãs Nunes, também presidente da mesa da Assembleia Geral desta Associação, baseou a sua intervenção procurando, numa primeira fase  explicar as raízes e o desenvolvimento até aos nossos dias da ideologia NEOLIBERAL que parece ter tomado conta dos novos e velhos poderosos e numa segunda fase explicar o que se passa a nível da Europa comunitária.

                                                   A ideologia neoliberal.

Os trinta anos imediatamente posteriores a 1945 proporcionaram, em especial na Europa e no EEUU, taxas de crescimento económico relativamente elevadas e níveis aceitáveis de desemprego sem pressões inflacionistas preocupantes. Estes resultados, em regra associados às políticas activas de inspiração keynesiana  e à presença do estado economia convenceram alguns de que a ciência económica tinha descoberto a “cura” para os “vícios” que Keynes atribuíra ao capitalismo (a possibilidade de desemprego involuntário e a desigualdades muito acentuadas).Falou-se da “obsolescência dos ciclos económicos” e celebrou-se a mirífica conquista do capitalismo post-cíclico ou capitalismo sem crises.

No início da década de setenta do século passado, o mito caiu por terra. Em Agosto de 1971, a administração Nixon rompeu unilateralmente o compromisso assumido em Bretton Woods de garantir a conversão do dólar em ouro à paridade de 35 dólares por onça troy de ouro, passando-se de seguida, por pressão dos EEUU e com o aplauso da irmandade dos bancos centrais, ao regime de câmbios flutuantes.

Pouco depois no meio da primeira crise do petróleo (1973-1975) surgiu a “estagflação”. Contrariando o modelo histórico das crises do capitalismo, este estranho fenómeno (ou paradoxo) veio mostrar que as crises cíclicas continuavam a fazer parte da vida do capitalismo e que , no quadro de um capitalismo altamente monopolizado, podiam perfeitamente coexistir situações caracterizadas por taxas elevadas e crescentes de inflação e taxas de crescimento do produto próximas de zero ou mesmo negativas (acompanhadas de taxas de desemprego significativas).Fenómeno novo, a estagflação, deixou perplexos e algo desorientados os defensores das teorias e das politicas keynesianas.

Os neoliberais aproveitaram a ocasião e, numa operação relâmpago de propaganda ideológica sem paralelo, colocaram Keynes, o “estado keynesiano”  e as políticas keynesianas no banco dos réus, culpando-os de todos os males do mundo, a inflação e o desemprego. Foi o início da “contra-revolução monetarista” ,cujo triunfo fulgurante se traduziu na imposição dos dogmas neoliberais como  a ideologia do pensamento único, significando, a este respeito, o regresso a concepções sobre a economia e sobre o papel do estado que depois de Keynes, se julgavam definitivamente mortas e enterradas.

Após o desmantelamento da URSS os neoliberais de todos os matizes convenceram-se, mais uma vez, de que o capitalismo tinha garantida a eternidade, podendo regressar impunemente ao “modelo” puro e duro do século XVIII.

Reinventando o estado mínimo, o estado capitalista muniu-se de outras armas, para cumprir o seu papel nas condições históricas das últimas três a quatro décadas. Antikeynesiano, apostou na privatização do sector público empresarial; na destruição do estado-previdência, na criação das condições para a hegemonia do capital financeiro; na plena liberdade de circulação de capitais; na liberdade absoluta da “indústria” de produtos financeiros derivados; na independência dos bancos centrais, senhores absolutos da política monetária, retirada da soberania dos estados e posta ao serviço exclusivo da estabilidade dos preços; na desregulamentação dos mercados; na redução dos salários reais e dos direitos dos trabalhadores, em nome de uma pretensa competitividade; na flexibilização e desumanização do Direito do Trabalho.

Foi o reino do deus-mercado, foi a vitória do capitalismo de casino, foi a assunção (sem disfarce) do capitalismo como a civilização das desigualdades. A política de globalização neoliberal, apostada na imposição de um mercado único de capitais à escala mundial, assente na liberdade absoluta da circulação de capitais, conduziu à supremacia do capital financeiro sobre o capital produtivo e à criação de um mercado mundial da força do trabalho, acentuando a exploração dos trabalhadores(graças ao  aumento de reserva de mão-de-obra) e as ameaças do fascismo amigável e do fascismo de mercado, de que falavam já, no inicio de 1980, B.Gross e P.Samuelson.

Teoricamente, pode falar-se-com acerto- de substituição da política pelo mercado, ou de morte da política, tal como a entendemos. Mas pode dizer-se também que, em certo sentido, esta é uma outra forma de fazer política, porque, tal como o estado, o mercado é uma instituição política.

Vêm-se esforçando alguns por nos convencer de que a globalização é uma inevitabilidade (sem alternativa). Entendo que é uma interpretação conscientemente falseada e assumidamente perversa. Esta globalização neoliberal, longe de ser uma consequência resultante da revolução científica e tecnológica operada na segunda metade do século XX, é, antes de tudo e acima de tudo, um projecto político, levado a cabo de forma consciente e sistemática pelos grandes senhores do mundo, apoiados, como nunca antes na história, pelo poderoso arsenal dos aparelhos produtores e difusores da ideologia dominante, responsáveis pelo totalitarismo do pensamento único.

A «ordem económica neoliberal (conhecida por globalização neoliberal) foi imposta a todo o mundo a partir dos principais países capitalistas do centro para os países menos desenvolvidos da periferia, muitas vezes à custa de severas crises na Ásia e na América Latina durante os anos de 1990 e depois de 2000.Como em qualquer estádio do imperialismo, os principais instrumentos destas relações internacionais de poder, para além da violência económica directa, são a corrupção, a subversão e a guerra. O principal instrumento político é sempre o estabelecimento de um governo local amigo. A colaboração das elites do país dominado é essencial, bem como, no capitalismo contemporâneo , a acção de instituições internacionais como a NATO, o FMI, o Banco Mundial e a OMC.»(in “The crisis of Neoliberalism”).

Hoje é muito claro que o elemento fundamental para a caracterização da globalização neoliberal é a hegemonia do  capital financeiro, justificando perfeitamente o epiteto de capitalismo de casino. A especulação acentuou a instabilidade e a incerteza, o que significa um agravamento dos custos de funcionamento da economia.

Por outro lado, só os grandes conglomerados transacionais têm beneficiado com a baixa dos custos de financiamento directo, porque só eles têm acesso à utilização plena dos novos instrumentos financeiros. À margem dos ganhos do “mercado livre” têm ficado as pequenas e médias empresas (que constituem, na generalidade dos países, a base da estrutura produtiva e do emprego) e têm ficado também os países mais fracos e menos desenvolvidos, muitos deles enleados na teia da dívida externa, uma espécie de “prisão perpétua por dívidas “.

Todo o edifício da globalização neoliberal foi obra construída por políticas activas orientadas para alcançar os resultados que agora estão perante nós.
A aceleração do processo de inovação financeira traduziu-se no desenvolvimento dos mercados de produtos financeiros derivados. Chamam-lhe produtos para criar a ilusão de que resultam de uma qualquer indústria ou de outra actividade produtiva, mas essa é uma designação nada inocente, falsa e enganadora. Trata-se de produtos virtuais, cujo valor global se calcula em cerca de mil biliões de dólares (o equivalente a vinte anos de produção mundial ! )mal conhecidos ,que não têm qualquer relação com a economia real e com as actividades produtivas (criadoras de riqueza).

Tais produtos ameaçam transformar-se em “armas de destruição maciça” e são eles que consubstanciam o risco sistémico de desmoronamento do sistema financeiro à escala mundial. Mais uma razão para que os governantes de serviço se preocupassem com o seu desmantelamento. Não há sinais , sequer, de que estejam a pensar nisso.
As crises recorrentes das últimas décadas foram claros anúncios da crise actual. As desigualdades sociais potenciam estas crises, porque a especulação financeira tem sempre gerado crises, ao longo da história do capitalismo. Tal como em 1929, 1% dos mais ricos entre os americanos detinham, em 2007-2008, 20% do rendimento nacional, tal como agora se verificou, a grande depressão foi precedida dum período de intensa actividade especulativa liderada pelo grande capital financeiro.

Perante a crise vieram alguns defender que esta é uma crise do neoliberalismo e não do capitalismo. Parecia que os gestores do capitalismo tinham redescoberto o “salvador” e estavam disponíveis para um regresso a Keynes. Mas ele veio recordar os dois vícios fundamentais do capitalismo: (1) ocorrência de desemprego involuntário,(2)as enormes desigualdades na distribuição do rendimento. Advogou a necessidade de combater estes dois vícios que punham em causa a paz social indispensável ao funcionamento do capitalismo dentro das regras da democracia politica!

