Intervenção de Armando Farias da CGTP-IN, na Homenagem ao General Vasco Gonçalves




Caros Amigos, Camaradas,

Alguém disse um dia que Vasco Gonçalves era um Homem de Verdade e da Verdade.
Todos nós sabemoscomo este simples vocábulo está tão desvalorizado, principalmente nestes tempos em que impera o deus mercado e a religião do dinheiro, da corrupção e do nepotismo é negóciopróspero para as classes dominantes.
E, no entanto, falar hoje do Homem de verdade que foi o General Vasco Gonçalves é redescobrir a palavra e compreender em toda a sua complexidade a natureza, os princípios e as características que enformam toda uma vida de autenticidade e de dedicação à pátria e ao seu povo.
Sobre a dimensão histórica deste extraordinário militar de Abril, outros camaradas aqui presentes se pronunciarão com mais conhecimento, talento e rigor. Como sindicalista, simplesmente quero aqui deixar testemunho, nesta merecida homenagem a Vasco Gonçalves, quanto relevante para o futuro dos trabalhadores, do povo e do país, foi o seu papel enquanto primeiro-ministro do II ao V governos provisórios e, também desta forma, honrar a memória deste companheiro que nunca abandonou os ideais do socialismo, nunca traíu os que nele confiaram, nunca desistiu de lutar pelas transformações políticas, económicas e sociais que tirassem Portugal dos atrasos acumulados em meio século de ditadura fascista e doze anos de guerras coloniais. Pelo contrário, homem de coragem e de grande carácter, mesmo nas fases mais críticas do processo da revolução portuguesa permaneceu sempre nas primeiras linhas do combate.
A humanidade de Vasco Gonçalves, os valores éticos que perfilhava, a disciplina revolucionária que orientava a sua acção patriótica estão presentes neste breve trecho do brilhante discurso que proferiu na Academia Militar, no início de Dezembro de 1974, sobre as relações entre os militares e a vida política.Disse o General aos seus pares: «A disciplina exterior deve ser consequência da disciplina interior. Doutro modo não é disciplina. No meu tempo cultivava-se muito a disciplina exterior. É necessário que os oficiais andem bem uniformizados, bem engraxados, com os botões limpos. Mas é muito mais necessário que andem com as consciências tranquilas e senhores dos seus deveres para com a Pátria. (…) E no meu tempo havia gente que dava relevo às botas em relação à consciência. (…) O homem antes de ser militar é um cidadão. Todo o cidadão é político. Essa coisa de se dizer que os militares são apolíticos é falsa. (…) Tenham uma grande confiança, não obstante todas as dificuldadesque temos, todos os inimigos que temos. Tenham uma grande confiança no futuro da nossa Pátria, porque está a ser forjada por todos nós, e isso é necessário que seja feito, que a Pátria possa ser forjada por todos os portugueses»
Estas palavras e Vasco Gonçalves tinham plena justificação uma vez que a revolução de Abril, sendo uma obra colectivadas forças democráticas que combateram o fascismo, foi desde início o alvo da conspiraçãocontra-revolucionária. Nesta conspiração participaram os sectores neocolonialistas instalados nas forças armadas, em aliança com as forças reaccionárias onde se agruparam os grupos monopolistas e os grandes latifundiáriosrepresentadas pelos partidos de direita nos governos provisórios,os quais se serviram da pesada herança deixada pelas estruturas fascistas para sabotarem economicamente as empresas, promoverem a fuga de capitais para fora do país e desestabilizarem o curso da revolução.
Mas a contra-revolução obteve, ainda, o apoio decisivo de outras forças,de cariz social-democratizante, como foi o caso do partido socialista que, não comparecendoàs etapas importantes da luta antifascista, veio a assumir no período pós-revolução, a direcção da política de recuperação capitalista.
     Apesar de todas as manobras conspiratórias, foi durante os quatro governos presididos por Vasco Gonçalves que se operaram as grandes transformações: no plano político, procedeu-se à descolonização e à democratização do país, com a conquista das liberdades públicas (de imprensa, de associação, de reunião, de manifestação) e da organização democrática do estado; ao nível económico, com as nacionalizações, o controlo de gestão e a reforma agrária; no âmbito social, com importantes direitos laborais e sociais conquistados pelos trabalhadores, como são exemplos o estabelecimento do salário mínimo, o subsídio de férias e o subsídio de Natal e, também, com as reformas que definiram as grandes obrigações sociais do Estado: um sistema de segurança social destinado a proteger os cidadãos na doença, velhice, invalidez, viuvez e orfandade; um serviço nacional de saúde, universal, geral e gratuito; uma política de habitação para assegurar a cada família uma habitação condigna; uma escola pública, no sentido de garantir o acesso ao ensino básico, obrigatório e gratuito.
A revolução de Abril também operou uma profunda revolução cultural, pondo fim a décadas de um regime obscurantista e retrógrado. Com a instauração das liberdades e  a intervenção dos intelectuais e das massas populares na construção de uma vida nova, abriu-se caminho à alteração das mentalidades, ao desenvolvimento cultural e à afirmação de valores humanistas.
Todas estas realizações foram aprovadasna Assembleia Constituinte. Inspiradas no Programa do MFA, ainda hoje identificam a matriz criada com o 25 de Abril, e a sua consagração no texto Constitucional, apesar das mutilações de que tem sido alvo pelos inimigos confessos da revolução, constitui testemunho da força que continuam a ter no coração dos trabalhadores e do povo, sendo justamente chamadas Conquistas da Revolução.
Importa, no entanto, ter presente que no quadro complexo das relações das forças político-militares representadas no governo e outras instâncias do poder político e militar provisório, a acção convergente das massas populares com os militares revolucionários foi determinante para a evolução do curso revolucionário. A Aliança Povo-MFArevelou-se, neste caso, como mais uma singularidade de extraordinária importância no processo revolucionário em Portugal.