Ora o que todos os governos da União Europeia estão a fazer é precisamente o contrário: as políticas neoliberais que prosseguem provocam recessão, aumentam o desemprego, reduzem duramente os rendimentos dos mais pobres e aumentam as já gritantes desigualdades sociais. Keynes acreditava na socialização do investimento, sem necessidade de revolução. Nunca foi um revolucionário. Ele tinha ideia de que havendo capital abundante baixariam as taxas de juro (para zero) nos próximos 25 anos. Diferentemente as politicas que têm vindo sendo levadas a cabo nas últimas décadas por todos os defensores da cultura dominante de  matriz neoliberal empenham-se activamente em criar condições favoráveis à especulação e em proteger os que vivem das “rendas” da especulação bolsista, das “rendas” da especulação imobiliária e de todas as rendas de tipo feudal garantidas pelo estado capitalista , agora na veste de “estado garantidor”.

Por isso voltaram a enterrar Keynes ,sem lhe dar tempo para ressuscitar.
Ora o neoliberalismo não existe fora do capitalismo, antes corresponde «a uma nova fase na evolução do capitalismo». O neoliberalismo  é o capitalismo na sua essência de sistema assente na exploração do trabalho assalariado, na maximização do lucro, no agravamento das desigualdades.

                A crise na Europa alimentada pelas politicas neoliberais.
Como é sabido, a consolidação do mercado interno, a construção da União Económica e Monetária e a densificação  da União Europeia têm-se traduzido, para os estados-membros, na perda de soberania. E esta perda tem sido agravada pela alienação do sector empresarial do estado, que retira aos estados nacionais qualquer possibilidade de actuação directa na economia enquanto empresários com presença relevante nos sectores estratégicos, com fortes efeitos na irradiação em outro sectores da economia.

No quadro da UEM, o euro é uma moeda sem estado, a moeda de um espaço  que não tem um parlamento nem um governo dotados de legitimidade e de competência para definir políticas e meios para as executar. Não tem por isso mesmo uma política económica integrada, nem um orçamento suficientemente forte para ter efeitos redistributivos, nem tem uma política fiscal minimamente harmonizada, nem assume uma divida comunitária. E o BCE em vez de ser um  verdadeiro banco central capaz de ajudara resolver os problemas de financiamento dos estados-membros da zona euro, mais parece uma espécie de arcebispo da “igreja neoliberal” na Europa, piamente empenhado em actuar de forma a consolidar a sujeição dos estados nacionais ao deus-mercado.

Com a criação do euro, vários países adoptaram a moeda única com paridades que sobrevalorizaram muito as moedas nacionais substituídas pelo euro. Estes países- entre os quais Portugal-passaram a exportar em moeda forte, o que tornou mais caros os seus produtos.

No contexto europeu a Alemanha foi o país que mais beneficiou, aproveitando ainda a baixa do preço do petróleo em euros. Estas vantagens ajudarão a compreender que a balança das transações correntes da Alemanha (negativa em 1991),ano da anexação da RDA, começasse a registar saldos positivos logo em 2002,dois anos depois da entrada em circulação do “deutsche euro”.

Para países como Portugal, que exportam essencialmente produtos de baixa tecnologia e de fraco valor acrescentado, a valorização do euro significou, só por si, um aumento de 34,5 % do preço dos produtos portugueses. Resultado: dentro da lógica da UEM, a estes últimos países, quando afectados por crises graves, só resta acatar a ortodoxia monetarista, que impõe o sacrifício do crescimento económico, o aumento do desemprego, a privatização das empresas públicas (ainda por cima a preços vis), a redução do investimento público, a redução dos direitos sociais dos trabalhadores, o congelamento ou a diminuição dos salários e das pensões de reforma.

Esta política de salários baixos tem-se traduzido na degradação de vida dos trabalhadores europeus. E porque a Alemanha não quer, que à escala europeia a soberania dos estados nacionais exista e conte,  a UEM tornou-se num negócio da Alemanha. A emissão de títulos de dívida (os famosos euro-bonds ou euro-obrigações) poderia aliviar a pressão e permitir a defesa do euro perante os ataques especulativos, com o contributo de todos e não apenas à custa do sacrifício dos que são o elo mais fraco. O Parlamento Europeu , em Fevereiro de 2011, chegou a defender a criação de uma instituição permanente na EU com a responsabilidade de emitir e gerir euro-obrigaçôes. Mas a Alemanha negou. É esta a democracia no seio da U.E.!

Tal como os estados nacionais a EU não pode ser dominada pelos bancos; tem que ser ela a dominar os bancos e a começar pelo BCE.É necessário impedir que o mercado substitua a política mas libertar a política dos dogmas neoliberais que tudo subordinam ao mercado.

No inicio de 2010 o Conselho Europeu proclamou a prioridade ao combate ao desemprego. Toda a gente entendia que não podia ser de outra maneira. Até 2008 a dívida pública da generalidade dos países europeus tinha crescido moderadamente ao contrário do que se verificava com a divida privada (empresas e famílias).

[Em Portugal e em outros países, uma boa parte dessa dívida externa privada (contraída pelos bancos e pelas grandes empresas) foi para financiar sectores de bens não transacionáveis (infra-estruturas rodoviárias, energia, hospitais, telecomunicações) propiciadores de “rendas”, nos quais apostaram, solidariamente, os grupos financeiros e os grandes grupos económicos. A divida pública começou a crescer em 2008, graças às dispendiosas operações de salvamento da banca e do sistema financeiro em geral, operações que se traduziram (e continuam a traduzir-se) na transformação de dívida privada em dívida pública.]

Voltando à UEM, verifica-se que a Alemanha (que produz ¼ do PIB da zona Euro), no principio dos anos 2000,com o chanceler Gerhard Shoroder, resolve pôr em prática uma estratégia exportadora decidindo que para aumentar a competitividade externa se torna imperioso diminuir os salários reais e os direitos sociais dos trabalhadores. E, assim acontecendo, a Alemanha foi o país da OCDE em que os salários progrediram mais lentamente entre 2000 e 2009.Parece inquestionável que a “solução alemã” assente num modelo de crescimento semelhante ao chinês - «crescer com base nas exportações, potenciadas pela baixa de salários reais» - não serve os interesses dos trabalhadores alemães que sofreram a diminuição do seu poder de compra e um grande aumento de desigualdades. Não obstante os seus efeitos nefastos tal propósito de Shoroder tornou-se uma verdadeira cartilha no contexto europeu. Tanto mais que vedado o recurso à desvalorização da moeda, ganhou força a tese dos que (aplicando cegamente os cânones do neoliberalismo) sustentam há anos que a redução dos custos do trabalho é o único factor capaz de permitir ganhos de competitividade capazes de impulsionar o aumento de exportações e a reanimação da economia europeia. E é neste sentido que ,com a cumplicidade dos estados membros, a EU resolve adoptar o Pacto Euro Mais, que aponta claramente para o desmantelamento da contratação colectiva.

[No que toca a Portugal a troika, após mais uma visita de inspecção  (em Junho de 2012), apresenta mais uma imposição  “ser urgente mais medidas para melhorar o funcionamento do mercado laboral”. Como quem diz: para garantir as margens de lucro do capital é indispensável continuar a agravar a exploração dos trabalhadores.]

Nos países mais débeis da Europa, a política de redução dos salários reais é, a todas as luzes, uma política de classe particularmente bárbara, uma espécie de “genocídio civilizado”, que generaliza a miséria e acentua ainda mais as desigualdades dentro do espaço europeu, sacrificando friamente o princípio da harmonia no progresso e a coesão social, um dos objectivos originários do projecto de integração europeia.

[Tomando o exemplo de Porugal, os custos de mão-de-obra representam muito pouco em termos de custos globais de produção e não é aqui que reside a falta de competitividade da economia portuguesa. Pesam muito mais os custos de energia, os custos do crédito, os custos dos transportes, os custos derivados da corrupção, os custos da burocracia e da ineficiência do sistema judiciário. Todos sabemos que  em comparação com outros países da Europa o lugar de Portugal, em termos de produtividade da mão-de-obra, justificaria um aumento do nível dos salários e não a sua diminuição, já que o peso dos custos do trabalho por hora é muito inferior ao registado em outros países da EU.]

Ao contrário do que poderá pensar-se, as exportações não são o elemento preponderante na saúde da economia da Europa como um todo. Para crescer algo que se veja, a Europa precisa de fazer crescer a procura interna .E esta, em tempos de crise, só pode ser estimulada pela despesa pública, nomeadamente pelo investimento público.

Assim sendo, a persistência na estratégia de generalizar a todos os países da EU as politicas neoliberais de baixa do poder de compra dos salários, ao provocar a diminuição da procura global em toda a Europa, só poderá agravar a “crise geral de sobreposição”, conduzindo a taxas negativas de crescimento económico e ao aumento do desemprego. A Europa nunca conseguirá ganhar na concorrência com as chamadas economias emergentes, onde os salários são incomparavelmente mais baixos.

Acresce que a UEM é o maior bloco comercial do mundo, e uma crise generalizada na Europa implicará uma redução das suas importações, o que pode provocar uma grave crise à escala mundial. Os que pretendem sair deste “buraco” pela via das exportações terão de inventar mercados, que não se descortinam facilmente.

[Se olharmos para o caso português vemos que as politicas das troikas já acrescentaram cerca de 200.000 desempregados, aos registados antes, e levaram à emigração milhares de jovens. Em Portugal o desemprego só não aumenta quando o PIB cresce a uma taxa mínima de 2,7 % ao ano. Se não se mudar de política, está longe uma taxa de crescimento da economia desta grandeza. Ora se a economia não crescer ( e a taxas relevantes) , a divida não poderá ser paga a não ser contraindo mais divida ( a taxas de juros mais elevadas) para pagar a divida anterior.Com a economia em recessão o aumento das taxas de impostos não só não trazem mais receitas fiscais como estas diminuem. Os dados de execução orçamental disponíveis, relativamente a 2012, parecem anunciar que Portugal já chegou a este ponto de efeitos perversos.]
Os pesados sacrifícios que estão a ser impostos aos povos da Europa visam apenas garantir que os credores (os grandes bancos dos países dominantes) possam receber todos os seus créditos e visam, sobretudo, ajudá-los a sair do buraco em que se meteram graças à irresponsabilidade (criminosa) da sua gestão.

[Em Portugal,  os Orçamentos de Estado para 2012 e para 2013,traduzem-se num ataque sem precedentes aos direitos e às condições de vida dos que vivem do seu trabalho ou das suas pensões. Portugal é um dos países mais desiguais da Europa e, segundo a Comissão Europeia é agora, o país da EU onde as políticas de austeridade mais sacrifícios têm imposto aos pobres e menos têm exigido aos ricos.

O empréstimo concedido a Portugal, pela troika, é de 78.000 milhões de euros.
Deste dinheiro uma fatia de 12.000 milhões é destinada a financiar o reforço de capitais dos bancos privados. Mas o povo português que é obrigado a financiar estes bancos não adquire o estatuto de accionista, ficando afastado da sua gestão! Nada se exige aos bancos como contrapartida, ao menos concederem crédito à economia.Com esse dinheiro fresco a banca privada vai continuar a beneficiar dum regime fiscal escandalosamente amigo e a fazer o que sempre tem feito. Ganhar muito dinheiro em negócios  alheios às necessidades da economia portuguesa; facilitar a saída de capitas (próprios e alheios) para os paraísos fiscais; arrecadar a parte que lhes cabe nas rendas das PPP; embolsar as comissões régias cobradas ao estado pela preparação de operações de privatização.

Outra fatia de 35.000 milhões de euros deve ser reservada para concessão de garantias pelo estado português à emissão de obrigações pela banca privada, que, sozinha não tem crédito a praça, apesar do muito dinheiro que tem ganho.
Os juros e comissões a pagar levarão mais de 34.000 milhões de euros, quase metade do valor do empréstimo.
E chamam a isto ajuda!!!!]

A agudização da situação na Grécia(mas também a evolução da crise em Portugal e na Irlanda e mesmo na Espanha e Itália) obrigou a acelerar os trabalhos para a revisão do Tratado de Lisboa, que acabou por concretizar-se, de modo muito pouco ortodoxo, através do chamado Tratado de Estabilidade, Coordenação e Governação na União Económica e Monetária(TEGG) assinado em Bruxelas em 2 de Março de 2012.Sem o mínimo de pudor o “tratado” não resiste à tentação de legislar aquilo que sabe não corresponder à verdade :«o mecanismo de correcção previsto respeita integralmente às prerrogativas dos parlamentos nacionais».Sem qualquer recato ,o “tratado” vem atribuir novas competências à Comissão Europeia e ao Tribunal de Justiça da União Europeia (que são instituições da EU), apesar de tal tratado não ser subscrito por alguns estados-membros da EU. De acordo com uma nova regra agora inventada ,o Tratado considera-se ratificado e entrará em vigor desde que seja ratificado por 12 dos 25 estados que o subscreveram.

Este tratado não é mais do que efectivamente um verdadeiro “pacto colonial” em que o neoliberalismo se impõe  como uma verdadeira ditadura da burguesia, sem concessões, mais especificamente: a ditadura do grande capital financeiro!
Para sairmos desta caminhada vertiginosa para o abismo, é necessário evitar que o mercado substitua a politica , que as “leis do mercado” se sobreponham aos normativos constitucionais e que o estado democrático ceda o lugar a um qualquer estado tecnocrático.

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Não tendo havido pedidos para debate o presidente da Associação deu por encerrada a sessão com os agradecimentos aos brilhantes oradores , à Casa do Alentejo e a todos os presente!!! 

Lisboa ,29 de Outubro de 2012

A Ideologia Neoliberal no Orçamento de Estado de 2013




Debate

A Ideologia Neoliberal no Orçamento de Estado de 2013

Dia 29 de Outubro, 18.30h
Casa do Alentejo


Intervenções de:

Fernando Marques - Economista

Avelãs Nunes - Professor Catedrático e Presidente da Assembleia Geral da Associação Conquistas da Revolução

O Orçamento de Estado para 2013, em debate na AR até final do mês, é uma expressão concreta do carácter de classe da política de direita que esmaga o povo e o País desde há mais de 36 anos e que, agora, com a aplicação do memorando das troikas, assume contornos de autêntico terrorismo social.

Trata-se de um orçamento de desastre nacional, de destruição da actividade económica e de saque aos recursos nacionais.
Trata-se de um brutal ataque aos interesses e direitos dos trabalhadores e das populações, gerador de mais exploração, mais injustiças sociais, mais pobreza, mais miséria – e mais e mais lucros para o grande capital nacional e estrangeiro.

Trata-se, assim, de um orçamento que evidencia a necessidade urgente de pôr termo a esta política e ao governo que a pratica e de impor uma política inspirada nos valores e nas conquistas da Revolução de Abril e, portanto, ao serviço dos interesses dos trabalhadores, do povo e do País.

Tomada de Posição de Manuel Begonha - Presidente Direcção Associação Conquistas da Revolução







Do recente comunicado do Ministro das Finanças que consubstancia um enorme aumento de impostos, chegou-se a uma situação insustentável quando um governo delinquente e irresponsável não acata as decisões do Tribunal Constitucional e se mantém completamente insensível às dificuldades dos trabalhadores e ainda dos pensionistas e reformados, hoje cada vez mais, o último sustentáculo dos filhos flagelados pelo desemprego.
Devido às opções de carácter ideológico, o governo apenas se vem preocupando em agradar ao capital que nunca tributará de uma forma proporcional.
Nesta fase, a progressiva redução do custo do trabalho, apenas pretende favorecer as empresas exportadoras em detrimento do mercado interno, impedindo as pequenas e médias empresas de sobreviver, devido à retracção do consumo, motivada pela falta de dinheiro em circulação, o que provocará o aumento do desemprego.
A reincidência nas medidas para combater a crise que se revelaram desastrosas, levam a pensar se estes erros de avaliação tão grosseiros, se ficam a dever a mera incompetência, ou se pelo contrário oculta outros desígnios não revelados, como baixar sucessivamente o valor do trabalho e desregulamentar as correspondentes leis.
Esta tem sido uma das directivas da Troika, sustentadas pelos conselheiros do governo, “advisers”, como diz o 1º ministro.
Assim, desta forma ardilosa, constrói-se um gigantesco embuste de corrigir supostos desvios do orçamento de estado, ano após ano, à custa dos salários dos trabalhadores.
Paralelamente continua a eliminação do Estado Social, incluindo o direito à saúde, à educação, aos direitos dos trabalhadores, das condições de trabalho e até mesmo de uma política cultural, agora dirigida por um organismo de gestão. Ao asfixiar a cultura, está-se a anular a identidade nacional. A cultura é uma forma distintiva de cada país e uma capacidade para exercer a soberania.
A presente situação vai ao encontro dos que se empenham numa galopada revanchista, considerando já a Constituição da República, um entrave aos seus objectivos, podendo caminhar-se rapidamente para um regime de práticas anti-constitucionais e anti-democráticas que a não serem travadas, irão conduzir a outro regime de contornos totalitários e filofascista. As evidências são várias e não devem passar em claro, sem uma severa crítica, como as pressões exercidas sobre a comunicação social, os despedimentos selectivos, a práticas discriminatórias, à eliminação das contratações colectivas de trabalho, às excepções às medidas de austeridade, à corrupção, ao compadrio, às influências das sociedades secretas, à sonegação da informação de publicações não simpáticas ao Governo, à complacência da justiça com os poderosos, às privatizações, tudo isto perante a incapacidade política do Presidente da República.
Desta forma, torna-se necessário defender a Constituição da República que ainda impedirá a consumação de mais medidas desta natureza. Deverá ser objectivo de toda a esquerda impedir alterações à Constituição que abram caminho à destruição do que resta das Conquistas de Abril.
Estamos então entre a política do tecido económico queimado e a solução final.
“Os detentores do poder político e do capital, recorrendo a múltiplas formas, fizeram reverter para si próprios o aumento da capacidade produtiva dos trabalhadores. E não é necessário falar de neo-liberalismo, uma vez que o regime capitalista, embora posto em causa não desapareceu. As principais famílias são as mesmas, a sua relação com a propriedade e com o poder não se alterou e as suas prerrogativas económicas, financeiras, juridiscionais e militares, mantêm-se incólumes.”
Nesta política de tecido económico queimado, os velhos são para ir morrendo por falta de assistência à saúde, os novos emigram - para na óptica governamental resolver um problema de desemprego inconveniente, mas também na expectativa que num futuro próximo se volte às remessas dos emigrantes com novas fontes de financiamento - ou ficam no desemprego, ou vêm-se obrigados a aceitar empregos mal pagos e sem direitos. Entretanto a tolerância entre os portugueses vai-se reduzindo, manifestando-se contra os que fazem greve, os que têm trabalhos, os que não são funcionários políticos e os que exigem facturas e a economia paralela prolifera.
Sem condições para atrair a imigração e sem apoios aos casais que lhes permitam ter filhos, este governo encontrou ainda a via da austeridade demográfica, que a não ser contrariada, acabará por comprometer o futuro de Portugal por carência de população.
Com estas manifestações de clarividência política, o país renascerá, com metade dos jovens emigrada, com prósperas empresas a exportar e uma indústria turística destinada a amenizar os rigores do clima das gentes nórdicas.
Com a desertificação de grandes áreas do país, haverá mais oportunidades para criar mais reservas de caça e campos de golfe. Com mais alguns incêndios estratégicos, Portugal tornar-se-á num imenso eucaliptal para alimentar a produção de pasta de papel que outros países, mais interessados em proteger os seus sistemas ecológicos, rejeitam.
Este é o cenário que se adivinha se nada for feito para o evitar. Os cidadãos conscientes e patriotas são convocados para se unirem à Associação Conquistas da Revolução, numa luta constante para denunciar, combater e parar este flagelo.