     Vasco Gonçalves, primeiro-ministro, sofreu injúrias efoi sujeito a intimidações e ultimatos. O ódio dos capitalistas e latifundiários contra os defensores da revolução era tão grande que, organizados em torno das organizações contra-revolucionárias da CAP, da CIP, do ELP, apoiadas logística e operacionalmente pela CIA, perpetraram inúmeros actos terroristas no país. Precisamente no mesmo dia de hoje, em 30 de Junho de 1976, a sede da Intersindical foi também alvo de um atentado bombista. Mas Vasco Gonçalves, homem corajoso, não abandonou o seu posto de combate nem fugiu ao confronto, enfrentou destemidamente os golpistas do 28 de Setembro e do 11 de Março, manteve-se sempre do lado certo, sempre ao lado dos trabalhadores e do seu povo.
     Álvaro Cunhal, na sua obra “A verdade e Mentira na Revolução de Abril – a contra-revolução confessa-se”, escreve: «Vasco Gonçalves era particularmente visado. A reacção não lhe perdoava ser coerente e corajoso e ter desempenhado importante papel para as derrotas das forças reaccionárias, para a conquista das liberdades e da democracia».
     O próprio General, em entrevista ao “militante”, de Abril de 1999, depois de lhe ter sido perguntado como foi possível concretizar, nesse quadro tão explosivo, avanços tão extraordinários, responde desta maneira: «O contexto era o do Povo-MFA. Havia a necessidade imperiosa de fazer a descolonização contra os obstáculos levantados pelas facções neocolonialistas. Vivíamos um clima de sabotagem e oposição dos meios económicos dominantes: tinham perdido o poder político, mas mantinham o económico, facto que lhes permitia desorganizar a actividade económica, promover a fuga de divisas, o desemprego, etc., lutar de várias formas contra a nova ordem democrática».
     Vasco Gonçalves tinha, na verdade, uma ideia muito clara de que as transformações sociais e as conquistas revolucionárias só seriam possíveis pela luta dos trabalhadores e acção determinante das massas populares. Homem culto e de elevada consciência de classe, conhecedor do papel histórico dos trabalhadores e do movimento sindical português no desenvolvimento das lutas reivindicativas e da contestação à ditadura, o General compreendia que esta era a força motora da revolução, na base da qual se poderiam superar as contradições existentes no aparelho político-militar e avançar no processo revolucionário, através da acção conjugada das massas populares e do Movimento das Forças Armadas.
Na realidade, quer o levantamento popular, logo após o golpe militar, quer as gigantescas manifestações unitárias do 1º de Maio de  1974 convocadas pela Intersindical no curto espaço de uma semana, deram expressão à imensa força autónoma e independente do movimento operário e popular, afirmando-o como uma poderosa realidade da vida nacional à qual estava reservado um papel determinante no curso da revolução portuguesa.
Entretanto, perante a tentativa de alguns escribas em reescrever a História, é preciso lembrar que esse papel desempenhado pela classe operária e o movimento popular é inseparável do seu percurso de décadas de duras lutas sociais e políticas contra o regime fascista e, é Inseparável também, da furiosa campanha que ontem, como hoje, foi e é lançada contraas forças progressistas e revolucionárias que se identificam, apoiam e lutam pelo reforço da unidade da classe operária e de todos os trabalhadores.
Mas a confiança e esperança que Vasco Gonçalves depositava na acção criadora das massas trabalhadoras, pode ver-se, também, no apelo sobre o papel destes na batalha da produção, apelo publicado em 7 de Maio de 1975 no órgão informativo da Intersindical Nacional, no Jornal “Alavanca”: «Estes obstáculos que vencemos ensinam-nos muita coisa. Principalmente, que cada dificuldade que se nos depara, depois de vencida, é um passo em frente que damos: nós avançamos combatendo os nossos inimigos. Foi o vencer-se a crise Palma Carlos que criou condições para o reconhecimento do direito dos povos à autodeterminação e independência, facto que trouxe de imediato, ao Povo Português e aos povos das antigas colónias, o fim da guerra. Foi ovencer-se o 28 de Setembro que estreitou a aliança Povo-MFA, criando condições para uma maior clarificação do processo revolucionário.(…)Foi o vencer-se o 11 de Março que deu novo impulso à revolução, levando a nova Assembleia do MFA, reunida nessa noite, com a presença de oficiais, sargentos e praças, a abrir caminho para as grandes medidas que se seguiram: Instituição do MFA, criação do Conselho da Revolução, decisão da nacionalização da Banca, dos Seguros e sectores básicos da nossa economia, início da reforma Agrária e definição da opção Socialista para a Revolução Portuguesa. (…) O 11 de Março criou também condições mais favoráveis ao Povo Português no campo político e económico, condição para que, como diz o Conselho da Revolução, “os trabalhadores sintam que a economia já não lhes é estranha, ou seja, que a construção socialista da economia é tarefa deles e para eles. Isto implica a afirmação clara do princípio do controlo organizado da produção pelos trabalhadores para objectivos de produção e eficiência, coordenadas pelos órgãos centrais do planeamento. (…) Estamos caldeados pela luta, como acabamos de ver, e não são as dificuldades que nos metem medo, pois, ultrapassadas que sejam, andamos para a frente».  
    Era, assim, o companheiro Vasco. Homem vertical que esconjurava a pseudo-neutralidade, de uma pureza sem igual que o levava a dizer com absoluta sinceridade que «…a maior alegria da sua vida tinha sido participar no 25 de Abril e viver aqueles momentos como primeiro-ministro».
     A exaltação de Vasco Gonçalves por ter protagonizado um dos mais belos períodos da nossa História recente, está na razão inversa dos ódios lançadas por todos aqueles que,conspirando contra as conquistas  sociais e as transformações económicas em curso, o caluniaram de aventureiro. Do mesmo modo, aliás, que também caluniavam a acção das forças revolucionárias, nomeadamente os comunistas e a Intersindical, a quem acusavam de voluntarismo revolucionário. A falsidade destes ataques mostra, afinal, como foi certeira e bem dirigida ao coração do grande capital nacional e imperialista a acção revolucionária de desmantelamento da base económica da ditadura.