Manuel BegonhaPresidente Direcção Associação Conquistas da Revolução


Tomada de posição sobre a cerimónia comemorativa do 5 de Outubro

A  Associação Conquistas da Revolução manifesta o seu repúdio e indignação por o Presidente da Republica e Chefe Supremo das Forças Armadas,na cerimónia comemorativa do 5 de Outubro, ter assistido ao hastear da bandeira nacional ao contrário, sem ter exigido que fosse colocada na sua posição normal,ultrajando e ofendendo assim gravemente o povo português e as suas Forças Armadas.

A Direcção da Associação Conquistas da Revolução

Manifestação Contra o Roubo dos Salários, Pensões e Reformas

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A concentração da Associação Conquistas da Revolução para a manifestação far-se-á às 14h30 junto ao Hotel Eden, nos Restauradores.

Posição da ACR face às novas medidas de austeridade propostas para o OE de 2013




Em reunião de Direcção, de 21 de Setembro de 2012, a Associação Conquistas da Revolução decidiu tornar pública a sua posição sobre a actuação e recentes propostas do governo PSD/CDS.
Como já tivemos oportunidade de afirmar as ofensivas das politicas de direita, às Conquista da Revolução de Abril, ao longo destes 36 anos, mais não têm sido do que a descaracterização e a destruição de elementos essenciais da democracia politica, económica, social e cultural, nascida da Revolução de Abril e consagrada na Constituição da República aprovada em 2 de Abril de 1976.

Há um ano assinalávamos que “o Programa imposto pela troika do grande capital financeiro e aceite, servilmente, pela troika PS/PSD/CDS, trilhava o caminho de tais ofensivas destruidoras numa dimensão e gravidade sem precedentes”. O OE para 2012 formalizava então, não só, o mais brutal ataque às condições de vida dos portugueses e à democracia, (ferindo mesmo direitos constitucionais, comprovados posteriormente) como, constituía o maior embuste alguma vez desencadeado pelo regime dito democrático.
E a provar que era mesmo um logro, temos os catastróficos resultados da actuação deste governo. A sua acção anti-social e até anti-constitucional e a consequência das medidas que apelidava de salvadoras do país, não só não atenuaram em nada a crise como ainda a agravaram e tornaram completamente ineficazes os sacrifícios impostos aos portugueses.

Todas as nefastas consequências, que esta Associação e as forças democráticas já haviam previsto, vieram infelizmente a confirmar-se. Mais grave ainda, porque em razão directa da colossal incompetência deste governo (que erra nos diagnósticos e erra nas terapias), as metas previstas não foram alcançadas, a divida soberana aumentou, a economia e o aparelho produtivo continuam a decrescer e o desemprego atinge níveis assustadores. O empobrecimento do país e mal-estar social alastram-se em paralelo com a desvairada irresponsabilidade governamental.

Assiste-se à continuada destruição das mais significativas Conquistas da Revolução concretizada através, designadamente, do fraudulento processo de privatizações, da aprovação do código anti-laboral, dos ataques ao SNS, à Escola Pública, à Segurança Social, do definhar do investimento público e da cultura, entre outros malefícios. A contra-revolução deu significativos passos em frente. 

Em contrapartida das boas notas que pretendem receber da coligação dos poderosos, Passos Coelho e o seu “cavalo da troika”, Victor Gaspar, vieram nas ultimas semanas, com a mesma brutal insensibilidade social proferida no ano passado, proclamar novas medidas de austeridade, ainda mais gravosas e injustas e de tão inconsequentes e disparatadas justificações que até tiveram o condão de colocar em uníssono e de acordo as forças do trabalho, os agentes do capital e um vasto leque de representações da igreja, da sociedade civil e militar.

 Á falácia da “concertação social” caiu-lhe a máscara e foi o PM que ajudou a tirar-lha. Só um governo, como este, autoritário, teimoso e vingativo pode ser tão cego e mudo perante o protesto generalizado da sociedade portuguesa. É o resultado dum governo que tira aos fracos para dar aos fortes (caso da TSU) e dum primeiro-ministro afogado na contradição de criticar a poupança dos portugueses, no passado ano, depois dos acusar de gastarem de mais antes, com o desplante de afirmar: “o governo portou-se bem, os portugueses é que não”.

Este Orçamento de Estado e medidas subsequentes obriga-nos a repetir o que já dissemos anteriormente: “o despudorado assalto aos direitos dos trabalhadores, da juventude, dos reformados e da população em geral, é um monstruoso crime contra a população portuguesa que urge desmascarar e combater”. Agrava-se a progressiva destruição das conquistas de Abril.

Só as acções das massas acabam por ter visibilidade causando incómodo e embaraço. A luta de hoje é mais do que nunca canalizar o descontentamento, frustração e revolta das pessoas para o combate dando-lhes um sentido e uma forma de expressão. O actual regime ocupa os meios de comunicação não informando os cidadãos com verdade. Não podemos permitir esta situação, combatendo sempre e reforçando as lutas das massas e tornando-as visíveis na rua.

Nesse sentido é digno de registo as manifestações realizadas no passado dia 15,em várias localidades do país, envolvendo centenas de milhares de pessoas, a comprovarem a rejeição, pela sociedade portuguesa, do Programa das troikas e o isolamento social do governo- e a confirmar as potencialidades de resistência e de luta do povo português.
A Associação Conquistas da Revolução, como é sabido sempre tem dado a sua total e activa adesão a todas as lutas travadas inequivocamente contra as políticas de direita e tendo como referência a Revolução de Abril, a sua Democracia, as suas Conquistas. E, por acrescidas razões assim continuará a fazer no futuro.
Estando já prevista uma próxima manifestação nacional convocada pela CGTP, para o Terreiro do Paço, em Lisboa, no próximo dia 29,apelamos à participação dos nossos associados no que será, estamos certos, mais uma importante e grandiosa jornada de luta.

21.Set.2012

Nota de imprensa da Associação Conquistas da Revolução sobre a situação do País




Como várias vezes sublinhámos, a ofensiva da política de direita contra as Conquista da Revolução, ao longo dos últimos 36 anos, tem conduzido à descaracterização e à destruição de elementos essenciais da democracia politica, económica, social e cultural nascida da Revolução de Abril e consagrada na Constituição da República aprovada em 2 de Abril de 1976.

Há um ano, assinalámos que o Programa imposto pela troika do grande capital financeiro e aceite, servilmente, pela troika PS/PSD/CDS, prosseguiria, ainda com mais força, o caminho dessa ofensiva destruidora - e alertámos para a dimensão e a gravidade das consequências da aplicação de tal Programa, quer em relação ao regime democrático, quer em relação às condições de vida dos portugueses.