De facto, as nacionalizações, tal como o controlo operário e a gestão das empresas pelos trabalhadores, surgiram não apenas como uma necessidade de defender e dinamizar as actividades económicas paralisadas ou comprometidas pela sabotagem  dos inimigos de classe mas, também, como uma necessidade para defender as liberdades e a democracia que estavam em processo de instauração, perante a agudização da luta de classes.
À nacionalização da Banca logo na noite de 13 para 14 de Março de 1975, como resposta ao comprometimento directo no golpe do 11 de Março dos grandes capitalistas e agrários, seguiram-se a nacionalização de outros importantes sectores e empresas da economia – seguros, electricidade, petróleo e petroquímica, siderurgia, cimentos e vidro, pirites, adubos, construção naval, transportes terrestres, marítimos e aéreos, entre outros. No final de 1975 o número de empresas nacionalizadas era cerca de 250, a que se juntavam outras tantas que estavam sob intervenção do Estado.
No discurso que dirigiu aos delegados ao Congresso dos Sindicatos, realizado em Julho de 1975, Vasco Gonçalves mais uma vez enaltece a iniciativa dos trabalhadores no processo das nacionalizações e salienta o valor da unidade como um princípio fundamental para a defesa dos seus interesses de classe: «Esta luta é ume luta de morte contra o capitalismo. As formas a que recorre o grande capital, quer o nacional quero internacional, para travar este processo, são múltiplas. É preciso ter uma actuação permanente. É preciso ter muita firmeza, espírito de sacrifício, estar-se disposto a entregar-setotalmente à Pátria e ao Povo. Vós tendes um papel fundamental a desempenhar como vanguarda dos trabalhadores. Cada um de vós, quando sair daqui, deve ser um pólo de irradiação das ideias que aqui foram expostas, um pólo de irradiação da vigilância popular. Deveis combater intensamente o divisionismo nas vossas fileiras, E eu tenho uma grande alegria por saber que este Congresso em decorrido sob o signo da unidade».
Amigos e camaradas,
Procurei com este modesto testemunho traçar um breve retrato de Vasco Gonçalves, do enorme contributo que deu ao desenvolvimento do processo revolucionário, do homem verdadeiro que até ao fim dos seus dias nunca desistiu ou renegou o seu compromisso com os trabalhadores, com o povo, com a verdade.
Homem lúcido, dizendo por vezes que estava ele próprio em permanente revolução, tinha uma ética de tal modo irrepreensível que o levava a dizer também que, por amor à verdade, reconhecia ser muito difícil uma pessoa despojar-se inteiramente da sua condição de classe e interessar-se sem vacilações pelos problemas dos mais desfavorecidos, dos mais pobres, ser coerentemente revolucionário até ao fim.
O mesmo Homem generoso que muitos anos depois, mantendo-se coerentemente revolucionário, disse que se não tivesse participado no 25 de Abril, se a queda do fascismo lhe passasse ao lado, ficaria com um desgosto para toda a vida.
O exemplo de Vasco Gonçalves deve inspirar-nos a continuar a luta.
É certo que o processo iniciado a 25 de Abril foi uma revolução inacabada. A contra-revolução travou o processo de desenvolvimento da sociedade portuguesa visando o aprofundamento da democracia nas suas várias vertentes. A greve crise económica que o país está hoje a viver, e as suas consequências no plano político, social e cultural, resulta da ofensiva capitalista prosseguida pelos sucessivos governos do PS, PSD e CDS/PP nos últimos 36 anos, assentes na destruição dos sectores produtivos, no desaproveitamento dos recursos nacionais e na alienação de empresas e sectores estratégicos. Esta ofensiva consubstancia a posição ideológica de uma classe dominante que despreza e submete os interesses de Portugal e do povo português aos interesses particulares dos grupos económicos e financeiros, nacionais e estrangeiros.  
A calamidade do desemprego, que atinge mais de um milhão e 200 mil trabalhadores e trabalhadoras, dos quais 800 mil estão a sobreviver sem qualquer protecção social; a quebra brutal dos salários e o aumento insuportável do custo de vida, das rendas de casa, que já pôs mais de três milhões de portugueses na extrema miséria ou e situação de grave carência económica; o ataque feroz às funções socias do Estado (Segurança Social, Saúde, Educação), visando o seu desmantelamento e privatização, assim como a ofensiva contra o Poder Local Democrático; as alterações da legislação laboral, com o objectivo de aumentar a exploração dos trabalhadores e fazer diminuir ainda mais os salários, agravando o empobrecimento das famílias, são consequência da política de direita levada a cabo por aqueles partidos.
Só a ruptura com o sistema capitalista pode impedir o prosseguimento desta política e evitar mais destruição para o país e mais sacrifícios e miséria para o povo. A experiência histórica mostra que o capitalismo está roído por contradições insolúveis, que não consegue resolver os mais graves problemas da humanidade e que agrava dia a dia a sua natureza exploradora, opressora e agressiva.
Saudando e evocando a memória de Vasco Gonçalves, nós afirmamos que o socialismo continua a ser a única alternativa histórica ao capitalismo e a mais válida esperança da humanidade. Com esse objectivo, a grande questão da actualidade política e do nosso futuro colectivo é a intensificação da luta pela exigência de uma ruptura com apolíticade direita e a construção de um novo rumo para Portugal.
Vasco Gonçalves,foi o homem verdadeiro cujaparticipação decisiva na Revolução de Abril ficará para sempre gravada na nossa História. Foi o Homem que até ao fim dos seus dias nunca desistiu ou renegou o seu compromisso com a verdade.
    Saúdo a Direcção da Associação Conquistas de Revolução por ter promovido esta justíssima homenagem a Vasco Gonçalves, ao militar de Abril, ao soldado do Povo. Saúdo, também, a Voz do Operário pelo apoio prestado à iniciativa.
O companheiro Vasco morreu coerentemente revolucionário. Mas o seu exemplo perdura e continua bem vivo dentro de nós.  

Intervenção de Manuel Begonha, Presidente da Associação Conquistas da Revolução, na Homenagem ao General Vasco Gonçalves




Vasco Gonçalves é uma figura inspiradora. Não deve, contudo, ser apenas evocada a sua acção, mas também o impulso que nos abrirá o futuro. Vasco Gonçalves tinha um futuro para Portugal e é justamente esse que pretendemos alcançar.
Há que desmascarar e desmistificar estes democratas de última hora que pretendem governar-nos sem que jamais sejam capazes de enfrentar os detentores do capital, não só porque se julgam da mesma classe social, mas também porque o seu sentido de servir o país tem por objectivo virem a ser seus assalariados.
É então claro, estarmos a ser objecto de decisões de carácter ideológico, provenientes dos que dominam a comunidade europeia.
Os recursos provenientes desta Europa não se destinam a criar riqueza, diminuir o desemprego, melhorar a prestação dos Serviços de Saúde, estancar a emigração ou devolver os subsídios sonegados aos funcionários públicos e reformados, mas sim a perpetuar os ricos, satisfazer os monopólios e assegurar o apoio dos lobbies.
Precisamos de dinamizar a actividade económica. A este respeito, dizia Vasco Gonçalves. “Esta dinamização vai orientar-se essencialmente na consolidação da política antimonopolista do Programa do MFA e na defesa das classes mais desfavorecidas. Esta política foi iniciada com a nacionalização da banca e dos seguros e com a intervenção decidida em algumas empresas chave de vários sectores da actividade económica. Para a consecução desta finalidade é necessário por a funcionar uma nova economia que conduza a uma verdadeira democracia política, económica e social.”
Na época que atravessamos de restauração do capitalismo monopolista de Estado – fortemente ajudado pela abertura em 1982 dos sectores estratégicos à iniciativa privada e da diminuição do Estado na economia –, agudizam-se as relações entre o capital e o trabalho, aumentando a distância entre ricos e pobres, com a desvalorização do trabalho, jogando-se entre estes dois polos o conceito da “liberdade”, que apenas terá significado se esta se encontrar na luta colectiva dos explorados, por uma sociedade onde o homem se afirma como indivíduo criador.
Em virtude da diminuição da actividade económica e consequente empobrecimento do nosso povo, tendem a surgir crises das mais diversas origens. A dicotomia sobrevivência-cidadania, toma novas proporções, sendo que a cidadania surge como um recurso para a sobrevivência.
Afirmar hoje a cidadania torna-se um imperativo de consciência que exige coragem e determinação e continua a ser um mecanismo libertador. Os movimentos que se vão constituindo para sustentar estas causas, deverão merecer o nosso apoio, quer se manifestem nas ruas, empresas ou outros locais de trabalho.
Isto porque, os serviços públicos são interpretados pelos actuais governantes, como sua propriedade.
O trabalho produtivo, é atributo de uma nova classe social esmagada financeira e culturalmente por um poder dominante internacional que não se revê na solidariedade.
A tentativa de reduzir os custos unitários do trabalho, não é senão uma forma de transferir os ganhos de produtividade para os representantes do capital monopolista, asfixiando assim os trabalhadores, o que irá provocar uma desvalorização progressiva do valor do trabalho, com o desemprego a aumentar, bem como a dependência externa.
A saída para a crise deverá orientar-se para a melhoria de vida dos mais pobres, voltando às bases de uma democracia avançada tal como Vasco Gonçalves preconizou e pôs em prática por forma a criar as condições para uma efectiva modificação da nossa sociedade.
“A classe dominante de hoje, a burguesia monopolista e latifundiária foi profundamente abalada no seu poder económico e político, depois do 25 de Abril, pelas conquistas democráticas alcançadas pelo povo português.
A política de restauração capitalista, de restauração dos privilégios da grande burguesia, conduzida pelos sucessivos governos constitucionais, tem sido uma política de subordinação, dia a dia mais grave, da política e da economia portuguesas ao grande capital internacional, à banca internacional privada, às empresas transnacionais, à CEE, à política diplomática e militar dos EUA e da NATO, etc”.
Não quero deixar de sublinhar a forma como para a salvação da economia e independência nacional surgiram as nacionalizações.
Ao contrário do que a direita pretende fazer crer, as nacionalizações e a reforma agrária não constituíram um assalto e uma pilhagem ao património individual, ou uma apropriação das empresas rentáveis.
Ocorreram sim apropriações de gado e máquinas agrícolas, pertença das cooperativas, pelos proprietários de terras, após a lei Barreto.
O que existia e o que ainda hoje subsiste era a questão do domínio da terra. Afirmou um camponês em Beja: ”No Alentejo, os camponeses assumem formas avançadas de luta, ocupando terras abandonadas pelos grandes proprietários e encetando uma acção patriótica de limpar essas terras e de as tornar aráveis e produtivas.”
Voltando à questão do domínio da terra e da natureza da respectiva utilização, seria interessante verificar quais as zonas de intervenção da Reforma Agrária que estão presentemente ocupadas por Campos de Golfe, Reservas de Caça e urbanizações turísticas e ainda as que permanecem ao abandono.
Continuando no campo das nacionalizações, quando da preparação dos programas de medidas económicas de emergência, Vasco Gonçalves alerta para os perigos decorrentes de não salvaguardarmos as medidas que se possam tornar gravosas para Portugal: “Deverão ser completados os passos já dados no sentido da nacionalização dos sectores básicos da actividade económica (indústria, transportes e comunicações) e ainda garantir a independência nacional para um socialismo verdadeiramente português, evitando situações extremas de crise económica, que nos coloquem em reforçadas e delicadas dependências externas”.
Ainda sobre o significado da nacionalização da banca disse em 1975, Vasco Gonçalves: “Significa que o dinheiro desse mesmo povo, depositado nos bancos, vai deixar de servir para especulações fraudulentas de uma minoria privilegiada, para operações não em benefício de um grupo minoritário, operações essas feitas sobretudo dentro dos seus próprios interesses, vai passar a servir as verdadeiras necessidades do povo, no desenvolvimento da agricultura, da indústria, do comércio interno e externo.
O Estado fica com a possibilidade de orientar a política de crédito concretamente. Fica com a possibilidade de aumentar o crédito para aqueles sectores onde ele é mais necessário, para o desenvolvimento global do nosso País”.
O estudo e compreensão do pensamento de Vasco Gonçalves, da sua visão do mundo e do seu espírito de combate podem ajudar-nos a entender, afrontar e superar os desafios com que estamos confrontados.
O que é nos dias de hoje falar das conquistas da Revolução? Quais as conquistas objectivas que subsistem?
Estas tal como as concebemos a 25 de Abril, não se poderão reproduzir nas actuais condições. É óbvio que subjacente a elas, persiste a vontade do povo português de ser livre, de preservar a sua identidade cultural e de estar disposto a lutar por causas justas.
Podemos encontrar focos de resistência, na insidiosa lente da lucidez que nos desvenda o espectro de uma sociedade com uma inconsistência trágica, a caminhar para o vazio. O mundo parece ter tomado o freio nos dentes e galopar numa direcção desconhecida, conduzido por uma elites políticas e económicas podres de imoralidade e devassidão.
Mas a luta pela independência nacional é indissociável da luta contra os privilégios da classe dominante, uma vez que esta para conservar as suas posições está disposta a partilhar a soberania nacional com o capitalismo internacional.
Mesmo que os resultados desta luta pareçam ser insignificantes é no entanto indispensável para a preparação das lutas que se seguirão.
É um projecto que exige tempo, mas não é inalcançável, desde que se tenha bem presente as memórias das lutas passadas.
Não somos cépticos e cremos não ser inútil o esforço despendido.
Não negamos o conceito expresso nas conquistas da Revolução, mas presentemente temos de as salvaguardar por outros meios.
Como alguém disse há muito tempo: “Aqueles que sempre desejam que o passado regresse, que não dão um passo enquanto tudo avança e que, por um impotente elogio dos tempos passados e um anémico maldizer do presente, são a prova viva de que não conseguem actuar no presente”.
É certo que as condições actuais são diferentes, mas não seremos os mesmos homens e mulheres, agora reforçados por uma juventude tão maltratada, que se ergueram contra a opressão, numa época nova da história de um povo então despolitizado, semi-analfabeto, sem a experiência que um combate longo e duro teria fermentado e que levaram Vasco Gonçalves às nacionalizações, à Reforma Agrária, à descolonização e ao controlo operário da produção?
Não há alternativa: ou assumimos uma atitude passiva e alienamos o que resta das conquistas de Abril, ou combatemos por elas.
Se o não fizermos, bastamo-nos a nós mesmos para nos derrotarmos.
Só lutando venceremos, cumprindo assim o sonho do Homem cuja memória estamos hoje aqui a honrar.

VIVA VASCO GONÇALVES
VIVA PORTUGAL

"Vasco nome de Abril"





















“Vasco, nome de Abril” Homenagem ao General Vasco Gonçalves


Apresentação de Cândido Mota

Poemas ditos por Fernanda Lapa e Fernando Tavares Marques

Canções por Samuel

Intervenções de Armando Farias, António Gervásio Manuel Begonha – Presidente da ACR

Manifestação Contra a Exploração e o Empobrecimento



A concentração da Associação Conquistas da Revolução para a manifestação far-se-á às 15h00 junto à entrada da Av. Duque de Loulé.