Um ano passado, a realidade aí está a comprovar os nossos alertas: o Programa das troikas não só não resolveu nenhum dos muitos grandes problemas de Portugal e dos portugueses, como os agravou a todos, mergulhando o País no declínio e flagelando os portugueses com sucessivos agravamentos das suas condições de trabalho e de vida. Através, designadamente, do fraudulento processo de privatizações, da aprovação do código anti-laboral, da acentuação da exploração do trabalho pelo capital, dos ataques ao SNS, à Escola Pública, à Segurança Social, a contra-revolução deu significativos passos em frente. 

A Revolução de Abril está mais distante, Portugal está mais pobre, mais injusto, menos independente e menos soberano, o conteúdo democrático do regime sofreu fortes machadadas. E o desemprego cresceu, bem como o número de trabalhadores com salários em atraso; sucederem-se os roubos nos salários, nas reformas e pensões, nos subsídios de férias e de Natal; agravaram-se as injustiças sociais, conduzindo a mais pobreza, mais miséria, mais fome – enquanto, na outra face da moeda, crescem os lucros e enchem os cofres dos chefes dos grandes grupos económicos e financeiros.

E a tudo isto – e agravando tudo isto - decidiu o governo acrescentar o verdadeiro tsunami social que é o conjunto de medidas anunciadas recentemente pelo primeiro-ministro e pelo ministro das Finanças.

Tirar aos fracos para dar aos fortes, roubar aos pobres para dar aos ricos, é o lema deste governo e desta política de direita com a sua iniludível marca de classe.

Uma tal prática governativa e uma tal política só podem ser travadas e derrotadas pela acção organizada daqueles que são os alvos preferenciais da política de direita: os trabalhadores e as populações.
Nos últimos tempos, a luta das massas trabalhadoras e populares tem vindo a desenvolver-se num crescendo de participação e de combatividade assinaláveis, como o comprovam as muitas greves, paralisações de trabalho e protestos nas empresas e sectores profissionais; as acções e protestos de rua nas localidades; as grandiosas manifestações de massas de âmbito regional ou nacional; as poderosas greves gerais realizadas.

Igualmente dignas de registo são as manifestações realizadas no passado dia 15, em várias localidades do País, envolvendo centenas de milhares de pessoas, a comprovar a rejeição, pela sociedade portuguesa, do Programa das troikas e o isolamento social do governo – e a confirmar as potencialidades de resistência e de luta do povo português.

Como é sabido, a  Associação Conquistas da Revolução sempre tem dado a sua total e activa adesão a todas as lutas travadas inequivocamente contra a política de direita e tendo como referência a Revolução de Abril, a sua Democracia, as suas Conquistas. E, por acrescidas razões, assim continuará a fazer no futuro.

Assim, afirmamos desde já o nosso apoio à manifestação nacional convocada pela CGTP para o Terreiro do Paço, em Lisboa, no próximo dia 29 – e apelamos à participação dos nossos associados nessa importante jornada de luta, de modo a fazermos daquele local, uma vez mais, um verdadeiro Terreiro do Povo.


Intervenção de António Gervásio, na homenagem ao General Vasco Gonçalves








Camaradas e Amigos:

Boa tarde a todos!

Agradeço à direcção da Associação “Conquistas da Revolução” o convite que me fez para participar nesta iniciativa de homenagem à figura destacada e histórica da Revolução do 25 de Abril, General Vasco Gonçalves, o “Companheiro Vasco”, como carinhosamente o nosso povo fala do General.

É justo valorizar esta importante iniciativa num momento em que o povo português sofre a mais brutal ofensiva destruidora, dirigida pelas forças da política de direita, visando pôr fim ao regime democrático nascido com a “Revolução dos Cravos”.

Foi-me proposto falar sobre a Reforma Agrária. Há limites de tempo, resumi o possível.

A ocupação dos latifúndios iniciou-se em Fevereiro de 1975, há 37 anos. A Reforma Agrária foi a realização democrática mais profunda e mais avançada da Revolução de Abril, aquela que mais mexeu com a vida dos trabalhadores e do povo português, aquela que mais portas abriu para uma nova vida sem exploração, uma vida com trabalho, pão, direito e liberdade.

Álvaro Cunhal viveu intensamente a Reforma Agrária. Ele gostava de afirmar: “A Reforma Agrária é a mais bela conquista da Revolução de Abril!”. A vida confirma essa verdade.

Vasco Gonçalves foi um militar revolucionário de Abril, uma figura querida dos trabalhadores e do povo. Viveu com paixão e intenso entusiasmo o processo da Reforma Agrária. Ele conseguia tempo para frequentes visitas à reforma agrária. Várias UCP’s tinham o nome “companheiro Vasco” e “Vasco Gonçalves”. Em sua homenagem, os nomes Vasco Gonçalves e Reforma Agrária vão estar ligados por séculos.

A Reforma Agrária não foi um “roubo de terras” ou um “fracasso”, como acusam os seus inimigos. Não foi um assalto às terras, para cada trabalhador ficar com um bocado de terra.

O operário agrícola não é camponês, não tem espirito de agricultor. Quer a terra para a trabalhar colectivamente, como a Reforma Agrária o demonstrou. O operário agrícola nunca teve terra, a sua única fonte de rendimento é a venda da sua força de trabalho, como um operário da indústria.

A Reforma Agrária não foi uma bandeira que apareceu com o 25 de Abril. A exigência  - a terra a quem a trabalha -, vinha de muitos anos atrás na luta sem tréguas pelo pão, pelo trabalho, pela liberdade, contra a ditadura fascista.

A Reforma Agrária não se pode desligar do processo revolucionário da revolução de Abril, não se pode desligar da existência do grande latifúndio nos campos do sul. Não se pode desligar da existência de um numeroso e concentrado proletariado agrícola na zona do latifúndio, revolucionário, organizado, combativo, com elevada consciência política e com forte influência e organização do PCP. Não se pode falar da Reforma Agrária e dos seus êxitos nos campos do sul, sem falar do papel organizativo e dirigente do PCP. Em geral, as reformas agrárias são um processo longo e conflituoso. A Reforma Agrária de Abril não foi assim. O único grande conflito foi a ofensiva dos governos de política de direita.

O processo da Reforma Agrária não partiu do governo. Todo o desenvolvimento passou ao lado do governo. Não havia lei da Reforma Agrária, foi um processo muito discutido, organizado e dirigido pelo proletariado agrícola, pelos sindicatos agrícolas, pelo PCP.

A Reforma Agrária de Abril, não se encontra nos manuais de economia política. Não é cópia de modelos de outras reformas agrárias. É a Reforma Agrária de Abril, com as suas criações assentes nas realidades do nosso país.