Intervenção de Manuel Begonha, Presidente da Associação Conquistas da Revolução, na romagem à campa do General Vasco Gonçalves





Intervenção de Manuel Begonha, Presidente da Associação Conquistas da Revolução, na romagem à campa do General Vasco Gonçalves

Estamos aqui para evocar o 7º aniversário da morte do General Vasco Gonçalves.
Conheci o General em 1974, tendo privado assiduamente com ele durante a fase mais intensa da Revolução e com frequência até à sua morte.
Como conheci bem de quem estou a falar gostaria de partilhar convosco alguns dos traços que mais me impressionaram do seu carácter, em momentos excepcionais em que se não cultivava o politicamente correcto, nem se recorria a promessas e mentiras com preocupações eleitoralistas.
Vasco Gonçalves vivia preocupado com o tempo. Tempo que faltava para o que era preciso construir e ajudava os inimigos da Revolução.
Transportava consigo os ensinamentos da sua condição de engenheiro militar, que se reflectiam na forma como exercia a liderança, na organização, no rigor, na capacidade de análise e no respeito pela opinião dos outros.
Desde cedo, se dedicou ao estudo e à interpretação dos processos históricos, adquirindo assim uma cultura sólida que lhe permitia ir avaliando o presente e projectar o futuro.
Possuía uma enorme fraternidade e respeito pelo povo português para quem olhava pela janela do passado, ancorando o seu pensamento nas tábuas dessa vida sofrida.
Gostava de consultar aqueles em quem confiava, mesmo os mais novos, antes de tomar decisões ou para procurar superar as suas dúvidas, inquietações ou incertezas.
Era um homem limpo de preconceitos e de ideais puros.
Embora não tolerasse desvios de carácter foi vítima de deslealdades, traições e calúnias que precipitaram o avanço da contra-Revolução.
Vivemos então uma época em que se verificou o aumento significativo de mulheres que saíram à rua para se envolver no combate político. Não quero deixar de destacar Aida Gonçalves, notável mulher do nosso General que sempre esteve a seu lado, dando-lhe um suporte muito valioso em todas as ocasiões mesmo as mais difíceis.
Estamos no talhão dos combatentes deste cemitério e não é por acaso. Vasco Gonçalves sempre se mostrou um combatente e não deixou de exortar o nosso povo ao combate.
“A nossa luta desenvolve-se em torno do que é e não do que gostaríamos que fosse. Os povos só se libertam pela luta intensa, incansável e de todos os dias, contra a opressão, quando se cansam perdem; para que a luta triunfe é necessário que o povo tenha consciência da sua exploração e também de quem o explora e como 0 explora. Só assim são aceitáveis os sacrifícios que a Revolução pede, só assim aparece claramente projectado o inimigo do povo”.
Passado todo este tempo, reconstituíram-se os antigos grupos económicos e formaram-se outros. O poder económico condiciona o poder político, alterando as regras da democracia e a própria Constituição.
A Justiça é implacável para os pequenos delitos, mas permissiva para os grandes grupos financeiros. Os governantes são incompetentes, imaturos e prepotentes.
Reina a impunidade e a insensibilidade social.
Neste ambiente de convulsão da história é preciso preservar o pensamento de Vasco Gonçalves pois, como diz Ondjaki “Nós somos nosso próprio esquecimento – borracha do futuro a apagar o passado nas ardósias do presente”.
Mas como no passado, a nossa missão é combater. Combater a desinformação e as intenções deste Governo que se empenha em acabar com o Estado Social, quebrar o ânimo dos trabalhadores reduzindo-lhes o salário, para ter um exército de desempregados que se lancem numa disputa desesperada por um posto de trabalho sem garantias.
Assim sendo, compete-nos uma tarefa fundamental para conquistar um futuro melhor que é informar e esclarecer os indecisos e os explorados.
Vêm agora louvar a nossa paciência.
Recusamos a vossa hipócrita simpatia. Queremos sim, lutar nas cidades e nos campos para travar este Governo que nos está a conduzir irreversivelmente para o desastre.
No respeito pelos limites constitucionais, temos de quebrar este ciclo de governantes que se vêm alternando no poder. É necessário que o voto mude, para que não fique tudo na mesma e o 25 de Abril seja cumprido.
Queremos construir um novo futuro para a nossa Pátria. Inspiremo-nos neste Homem e sejamos dignos da sua memória.
VIVA O GENERAL VASCO GONÇALVES
VIVA PORTUGAL

Romagem à campa do General Vasco Gonçalves



 11 de Junho - 11.30 horas - Cemitério do Alto de São João


A Associação Conquistas da Revolução promove no dia 11 de Junho, pelas 11.30 horas, uma romagem à campa do General Vasco Gonçalves, no cemitério do Alto de São João. Esta romagem tem por objectivo preservar a memória do General Vasco Gonçalves, a sua figura ímpar, o seu exemplo de dignidade, de coragem, de inteireza de carácter, a sua superior estatura moral, política, intelectual e humana, a sua dedicação a Portugal e aos portugueses.

SAUDAÇÃO AO 1º DE MAIO




SAUDAÇÃO AO 1º DE MAIO


Neste lº de Maio, Dia do Trabalhador, saudamos os trabalhadores portugueses e a sua central sindical, a CGTP – IN - e manifestamos a nossa total solidariedade com a luta por eles desenvolvida.

Neste 1º de Maio, Dia do Trabalhador, saudamos as massas trabalhadoras que - dando continuidade às importantes jornadas que foram, nomeadamente, as recentes greves gerais e as grandiosas manifestações de massas realizadas nos últimos meses - vêm à rua comemorar o seu Dia, lutando pelos seus direitos, por Abril, pelo futuro - e que, certamente, aqui afirmarão, hoje, a sua determinação de prosseguir, intensificar e ampliar a luta necessária.

Neste 1º de Maio, Dia do Trabalhador, saudamos a luta dos  trabalhadores pelo direito ao emprego com direitos, contra as alterações à legislação laboral, contra a precariedade e o desemprego, contra os salários em atraso, contra os roubos cometidos por sucessivos governos representantes dos interesses dos grandes grupos económicos e financeiros – com a certeza de que, lutando pelos seus interesses e direitos, é por Abril e pelas suas conquistas que os trabalhadores lutam.

Neste 1º de Maio, Dia do Trabalhador, lembramos o Primeiro 1º de Maio, aquele em que, uma semana após o Dia da Liberdade, os trabalhadores, o povo e os militares de Abril, iniciaram a caminhada rumo às grandes conquistas revolucionárias que viriam a transformar profunda e positivamente Portugal – e saudamos essas conquistas que, alcançadas através da unidade POVO/MFA, foram componentes estruturantes da democracia de Abril consagrada na Constituição da República Portuguesa.