Camaradas e amigos

Importa explicar alguns detalhes. Em meados de 1974 os grandes agrários do sul respondem com maior agressividade ao avanço da revolução. Despedem os trabalhadores, recusam dar trabalho, fazem sabotagem económica – deixam estragar as culturas, deixam morrer o gado à fome, fogem com máquinas e gado para fora da região, etc.
A luta agudizou-se. Surgem perguntas: Que fazer? Nos meses de Outubro/Novembro de 1974 surgem as primeiras ocupações de algumas herdades nos distritos de Beja e Évora. Eram sinais significativos.
Esta situação de intensa luta e discussão conduziu à realização da 1ª Conferência dos Trabalhadores Agrícolas do Sul, convocada pelo PCP, em 9 de Fevereiro de 1975, em Évora.
Participaram na Conferência mais de 4.000 trabalhadores, sindicalistas, agricultores, técnicos e políticos. Álvaro Cunhal participou na discussão. O grito forte na discussão foi “Avante com a Reforma Agrária” e “A Terra a Quem a Trabalha!”
A Conferência encerrou num comício com 30 mil pessoas, vindas de todas as zonas do País. Foi decidido ler as Conclusões da Conferência no comício, no sentido de toda a gente ficar a saber o que foi discutido.
Esta Conferência é histórica. Ela marca o avanço corajoso e organizado da Reforma Agrária. Pela primeira vez na história de Portugal, tirou as terras incultas aos agrários e pô-las a produzir!
Não vamos desenvolver o processo a seguir à Conferência nas localidades, os plenários, as herdades a ocupar, a formação dos colectivos de trabalhadores, a formação das UCP’s, etc.
O avanço da Reforma Agrária foi um processo bonito, sereno, organizado, rápido, sem choques sangrentos, sem oposição de outros trabalhadores e das populações locais. A Reforma Agrária foi aceite com grande entusiasmo e solidariedade das populações. A Reforma Agrária acabou com o flagelo do desemprego nos campos do sul, assegurou trabalho com direitos para todos. Acabou com os latifúndios em muitos concelhos, acabou com a exploração do homem pelo homem nas UCP’s.
Quando falamos de um processo rápido, sereno, de massas e organizado, vejamos alguns dados: Em Julho de 1975, seis meses depois da Conferência, estavam ocupados 500.000 hectares de terra nos campos do sul. No começo de 1976, cerca de um ano depois do avanço, estavam ocupados 1.140.000 hectares, formadas 550 UCP’s e criados 50.000 novos postos de trabalho!
A Reforma Agrária de Abril tomou imediatamente o caminho certo do aumento da produção, o aumento da mecanização da área de regadio, da pecuária, novos ramos de produção como tabaco, beterraba, produção de estufa, estábulos de engorda de bovinos e suínos, etc.
As UCP’s, uma nova criação de gestão da terra, revelaram grande dinamismo, poder de iniciativa e capacidade de produção. Nos primeiros dois anos, antes da grande ofensiva, a Reforma Agrária obteve extraordinários sucessos, como por exemplo:
Área semeada, mais 139,3%
Área de regadio, mais 126%
Máquinas e alfaias, mais 169,6%
Cabeças de gado, mais 112%
Postos de trabalho criados, mais 50.000
Por outro lado, paralelo aos avanços da produção, as UCP’s criaram um conjunto de estruturas sociais para servir as populações e os trabalhadores, como centros de dia para a 3ª Idade, creches, jardins de infância, cantinas, cooperativas de Consumo, talhos, padarias, lagares, adegas, hortas colectivas, transportes, mercados da Reforma Agrária, oficinas mecânicas e outras.
A Reforma Agrária aumentou os salários, o poder de compra. As populações locais, o pequeno comércio e indústria sentiram uma elevada melhoria das suas condições de vida.
A Reforma Agrária ganhou uma forte onde de simpatia e solidariedade em todo o país, ultrapassando as nossas fronteiras.
Nos fins de semana (e durante a semana) dezenas de excursões de todos os cantos do país deslocavam-se à Reforma Agrária para ver, ao vivo, como era. Muitas ofertas de jornadas de trabalho voluntário. Centros operários como Lisboa, Porto, Almada e Setúbal, entre outros, ofereceram máquinas e alfaias agrícolas. Apareceram grupos de médicos a dar apoio clinico à populações locais, grupos de artistas a realizarem espectáculos musicais, como Lopes Graça, Samuel, Vitorino, Carlos do Carmo, Zeca Afonso, Ary dos Santos e vários outros.
A União Soviética, na altura, 1976, ofereceu cerca de 300 máquinas e alfaias agrícolas, A RDA, Bulgária, Checoslováquia e Roménia, ofereceram várias máquinas.
Na Holanda capitalista, um grupo de amigos da Reforma Agrária, fez um pedido de verba ao Parlamento Holandês para uma oficina mecânica. O pedido foi atendido. Essa oficina mecânica foi instalada em Montemor-o-Novo, com o nome “Verde Esperança”.
A Reforma Agrária marca uma nova vida a nascer nos campos do sul. Se em vez de uma ofensiva destruidora, tivéssemos um governo a dar todo o apoio necessário à Reforma Agrária, certamente Portugal não estaria a viver horas amargas como nos dias de hoje…
A Ofensiva Destruidora:
Vejamos alguns aspectos da brutal e criminosa ofensiva. O avanço rápido e organizado, o crescente apoio e solidariedade à reforma Agrária, os seus rápidos sucessos, assustaram as forças da contra-revolução. O golpe de direita do 25 de Novembro alterou a correlação de forças políticas e militares a favor da direita. Travou o avanço da revolução, criou condições para a destruição da Reforma Agrária e de outras conquistas de Abril.
O primeiro Governo constitucional PS/Mário Soares, com Barreto no MAP, iniciou a ofensiva destruidora. Rasgou a lei da Reforma Agrária – 406/A. Fez uma nova lei, a 77/77, a célebre “lei Barreto”, feita à medida para devolver as terras aos agrários. Sucessivos governos, PS ou PSD, com ou sem CDS, puseram em campo poderosos meios militarizados, dirigidos por oficiais superiores, milhares de GNR armados, chaimites, jeeps, cavalos, cães, helicópteros, bastões eléctricos. Os inimigos da Reforma Agrária pensavam resolver a situação em poucos meses. Enganaram-se! A resistência corajosa e heróica dos trabalhadores prolongou-se por mais de 14 anos, numa luta sem tréguas, de dia e de noite, semeando e defendendo, e a ofensiva roubando e destruindo. Nenhuma outra conquista de Abril foi sujeita a uma ofensiva tão longa e tão brutal como a Reforma Agrária!
Num resumido balanço de 8 anos, de 1977 a 1985, a ofensiva tinha dado um golpe de morte na Reforma Agrária. Vejamos, neste espaço de tempo:
·         700.000 hectares das melhores terras roubados
·         220 UCP’s destruídas totalmente
·         244.000 cabeças de gado roubadas
·         200 barragens e habitações roubadas
·         122.000 máquinas e alfaias roubadas
·         Mais de 2.000 homens e mulheres espancados, feridos e sujeitos a julgamentos sumários
A criminosa ofensiva mata dois trabalhadores da Reforma Agrária!
Em 27 de Setembro de 1979, na Herdade de Vale de Nobre, da UCP Bento Gonçalves, em Montemor-o-Novo, a GNR matou, a tiro, José Geraldo (Caravela), militante do PCP e António Maria Casquinha, jovem de 17 anos, membro da JCP. Ambos de Escoural, tinham ido com outros numa delegação de solidariedade à UCP Bento Gonçalves, na defesa de um rebanho de vacas que os agrários tentaram roubar. Estes crimes provocaram uma profunda dor e revolta. No funeral participaram mais de 100.000 pessoas.
A defesa da Reforma Agrária envolveu uma resistência longa e extraordinária. Os trabalhadores agrícolas sentiram a Reforma Agrária como obra sua.
Algumas referências de grandes lutas no espaço de dois anos, entre 1977 e 1979:
·         600.000 trabalhadores da Reforma Agrária participaram em greves, concentrações e manifestações de rua;
·         Os sindicatos agrícolas do sul, com cerca de 112.000 sócios, realizaram mais de 2.000 plenários;
·         Em Maio de 1979 uma delegação das UCP’s entregou na Assembleia da República um abaixo-assinado com 277.000 assinaturas, exigindo o fim da ofensiva.
Mais tarde, em 10 de Março de 1987, as UCP’s da Reforma Agrária organizaram uma marcha para Lisboa, com 6.000 trabalhadores, 273 tractores e 600 outras máquinas agrícolas, num desfile de quilómetros. As barreiras da GNR não conseguiram impedir que a marcha entrasse nas ruas de Lisboa, já de noite, com calorosos aplausos da população de Lisboa.
Camaradas e Amigos, para terminar:
A resistência heróica, a luta corajosa de mais de 14 anos não conseguiram impedir a destruição criminosa da mais bela conquista de Abril. A ofensiva destruiu-a!
Em 1990, a Reforma Agrária estava praticamente destruída. O que restava, já pouco tinha a ver com a reforma Agrária de Abril…
Os sucessivos governos de política de direita, destruíram a Reforma Agrária e destruíram também a agricultura nos campos do sul. As terras foram devolvidas aos grandes proprietários. Os latifúndios foram reconstruídos.
Actualmente a terra do latifúndio está mais concentrada e mais inculta. As grandes herdades estão cheias de coutadas e cercas de arame farpado, com alguns rebanhos de gado subsidiados. Não se vê desenvolvimento nem emprego. As águas do lago do Alqueva não servem a agricultura, correm para o oceano. A soberania nacional cada dia está mais comprometida.
Os campos do Alentejo e do Ribatejo sofrem hoje o mais terrível despovoamento e envelhecimento da sua história. A população alentejana ronda, nos dias de hoje, os números de 1911.
As calamidades que flagelam os campos do sul e as suas populações não caíram do céu. São filhas da política de direita, da política de destruição e retrocesso ao serviço do alto capital explorador.
Qual é o caminho alternativo à política de destruição e retrocesso?
O caminho certo é, a nosso ver:
·         Pôr fim ao latifúndio. Pôr a terra a produzir
·         Realizar uma nova Reforma Agrária que entregue a terra a quem a trabalha!
Contudo, não deve haver ilusões! As forças de direita, enfeudadas ao capital e aos senhores da terra, não vão mexer no latifúndio secular.
Não há Reforma Agrária triunfante onde o poder central esteja contra. É essa a lição viva colhida da Reforma Agrária de Abril
A Reforma Agrária só triunfará com a formação de um governo de esquerda e patriótico, que tenha no seu programa a Reforma Agrária, servir os interesses dos trabalhadores, do povo e do país.
A Reforma Agrária é necessária. É uma exigência nacional e inadiável dos nossos dias. É parte integrante do progresso, da democracia e da liberdade. É necessário que todas as forças progressistas do país reivindiquem mais constantemente e mais profundamente o fim do latifúndio.
Portugal de Abril precisa de uma nova Reforma Agrária que entregue a terra a quem a trabalha!
Viva a Reforma Agrária!


Intervenção de Armando Farias da CGTP-IN, na Homenagem ao General Vasco Gonçalves




Caros Amigos, Camaradas,

Alguém disse um dia que Vasco Gonçalves era um Homem de Verdade e da Verdade.
Todos nós sabemoscomo este simples vocábulo está tão desvalorizado, principalmente nestes tempos em que impera o deus mercado e a religião do dinheiro, da corrupção e do nepotismo é negóciopróspero para as classes dominantes.
E, no entanto, falar hoje do Homem de verdade que foi o General Vasco Gonçalves é redescobrir a palavra e compreender em toda a sua complexidade a natureza, os princípios e as características que enformam toda uma vida de autenticidade e de dedicação à pátria e ao seu povo.
Sobre a dimensão histórica deste extraordinário militar de Abril, outros camaradas aqui presentes se pronunciarão com mais conhecimento, talento e rigor. Como sindicalista, simplesmente quero aqui deixar testemunho, nesta merecida homenagem a Vasco Gonçalves, quanto relevante para o futuro dos trabalhadores, do povo e do país, foi o seu papel enquanto primeiro-ministro do II ao V governos provisórios e, também desta forma, honrar a memória deste companheiro que nunca abandonou os ideais do socialismo, nunca traíu os que nele confiaram, nunca desistiu de lutar pelas transformações políticas, económicas e sociais que tirassem Portugal dos atrasos acumulados em meio século de ditadura fascista e doze anos de guerras coloniais. Pelo contrário, homem de coragem e de grande carácter, mesmo nas fases mais críticas do processo da revolução portuguesa permaneceu sempre nas primeiras linhas do combate.
A humanidade de Vasco Gonçalves, os valores éticos que perfilhava, a disciplina revolucionária que orientava a sua acção patriótica estão presentes neste breve trecho do brilhante discurso que proferiu na Academia Militar, no início de Dezembro de 1974, sobre as relações entre os militares e a vida política.Disse o General aos seus pares: «A disciplina exterior deve ser consequência da disciplina interior. Doutro modo não é disciplina. No meu tempo cultivava-se muito a disciplina exterior. É necessário que os oficiais andem bem uniformizados, bem engraxados, com os botões limpos. Mas é muito mais necessário que andem com as consciências tranquilas e senhores dos seus deveres para com a Pátria. (…) E no meu tempo havia gente que dava relevo às botas em relação à consciência. (…) O homem antes de ser militar é um cidadão. Todo o cidadão é político. Essa coisa de se dizer que os militares são apolíticos é falsa. (…) Tenham uma grande confiança, não obstante todas as dificuldadesque temos, todos os inimigos que temos. Tenham uma grande confiança no futuro da nossa Pátria, porque está a ser forjada por todos nós, e isso é necessário que seja feito, que a Pátria possa ser forjada por todos os portugueses»
Estas palavras e Vasco Gonçalves tinham plena justificação uma vez que a revolução de Abril, sendo uma obra colectivadas forças democráticas que combateram o fascismo, foi desde início o alvo da conspiraçãocontra-revolucionária. Nesta conspiração participaram os sectores neocolonialistas instalados nas forças armadas, em aliança com as forças reaccionárias onde se agruparam os grupos monopolistas e os grandes latifundiáriosrepresentadas pelos partidos de direita nos governos provisórios,os quais se serviram da pesada herança deixada pelas estruturas fascistas para sabotarem economicamente as empresas, promoverem a fuga de capitais para fora do país e desestabilizarem o curso da revolução.
Mas a contra-revolução obteve, ainda, o apoio decisivo de outras forças,de cariz social-democratizante, como foi o caso do partido socialista que, não comparecendoàs etapas importantes da luta antifascista, veio a assumir no período pós-revolução, a direcção da política de recuperação capitalista.
     Apesar de todas as manobras conspiratórias, foi durante os quatro governos presididos por Vasco Gonçalves que se operaram as grandes transformações: no plano político, procedeu-se à descolonização e à democratização do país, com a conquista das liberdades públicas (de imprensa, de associação, de reunião, de manifestação) e da organização democrática do estado; ao nível económico, com as nacionalizações, o controlo de gestão e a reforma agrária; no âmbito social, com importantes direitos laborais e sociais conquistados pelos trabalhadores, como são exemplos o estabelecimento do salário mínimo, o subsídio de férias e o subsídio de Natal e, também, com as reformas que definiram as grandes obrigações sociais do Estado: um sistema de segurança social destinado a proteger os cidadãos na doença, velhice, invalidez, viuvez e orfandade; um serviço nacional de saúde, universal, geral e gratuito; uma política de habitação para assegurar a cada família uma habitação condigna; uma escola pública, no sentido de garantir o acesso ao ensino básico, obrigatório e gratuito.
A revolução de Abril também operou uma profunda revolução cultural, pondo fim a décadas de um regime obscurantista e retrógrado. Com a instauração das liberdades e  a intervenção dos intelectuais e das massas populares na construção de uma vida nova, abriu-se caminho à alteração das mentalidades, ao desenvolvimento cultural e à afirmação de valores humanistas.
Todas estas realizações foram aprovadasna Assembleia Constituinte. Inspiradas no Programa do MFA, ainda hoje identificam a matriz criada com o 25 de Abril, e a sua consagração no texto Constitucional, apesar das mutilações de que tem sido alvo pelos inimigos confessos da revolução, constitui testemunho da força que continuam a ter no coração dos trabalhadores e do povo, sendo justamente chamadas Conquistas da Revolução.
Importa, no entanto, ter presente que no quadro complexo das relações das forças político-militares representadas no governo e outras instâncias do poder político e militar provisório, a acção convergente das massas populares com os militares revolucionários foi determinante para a evolução do curso revolucionário. A Aliança Povo-MFArevelou-se, neste caso, como mais uma singularidade de extraordinária importância no processo revolucionário em Portugal.
     Vasco Gonçalves, primeiro-ministro, sofreu injúrias efoi sujeito a intimidações e ultimatos. O ódio dos capitalistas e latifundiários contra os defensores da revolução era tão grande que, organizados em torno das organizações contra-revolucionárias da CAP, da CIP, do ELP, apoiadas logística e operacionalmente pela CIA, perpetraram inúmeros actos terroristas no país. Precisamente no mesmo dia de hoje, em 30 de Junho de 1976, a sede da Intersindical foi também alvo de um atentado bombista. Mas Vasco Gonçalves, homem corajoso, não abandonou o seu posto de combate nem fugiu ao confronto, enfrentou destemidamente os golpistas do 28 de Setembro e do 11 de Março, manteve-se sempre do lado certo, sempre ao lado dos trabalhadores e do seu povo.
     Álvaro Cunhal, na sua obra “A verdade e Mentira na Revolução de Abril – a contra-revolução confessa-se”, escreve: «Vasco Gonçalves era particularmente visado. A reacção não lhe perdoava ser coerente e corajoso e ter desempenhado importante papel para as derrotas das forças reaccionárias, para a conquista das liberdades e da democracia».
     O próprio General, em entrevista ao “militante”, de Abril de 1999, depois de lhe ter sido perguntado como foi possível concretizar, nesse quadro tão explosivo, avanços tão extraordinários, responde desta maneira: «O contexto era o do Povo-MFA. Havia a necessidade imperiosa de fazer a descolonização contra os obstáculos levantados pelas facções neocolonialistas. Vivíamos um clima de sabotagem e oposição dos meios económicos dominantes: tinham perdido o poder político, mas mantinham o económico, facto que lhes permitia desorganizar a actividade económica, promover a fuga de divisas, o desemprego, etc., lutar de várias formas contra a nova ordem democrática».
     Vasco Gonçalves tinha, na verdade, uma ideia muito clara de que as transformações sociais e as conquistas revolucionárias só seriam possíveis pela luta dos trabalhadores e acção determinante das massas populares. Homem culto e de elevada consciência de classe, conhecedor do papel histórico dos trabalhadores e do movimento sindical português no desenvolvimento das lutas reivindicativas e da contestação à ditadura, o General compreendia que esta era a força motora da revolução, na base da qual se poderiam superar as contradições existentes no aparelho político-militar e avançar no processo revolucionário, através da acção conjugada das massas populares e do Movimento das Forças Armadas.
Na realidade, quer o levantamento popular, logo após o golpe militar, quer as gigantescas manifestações unitárias do 1º de Maio de  1974 convocadas pela Intersindical no curto espaço de uma semana, deram expressão à imensa força autónoma e independente do movimento operário e popular, afirmando-o como uma poderosa realidade da vida nacional à qual estava reservado um papel determinante no curso da revolução portuguesa.