Neste 1º de Maio, Dia do Trabalhador, saudamos a luta das massas trabalhadoras e populares enquanto instrumento de acção essencial para derrotar a ofensiva dos partidos da política de direita contra Abril e para conquistar um futuro de desenvolvimento, progresso, liberdade e justiça social para Portugal – e recordamos palavras do general Vasco Gonçalves, dirigidas em 17 de Maio de 1975 aos trabalhadores da Sorefame: «Vós tendes na mão, vós e os outros trabalhadores, e aqueles que estão interessados em construir um Portugal democrático, um Portugal que aponte para o socialismo, vós tende na mão o futuro da nossa Pátria»

VIVA O 1º DE MAIO!
VIVA A LUTA DOS TRABALHADORES!

Intervenção de José Nunes Maia na Sessão Comemorativa das Nacionalizações


 Intervenção de José Nunes Maia 

           Professor Aposentado do ISCTE;
  Ex-Membro da Comissão de Fiscalização da Siderurgia Nacional, E. P., em representação dos   trabalhadores;
     Gestor eleito por larga maioria dos trabalhadores da Siderurgia Nacional, E.P. para integrar o respectivo Conselho de Gerência. Não tomou posse, alegadamente porque, desde o Governo de Maria de Lurdes Pintassilgo, a lei enquadradora não foi regulamentada;  Ex-Membro do Comité Consultivo da CECA, em representação da CGTP.


Reflexões sobre a Gestão das Empresas Nacionalizadas em 1975



Amigos, senhoras e senhores


Pode parecer um acaso que, em idade normal, eu tivesse cursado a licenciatura em engenharia no Instituto Superior Técnico, em Lisboa, e, quase imediatamente, exercido a profissão de engenheiro durante 19 anos na antiga Siderurgia Nacional, onde me empreguei em 1972, quando a Empresa era controlada pelo Grupo Champalimaud, mas cabe-me confessar que, em meu cálculo pessoal, sempre admitira que essa minha opção pessoal, de me empregar na Siderurgia Nacional – com efeito, como jovem engenheiro acabado de sair do “Técnico”, eu fora convidado a integrar o então Grupo CUF –, talvez me viesse a compensar, em termos de enriquecimento pessoal, pela experiência profissional numa Empresa que, a meus olhos, prometia desempenhar um papel relevante no desenvolvimento industrial português, afastada que fosse a teia de interesses estabelecida em torno do Grupo Champalimaud, teia de interesses que, em muitos aspectos, impedia a Empresa de exercer aquele papel, obviamente por até então estar sobretudo ao serviço dos interesses, e dos caprichos, daquele Grupo.
Devo, pois, reconhecer que aquela aposta pessoal veio a ser razoavelmente ganha pela chegada do 25 de Abril, e, em particular, pela radicalização do processo revolucionário com a chegada das nacionalizações dos então chamados sectores básicos da economia, na sequência do 11 de Março de 1975.
A nacionalização da Siderurgia Nacional veio, está claro, a constituir-se como um elemento importante na consolidação do poder político democrático, e então revolucionário, ou não tivesse António Champalimaud jogado habilmente com a arma do vencimento mínimo logo em Maio de 1974, “decretando” então aumentos bem superiores aos reclamados pelos sindicatos, criando por essa demagógica via um sério problema ao Governo Provisório, como depois mo confirmou, aliás, o próprio General Vasco Gonçalves. E António Champalimaud não se inibiu de jogar aquela arma apesar de, à data do 25 de Abril, já se arrastar por perto de 30 meses o período de “negociação colectiva” que, num ápice, teve assim o seu epílogo após o célebre “1º de Maio” de 1974. Esvaziando, será oportuno sublinhá-lo, as manobras dilatórias conduzidas, no quadro da negociação colectiva, durante mais de 2 anos pela Administração da Siderurgia Nacional, por si controlada, mas para deitar mão, já se vê, a manobras noutro tabuleiro, sob o óbvio pretexto da mudança política que então se vivia em Portugal.
Invoco este pormenor por ser público, e por ser uma eloquente prova das manobras que, em particular quando está acesa a luta de classes, os detentores dum monopólio, ou dum oligopólio, podem desenvolver. Digamo-lo claramente: do ponto de vista da luta de classes, as formações monopolísticas são uma arma frequentemente poderosa a favor de quem as detém, pelo que, em termos de política económica, bem podemos proclamar que, se é certo que um monopólio só deve ser tolerado quando estamos perante a inevitabilidade da sua emergência por razões “naturais” como a economia de escala, a sua existência jamais é tolerável em mãos privadas. Por mais que nos venham com a conversa das entidades supostamente reguladoras da sua actividade, como, à saciedade, se vem verificando recentemente entre nós desde logo na questão dos preços nas áreas, hoje todas de importância capital, dos combustíveis, da electricidade ou das comunicações, após a reprivatização destes sectores.
A nacionalização da Siderurgia Nacional beneficia aqui de destaque pela mera circunstância da história pessoal deste orador, mas importa reconhecer que ela não é mais do que uma ilustração típica dos problemas com que se defrontou a implantação da democracia, que, após o golpe do 11 de Março de 1975, não pôde dispensar o recurso à nacionalização de várias indústrias então consideradas básicas.
Percebe-se assim a lógica de se ter vindo a incluir as nacionalizações das principais empresas industriais na bandeira das Conquistas de Abril.

Mas importa ter em conta que, em termos de gestão destas importantes empresas na esfera nacional, e no quadro do necessário desenvolvimento económico almejado com o 25 de Abril, outras questões de grande alcance se impuseram. Destaco, em particular, a questão da adequação do aparelho técnico dessas empresas às necessidades do adensamento do tecido económico português, desde logo na vertente industrial.
Tornou-se então evidente para muitas mais pessoas que, também nesse aspecto, severas eram as consequências da herança da indústria monopolizada em mãos privadas, monopolização que, para total garantia dos interesses instalados, até tinha contado com a oferta, por Salazar, do chamado regime de condicionamento industrial. Note-se que este regime era, à época, tão anacrónico, que mesmo adeptos da via capitalista se distanciavam dele, tal o convite implícito que dele decorria a um considerável marasmo no desenvolvimento técnico industrial que os monopolistas privados impuseram ao país. Não estou, esclareça-se, a sugerir que nada de interesse existia em Portugal na esfera industrial, ou que a indústria existente à data do 25 de Abril lembrava mais a indústria existente nos nossos vizinhos europeus no início do século XX, estou apenas a sublinhar que, no geral, grande era o atraso do nosso ambiente industrial em relação ao desses países. E este atraso era tão pesado que não é exagero afirmar-se, sem pretender afastar os erros da política industrial anti-Abril seguida nas últimas décadas, que nele se podem encontar as profundas raízes da considerável fragilidade da nossa actual indústria, fragilidade que nem a ocorrência de 2 PEDIP, com apoio dito comunitário europeu, resolveu capazmente, longe disso, pelo que é de reconsiderar, à luz da história, que a necessária ultrapassagem deste problema de atraso vai ter de passar pela nacionalização dos sectores que a actual estrutura da indústria contenha e que possam desempenhar papel básico na dinamização da indústria em Portugal. Uma coisa é certa, e até alguns liberais, ou, na prática, convertidos ao neoliberalismo, vão reconhecendo: Portugal carece de re-industrialização, sob pena de, também por essa lacuna, não se vislumbrar saída duradoura para a crise em que a política anti-Abril de há muito vem mergulhando o país.
Quem se manteve mais longe da análise destes problemas poderá estranhar estas minhas palavras, por idealizar que a questão das nacionalizações só interessaria à esfera política, não vendo nas nacionalizações um caminho afinal indispensável à solução de muitas e sérias questões técnicas das empresas nacionalizadas. Pois, é caso para reconhecer que muito eficaz foi a propaganda anti-Abril: admito que grande parte dos portugueses se tenha deixado convencer de que os grupos monopolistas não cometiam erros técnicos e que, quanto a prejuízos, essas empresas só neles incorriam enquanto empresas nacionalizadas.
Deixem-me por isso, uma vez mais, recorrer aqui ao exemplo da Siderurgia Nacional para ilustrar 2 problemas técnicos da maior gravidade com que a nacionalização teve de se defrontar: a localização da fábrica do Seixal, a escala do alto-forno instalado.
A verdade é que a localização da fábrica no Seixal só satisfazia um bom critério de localização, a saber, o de o Seixal integrar a Grande Lisboa, a região maior consumidora de aço no país, pelo que a distribuição dos produtos siderúrgicos ficava deste ponto de vista facilitada. Mas já quanto ao meio de transporte, as soluções ao dispor da Empresa estavam, na prática, confinadas à via do camião, visto que, então, a fábrica não tinha ligação à rede ferroviária nacional. Dir-se-á que lhe cabia explorar a via marítima, mas a verdade é que esta via só podia ser usada com sérias limitações: os mais velhos talvez se lembrem da trasfega de minério e de carvão que se fazia em pleno estuário do Tejo, de barcos graneleiros de 30 milhares de toneladas para pequenas barcaças com capacidade nunca superior a 2 mil toneladas, barcaças que transportavam finalmente aquelas matérias-primas até ao muito modesto cais da fábrica do Seixal, no estuário do Coina, num processo caro e poluidor. Ou seja, a fábrica do Seixal estava geograficamente próxima do mar, podendo, pensaria qualquer especialista siderúrgico, retirar partido dessa localização como aconteceu a muitas empresas siderúrgicas que, por tal motivo, eram colectivamente consideradas “costeiras”, o que, obviamente, lhes permitia, e permite, receber matérias-primas e expedir produtos acabados em barcos grandes e mais económicos. Mas o problema é que a fábrica do Seixal não era “costeira”, porque os barcos grandes não chegavam lá. Como também não chegavam ao Barreiro, lembremo-nos, limitando igualmente a exploração do complexo da Quimigal. Enfim, tivesse a decisão de localização da fábrica do Seixal sido bem estudada pelo Grupo Champalimaud e facilmente se teria encontrado o porto de Setúbal como a decisão óptima para a localização da fábrica siderúrgica integrada. Eis por que, chegada a nacionalização, não pôde a Siderurgia Nacional cumprir tão exemplarmente quanto conviria a uma economia ao serviço do povo fornecer aço não só de qualidade como a preço mais módico.
Quanto à escala do alto-forno, parâmetro de enorme importância no plano de custos de produção fabril, bastará colocar a questão: quantos altos-fornos com capacidade anual inferior a meio milhão de toneladas (como era o caso do alto-forno do Seixal) existiam na Europa na circunstância de serem aparelhos únicos das respectivas empresas? Só já depois da nacionalização foi esta questão encarada, através da aquisição de 1 alto-forno de 1 milhão de toneladas. Mas foi sol de pouca dura, o então primeiro-ministro Cavaco Silva, em mais uma das suas fulgurantes decisões sob a dócil submissão aos interesses estrangeiros, tratou de mandar vendê-lo, não permitindo a sua instalação em Portugal, ferindo, no enquadramento comunitário, finalmente de morte a continuidade da siderurgia integrada[1] em Portugal. E remetendo-nos, é a amarga verdade, para a situação de país que actualmente dispõe de uma siderurgia afinal bem típica dos primeiros passos de insdustrialização dos países subdesenvolvidos, que, no essencial, reduz a sua actividade à fusão de sucatas ferrosas com a produção de varão para betão.
Isto é, a Siderurgia Nacional nacionalizada herdou importantes problemas técnicos, e económicos,  que apenas após a nacionalização começaram a ser equacionados. Mas na voragem anti-Abril subsequente parte desses equacionamentos sequer vieram a ter expressão prática. A curteza de vistas foi, aliás, tamanha, que, decidida a reprivatização, muito espantado ficou o Governo, então de Cavaco Silva, com a ausência de candidatos à reprivatização. Nem Champalimaud, então já regressado às lides intrafronteiras, lhe pegou. Porque, obviamente, a cartilha neoliberal já estava então, e em força, em marcha na Siderurgia Nacional, com a inevitável degradação de muitos índices organizativos, técnicos e económicos. Cumpriu-se a seguir o caminho lógico da integração europeia, em clara antecipação do que, depois e nos nossos dias se vê: em Portugal reduza-se a siderurgia à mínima expressão, em favor das potências europeias, com destaque para a Alemanha, que precisava de assegurar mercado para as suas já muito produtivas siderurgias, que, aliás, continua a modernizar.