Entretanto, perante a tentativa de alguns escribas em reescrever a História, é preciso lembrar que esse papel desempenhado pela classe operária e o movimento popular é inseparável do seu percurso de décadas de duras lutas sociais e políticas contra o regime fascista e, é Inseparável também, da furiosa campanha que ontem, como hoje, foi e é lançada contraas forças progressistas e revolucionárias que se identificam, apoiam e lutam pelo reforço da unidade da classe operária e de todos os trabalhadores.
Mas a confiança e esperança que Vasco Gonçalves depositava na acção criadora das massas trabalhadoras, pode ver-se, também, no apelo sobre o papel destes na batalha da produção, apelo publicado em 7 de Maio de 1975 no órgão informativo da Intersindical Nacional, no Jornal “Alavanca”: «Estes obstáculos que vencemos ensinam-nos muita coisa. Principalmente, que cada dificuldade que se nos depara, depois de vencida, é um passo em frente que damos: nós avançamos combatendo os nossos inimigos. Foi o vencer-se a crise Palma Carlos que criou condições para o reconhecimento do direito dos povos à autodeterminação e independência, facto que trouxe de imediato, ao Povo Português e aos povos das antigas colónias, o fim da guerra. Foi ovencer-se o 28 de Setembro que estreitou a aliança Povo-MFA, criando condições para uma maior clarificação do processo revolucionário.(…)Foi o vencer-se o 11 de Março que deu novo impulso à revolução, levando a nova Assembleia do MFA, reunida nessa noite, com a presença de oficiais, sargentos e praças, a abrir caminho para as grandes medidas que se seguiram: Instituição do MFA, criação do Conselho da Revolução, decisão da nacionalização da Banca, dos Seguros e sectores básicos da nossa economia, início da reforma Agrária e definição da opção Socialista para a Revolução Portuguesa. (…) O 11 de Março criou também condições mais favoráveis ao Povo Português no campo político e económico, condição para que, como diz o Conselho da Revolução, “os trabalhadores sintam que a economia já não lhes é estranha, ou seja, que a construção socialista da economia é tarefa deles e para eles. Isto implica a afirmação clara do princípio do controlo organizado da produção pelos trabalhadores para objectivos de produção e eficiência, coordenadas pelos órgãos centrais do planeamento. (…) Estamos caldeados pela luta, como acabamos de ver, e não são as dificuldades que nos metem medo, pois, ultrapassadas que sejam, andamos para a frente».  
    Era, assim, o companheiro Vasco. Homem vertical que esconjurava a pseudo-neutralidade, de uma pureza sem igual que o levava a dizer com absoluta sinceridade que «…a maior alegria da sua vida tinha sido participar no 25 de Abril e viver aqueles momentos como primeiro-ministro».
     A exaltação de Vasco Gonçalves por ter protagonizado um dos mais belos períodos da nossa História recente, está na razão inversa dos ódios lançadas por todos aqueles que,conspirando contra as conquistas  sociais e as transformações económicas em curso, o caluniaram de aventureiro. Do mesmo modo, aliás, que também caluniavam a acção das forças revolucionárias, nomeadamente os comunistas e a Intersindical, a quem acusavam de voluntarismo revolucionário. A falsidade destes ataques mostra, afinal, como foi certeira e bem dirigida ao coração do grande capital nacional e imperialista a acção revolucionária de desmantelamento da base económica da ditadura.
De facto, as nacionalizações, tal como o controlo operário e a gestão das empresas pelos trabalhadores, surgiram não apenas como uma necessidade de defender e dinamizar as actividades económicas paralisadas ou comprometidas pela sabotagem  dos inimigos de classe mas, também, como uma necessidade para defender as liberdades e a democracia que estavam em processo de instauração, perante a agudização da luta de classes.
À nacionalização da Banca logo na noite de 13 para 14 de Março de 1975, como resposta ao comprometimento directo no golpe do 11 de Março dos grandes capitalistas e agrários, seguiram-se a nacionalização de outros importantes sectores e empresas da economia – seguros, electricidade, petróleo e petroquímica, siderurgia, cimentos e vidro, pirites, adubos, construção naval, transportes terrestres, marítimos e aéreos, entre outros. No final de 1975 o número de empresas nacionalizadas era cerca de 250, a que se juntavam outras tantas que estavam sob intervenção do Estado.
No discurso que dirigiu aos delegados ao Congresso dos Sindicatos, realizado em Julho de 1975, Vasco Gonçalves mais uma vez enaltece a iniciativa dos trabalhadores no processo das nacionalizações e salienta o valor da unidade como um princípio fundamental para a defesa dos seus interesses de classe: «Esta luta é ume luta de morte contra o capitalismo. As formas a que recorre o grande capital, quer o nacional quero internacional, para travar este processo, são múltiplas. É preciso ter uma actuação permanente. É preciso ter muita firmeza, espírito de sacrifício, estar-se disposto a entregar-setotalmente à Pátria e ao Povo. Vós tendes um papel fundamental a desempenhar como vanguarda dos trabalhadores. Cada um de vós, quando sair daqui, deve ser um pólo de irradiação das ideias que aqui foram expostas, um pólo de irradiação da vigilância popular. Deveis combater intensamente o divisionismo nas vossas fileiras, E eu tenho uma grande alegria por saber que este Congresso em decorrido sob o signo da unidade».
Amigos e camaradas,
Procurei com este modesto testemunho traçar um breve retrato de Vasco Gonçalves, do enorme contributo que deu ao desenvolvimento do processo revolucionário, do homem verdadeiro que até ao fim dos seus dias nunca desistiu ou renegou o seu compromisso com os trabalhadores, com o povo, com a verdade.
Homem lúcido, dizendo por vezes que estava ele próprio em permanente revolução, tinha uma ética de tal modo irrepreensível que o levava a dizer também que, por amor à verdade, reconhecia ser muito difícil uma pessoa despojar-se inteiramente da sua condição de classe e interessar-se sem vacilações pelos problemas dos mais desfavorecidos, dos mais pobres, ser coerentemente revolucionário até ao fim.
O mesmo Homem generoso que muitos anos depois, mantendo-se coerentemente revolucionário, disse que se não tivesse participado no 25 de Abril, se a queda do fascismo lhe passasse ao lado, ficaria com um desgosto para toda a vida.
O exemplo de Vasco Gonçalves deve inspirar-nos a continuar a luta.
É certo que o processo iniciado a 25 de Abril foi uma revolução inacabada. A contra-revolução travou o processo de desenvolvimento da sociedade portuguesa visando o aprofundamento da democracia nas suas várias vertentes. A greve crise económica que o país está hoje a viver, e as suas consequências no plano político, social e cultural, resulta da ofensiva capitalista prosseguida pelos sucessivos governos do PS, PSD e CDS/PP nos últimos 36 anos, assentes na destruição dos sectores produtivos, no desaproveitamento dos recursos nacionais e na alienação de empresas e sectores estratégicos. Esta ofensiva consubstancia a posição ideológica de uma classe dominante que despreza e submete os interesses de Portugal e do povo português aos interesses particulares dos grupos económicos e financeiros, nacionais e estrangeiros.  
A calamidade do desemprego, que atinge mais de um milhão e 200 mil trabalhadores e trabalhadoras, dos quais 800 mil estão a sobreviver sem qualquer protecção social; a quebra brutal dos salários e o aumento insuportável do custo de vida, das rendas de casa, que já pôs mais de três milhões de portugueses na extrema miséria ou e situação de grave carência económica; o ataque feroz às funções socias do Estado (Segurança Social, Saúde, Educação), visando o seu desmantelamento e privatização, assim como a ofensiva contra o Poder Local Democrático; as alterações da legislação laboral, com o objectivo de aumentar a exploração dos trabalhadores e fazer diminuir ainda mais os salários, agravando o empobrecimento das famílias, são consequência da política de direita levada a cabo por aqueles partidos.
Só a ruptura com o sistema capitalista pode impedir o prosseguimento desta política e evitar mais destruição para o país e mais sacrifícios e miséria para o povo. A experiência histórica mostra que o capitalismo está roído por contradições insolúveis, que não consegue resolver os mais graves problemas da humanidade e que agrava dia a dia a sua natureza exploradora, opressora e agressiva.
Saudando e evocando a memória de Vasco Gonçalves, nós afirmamos que o socialismo continua a ser a única alternativa histórica ao capitalismo e a mais válida esperança da humanidade. Com esse objectivo, a grande questão da actualidade política e do nosso futuro colectivo é a intensificação da luta pela exigência de uma ruptura com apolíticade direita e a construção de um novo rumo para Portugal.
Vasco Gonçalves,foi o homem verdadeiro cujaparticipação decisiva na Revolução de Abril ficará para sempre gravada na nossa História. Foi o Homem que até ao fim dos seus dias nunca desistiu ou renegou o seu compromisso com a verdade.
    Saúdo a Direcção da Associação Conquistas de Revolução por ter promovido esta justíssima homenagem a Vasco Gonçalves, ao militar de Abril, ao soldado do Povo. Saúdo, também, a Voz do Operário pelo apoio prestado à iniciativa.
O companheiro Vasco morreu coerentemente revolucionário. Mas o seu exemplo perdura e continua bem vivo dentro de nós.