Amigos

Muitas e complexas questões se colocaram, portanto, à gestão das empresas nacionalizadas, mas, na minha perspectiva, essas dificuldades voltarão amanhã a ocorrer, quando encontrarmos colectivamente uma via capaz de contrariar as barreiras que se opõem ao nosso desenvolvimento económico, social, cultural. Um problema adicional é que essa dificuldades não vão repetir-se exactamente na espécie, na sequência, no ritmo.
Não quero empolar dificuldades, mas, em particular na minha qualidade de estudioso da gestão empresarial, gostava de deixar aqui a opinião de que, sem novo clima político, nada se conseguirá com efeito duradouro. Sequer recorrendo à ilusória segurança dada por uma boa Constituição, e por boas Leis-quadro, por exemplo relativas a novas nacionalizações. Digo ilusória porque, se atentarmos bem nas leis das nacionalizações e dos estatutos das empresas públicas que apareceram em 1975, concluiremos que, se não eram perfeitas, não foram os seus defeitos que impediram o almejado êxito perseguido pelas nacionalizações. Pelo contrário: posso testemunhar que, por exemplo no quadro da Siderurgia Nacional, era tão ampla e clara a leitura de obrigações mínimas dos gestores da Siderurgia Nacional, E. P., que, a partir de certa altura, se lhes ouviu: nós temos aqui obrigações estritas a cumprir, mas, afinal, só há um Partido, que por acaso não está no Governo, que defende as nacionalizações. Bem, acrescente-se, além do Partido, havia o empenho da maioria dos trabalhadores da Siderurgia Nacional e das suas organizações mais representativas, que bem podem orgulhar-se do que conseguiram realizar em termos de esclarecimento e mobilização.
Termino: as nacionalizações hão-de servir antes de mais como uma resposta e um instrumento políticos, mas o seu êxito vai depender também de uma delicada gestão nas diversas vertentes técnicas e económicas, doravante porventura até mais exigentes como, por exemplo, na dimensão ambiental, obviamente enquadradas por leis capazes, mas fraco alcance se conseguirá nessa caminhada se não houver empenho no trabalho dos respectivos trabalhadores e gestores. Sem esquecer que não há consolidações imutáveis ou irreversíveis em gestão, aqui como na política, pelo contrário: estamos no domínio do que apenas existe quando é construído e mantido, visando a criação de uma ordem que, por ser humanista, é complexa, é exigente, em busca não redutível a uma mera orientação como a de que o capitalismo se serve, a mera busca de lucro financeiro.
Não, o futuro que precisamos de construir é mais complexo do que o capitalismo pressupõe, mas é aquele que o nosso humanismo reclama.




Seixal, 28 de Abril de 2012



[1]              A que baseia a produção de aço a partir de minério de ferro e de carvão, em vez de a partir de sucatas ferrosas. 


Intervenção de Manuel Begonha na Sessão Comemorativa das Nacionalizações



Intervenção de Manuel Begonha, Presidente da Associação Conquistas da Revolução,  na Sessão Comemorativa das Nacionalizações



Como ouvimos nas importantes intervenções produzidas as nacionalizações foram uma imparável manifestação da vontade popular na defesa do interesse nacional numa época em que já ocorria todo o tipo e sabotagem económica.
As nacionalizações dos sectores básicos e estratégicos da economia enfraquecem os grupos monopolistas que dominavam o país, alterando radicalmente as suas estruturas económicas.
Como em todas as épocas singulares da história dos povos, surgiu um homem, o General Vasco Gonçalves, que com os seus governos provisórios foi capaz de transformar em lei estas fundamentais conquistas de Abril, que eram passos decisivos dados na criação das condições indispensáveis à construção do socialismo em Portugal.
Assim se pronunciou Vasco Gonçalves ao informar o decidido pelo Conselho da Revolução, no âmbito do Conselho Económico relativo à preparação dos programas de medidas económicas de emergência:
“Deverão ser completados os passos já dados no sentido da nacionalização dos sectores básicos da actividade económica (indústria, transportes e comunicações) e ainda garantir a independência nacional no arranque para um socialismo verdadeiramente português, evitando situações extremas de crise económica, que nos coloquem em reforçadas e delicadas dependências externas”.
Como sabemos os ideais de Abril têm vindo a ser combatidos por uma contra-revolução ultra liberal de carácter profundamente anti-social.
O governo decide e executa sem se preocupar com os reflexos que políticas não adequadas irão ter para o povo português e quais os custos associados.
Assistimos a permanentes actos de injustiça, como o apoio dado aqueles que no passado foram os responsáveis por esta situação – a banca e o capital internacional.
As empresas nacionalizadas, depois de tanta luta, são agora vendidas a preço de retalho.
As privatizações em curso não servem para reduzir o défice ou tornar as empresas rentáveis, mas representam a obediência cega à ideologia da direita.
Assim se compromete o futuro, deixando o nosso povo à beira de novos sacrifícios, pedidos àqueles que já se encontram no limite da sobrevivência e de uma forma de vida digna.
Hoje a tarefa revolucionária é desenvolver o espírito de luta.
Não podemos baixar os braços, mas sim criar o ânimo que nos empurrará para os grandes combates, neste caso a defesa do que resta das nacionalizações.
Para nós não poderá haver desistência, conformismo ou abandono de ideais.
Faremos de novo uma caminhada para um Portugal diferente, mais feliz, mais justo e mais solidário.

VIVA O 25 DE ABRIL
VIVA PORTUGAL




Seixal, 28 de Abril de 2012

Participação da ACR nas comemorações populares do 25 de Abril


SAUDAÇÃO AO 25 DE ABRIL





No momento em que comemoramos mais um aniversário do Dia da Liberdade, passo decisivo para a Revolução de Abril e para as suas conquistas históricas - que transformaram profunda e positivamente Portugal e constituíram a matriz da democracia mais avançada alguma vez existente no nosso País - a Associação Conquistas da Revolução saúda fraternalmente,
                                                           
os militares de Abril que, na madrugada do dia 25 de Abril de 1974, dando sequência à longa resistência dos trabalhadores e do povo ao regime fascista, derrubaram o governo de Marcelo Caetano e restituíram a liberdade aos portugueses, pondo fim a quase meio século de opressão e repressão.

o movimento operário e popular que, em aliança com o MFA, liquidou o regime fascista e os seus sustentáculos essenciais – os grande grupos monopolistas e os latifundiários – nacionalizando os sectores básicos da nossa economia e construindo a Reforma Agrária, com a entrega da terra a quem a trabalhava, pondo a riqueza e a produção nacionais ao serviço dos interesses dos trabalhadores, do povo e de Portugal.

os governos provisórios, que tiveram como preocupação maior, nas políticas que executaram, o bem-estar dos trabalhadores e do povo –   em especial, os governos que tiveram à sua frente aquele que foi o único primeiro-ministro, até hoje, a identificar-se totalmente com os interesses de Portugal e da imensa maioria dos portugueses: o General Vasco Gonçalves;

os trabalhadores que, nos últimos 35 anos, com grande coragem e determinação, têm feito frente à ofensiva dos partidos da política de direita e do grande capital contra Abril, a sua democracia e as suas conquistas – e que no momento actual se batem pelo direito ao emprego com direitos, contra os roubos nos salários e reformas, contra a liquidação do SNS e de outros serviços públicos, contra os aumentos brutais dos preços dos bens essenciais, contra a política de direita das troikas;

os jovens - a pensar nos quais nasceu o projecto de futuro que foi a Revolução de Abril -  dos quais depende em muito o futuro de Portugal e que  hoje constituem as primeiras vítimas da política anti-Abril das troikas;

os homens, mulheres e jovens que, de Norte a Sul do País, em iniciativas do mais diverso tipo, participam nas Comemorações Populares e assumem com essa participação o compromisso de prosseguir a luta pelos ideais e valores da Revolução de Abril.

25 de Abril Sempre – Fascismo Nunca Mais